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Crédito em choque: Inepar, construção e Desktop expõem extremos

Inepar tenta pagar credores com fundo judicial superavaliado, construção civil cresce sob juros altos e Desktop ganha nota máxima após venda à Claro Brasil. Veja o que está em jogo.

10/10/2026 15:00 8 min de leitura
Crédito em choque: Inepar, construção e Desktop expõem extremos
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Análise dos impactos financeiros em setores variados diante de desafios e oportunidades atuais.

A tentativa da Inepar de quitar dívidas com cotas de um fundo de créditos judiciais superavaliado, o esforço da construção civil para crescer com juros altos e a ascensão da Desktop ao topo do rating de crédito nacional revelam um mercado financeiro brasileiro tensionado, em que riscos e oportunidades convivem lado a lado.

Fundo judicial vira moeda frágil na recuperação da Inepar

A Inepar, tradicional companhia de engenharia em recuperação judicial, tenta pagar credores com cotas do FIDC Taranis, um fundo de direitos creditórios lastreado em ações judiciais. Essas cotas, porém, carregam um problema central: auditoria independente classifica a carteira como “superavaliada” e aponta que o fundo sequer recebeu os créditos dos processos que servem de base para os papéis.

Na prática, os credores são chamados a aceitar como pagamento um ativo cujo valor contábil não encontra respaldo em recebimentos efetivos. O risco é evidente. Se as ações judiciais não resultarem em ingressos de caixa, ou se os valores reconhecidos forem muito inferiores aos estimados, o patrimônio atrelado às cotas encolhe e as perdas recaem sobre quem as aceitou como moeda.

O caso expõe uma fragilidade sensível do mercado de fundos de direitos creditórios lastreados em ações judiciais, um nicho que ganhou espaço em estruturas de recuperação judicial e em operações de investidores institucionais. A suspeita de superavaliação, associada à ausência de recebimentos concretos, tende a acender um alerta em reguladores, juízes e credores sobre o uso desses ativos como garantia ou meio de pagamento.

O desfecho da disputa em torno do FIDC Taranis e de seu uso na recuperação da Inepar deve influenciar a forma como outros processos tratam carteiras semelhantes. Credores mais atentos já pressionam por perícias independentes, transparência na precificação e regras mais rígidas para aceitar fundos judiciais em planos de recuperação. Para as empresas endividadas, isso pode significar menos espaço para usar ativos de valor incerto como atalho para aliviar balanços.

Construção civil cresce, mas sente peso dos juros e dos custos

Enquanto casos como o da Inepar expõem fragilidades do crédito corporativo, a construção civil tenta se manter de pé em um ambiente hostil. O setor responde por cerca de 6% do Produto Interno Bruto e emprega mais de 3 milhões de trabalhadores, mas convive com juros elevados, endividamento das famílias e pressão de custos.

A Câmara Brasileira da Indústria da Construção projeta avanço de 0,5% neste ano e crescimento de 1,2% em 2026, ancorado em obras de infraestrutura e no programa Minha Casa, Minha Vida. As vendas de imóveis sobem 5,3% no segundo trimestre em relação ao mesmo período do ano passado, sinal de demanda ainda firme. O quadro, porém, está longe de ser confortável.

Os custos da construção acumulam alta de 6,44% nos 12 meses encerrados em julho, acima da inflação oficial de 4,44%. Insumos essenciais disparam. O fio de cobre encarece 21,35%, a porta interna sobe 16,06%, a bancada de pia 15,87% e o tubo de PVC rígido 14,35%. O setor ainda paga hoje o maior salário médio de admissão do país, de R$ 2.631,65, acima da média nacional.

A combinação de insumos caros e financiamento custoso espreme principalmente os segmentos de média e alta renda, mais dependentes do crédito imobiliário privado e de capital de giro bancário. “Taxas de juros por um longo período acima de dois dígitos prejudicam muito os investimentos produtivos, porque eles são de longo prazo. Quem precisa de crédito não é só quem vai comprar o imóvel, o construtor também precisa de capital de giro e sofre as consequências de um juro nesse patamar”, afirma a economista Ieda Vasconcelos, da CBIC e do Sinduscon-MG.

Agenda para destravar crédito, produtividade e regras trabalhistas

Diante desse cenário, lideranças do setor articulam uma agenda ampla. Eduardo Aroeira, presidente da CBIC, e Yorki Estefan, que comanda o SindusCon-SP, defendem a redução da burocracia para aprovar projetos, a criação de um Código de Obras Nacional que sirva de referência e a ampliação das fontes de financiamento de longo prazo.

Propostas já encaminhadas à área econômica do governo sugerem, por exemplo, elevar de 80% para 90% o direcionamento obrigatório dos recursos da poupança ao crédito residencial, mantendo 10% para outras operações imobiliárias. O cálculo do setor indica que a medida poderia liberar cerca de R$ 75 bilhões adicionais para financiamento habitacional, com taxas de até 12% ao ano para imóveis de até R$ 2,25 milhões.

A pauta trabalhista também pressiona. A redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, hoje em debate, preocupa empresários. Pelas contas da CBIC, a mudança representaria 208 horas a menos trabalhadas por profissional ao ano e exigiria a contratação de mais de 288 mil trabalhadores apenas para manter o nível atual de produção. Sem ganhos de produtividade, o custo da mão de obra poderia subir até 15%, com impacto de pelo menos 6% no custo final das obras.

Aroeira insiste em vincular qualquer mudança a um esforço estruturado de qualificação e modernização. “Defendemos que esse debate esteja associado a uma agenda de qualificação profissional, industrialização e aumento da produtividade, criando condições para que os ganhos de produtividade possam se traduzir também em melhores condições de trabalho e ganhos reais para os trabalhadores”, afirma. Estefan acrescenta a necessidade de ajustes na legislação de terceirização, revisão de multas em demissões sem justa causa e reforço na formação de jovens para enfrentar o déficit de mão de obra qualificada.

Desktop ganha nota máxima após integração à Claro Brasil

Na outra ponta do mercado de crédito, o movimento é de fortalecimento. A S&P National Ratings eleva nesta semana a nota de crédito nacional da Desktop de “brA+” para “brAAA”, patamar mais alto na escala doméstica, retira a classificação de observação positiva e atribui perspectiva estável.

A mudança ocorre após a conclusão da venda da provedora de internet para a Claro Brasil. A Desktop passa a ser controlada indiretamente pela América Móvil, gigante de telecomunicações com operações em diversos países. Na avaliação dos analistas Lucas Hiranobe e Wendell Sacramoni, “a integração da companhia à controlada da América Móvil fortalece a sua qualidade de crédito, que passa a contar com suporte operacional e financeiro de um conglomerado global”.

Esse respaldo se traduz em acesso a linhas de crédito e mútuos bancários com custo menor, além de ganhos de escala e eficiência pela integração de redes, sistemas e compras. A perspectiva estável indica que a agência espera manutenção de uma estrutura de capital sólida, com espaço para investimentos e expansão sem deterioração relevante dos indicadores de endividamento.

A nova nota coloca a Desktop em posição privilegiada em relação a concorrentes nacionais e tende a reduzir seu custo de captação no mercado de dívida. A transação também reforça a percepção de investidores de que o setor de tecnologia e telecomunicações, apoiado por grandes grupos globais, é hoje um dos poucos nichos em que o risco de crédito diminui, em contraste com casos como o de empresas em recuperação judicial.

Enquanto as disputas em torno de fundos judiciais forçam uma revisão das garantias aceitas em recuperações e o setor da construção civil tenta preservar o fôlego sob juros altos, operações como a da Desktop mostram que o capital ainda flui com força quando a combinação de governança, escala e apoio de conglomerados robustos se impõe. A disputa por crédito barato, transparência e previsibilidade continua a desenhar, em tempo real, o mapa de vencedores e perdedores da economia brasileira.

Por que a carteira superavaliada de FIDC virou moeda vazia para pagar credores?

A carteira do FIDC Taranis vira uma espécie de “moeda vazia” porque as cotas oferecidas pela Inepar aos credores estão lastreadas em processos judiciais que ainda não geram recebimentos efetivos e foram consideradas superavaliadas por auditoria, o que torna o valor de face desses papéis distante de um caixa real e imediato.

Como os juros altos estão afetando o acesso ao crédito na indústria brasileira?

Os juros em patamar de dois dígitos encarecem o crédito imobiliário e o capital de giro, restringindo investimentos produtivos e a capacidade de endividamento de empresas e famílias, como relata a construção civil; construtoras veem margens comprimidas, projetos retardados e compradores adiando decisões, o que trava a expansão de obras e empregos formais.

Como a nota de crédito da Desktop foi impactada após a aquisição pela Claro Brasil?

A nota de crédito nacional da Desktop sobe de “brA+” para “brAAA” após a aquisição pela Claro Brasil porque a companhia passa a contar com suporte financeiro e operacional da América Móvil, ganhando acesso a crédito mais barato, sinergias de escala e maior previsibilidade de caixa, fatores que reduzem o risco percebido pelas agências de rating.

Quais são os principais desafios da construção civil relacionados a juros e crédito para o próximo governo?

Os principais desafios incluem reduzir juros elevados que encarecem o financiamento habitacional e o capital de giro, aliviar o alto endividamento das famílias, ampliar fontes de crédito de longo prazo via poupança e mercado de capitais e enfrentar a pressão de custos trabalhistas e de insumos, preservando produtividade e emprego sem inviabilizar novos projetos.


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