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Crédito travado freia construção e ameaça crescimento em 2026

Caso Inepar acende alerta sobre fundos de créditos judiciais superavaliados, enquanto crédito privado se concentra nos emissores mais fortes e construção tenta crescer 1,2% em 2026 sob juros altos.

10/10/2026 16:00 8 min de leitura
Crédito travado freia construção e ameaça crescimento em 2026
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Superavaliação de fundos e juros altos limitam expansão do setor de construção em 2026.

O caso da Inepar, em recuperação judicial, expõe uma face pouco visível do crédito privado no Brasil: a tentativa de pagar credores com cotas de um fundo de créditos judiciais superavaliado, que nunca recebeu os direitos que prometia. Ao mesmo tempo, a construção civil tenta sustentar um crescimento projetado de 1,2% em 2026 num ambiente de juros altos e financiamento restrito.

O contraste ajuda a explicar o momento. Empresas fragilizadas recorrem a ativos complexos e de baixa liquidez para alongar dívidas, enquanto o dinheiro dos investidores se concentra em poucos emissores de melhor qualidade, sobretudo em setores considerados defensivos. Quem fica no meio do caminho, como o setor de construção, sente com força o peso do crédito caro e escasso.

Fundos judiciais sob suspeita e aversão ao risco

No centro da discussão no mercado está o FIDC Taranis, fundo de direitos creditórios lastreado em processos judiciais. A Inepar tenta entregar cotas desse fundo a seus credores, mas auditorias já classificam esses papéis como superavaliados. O problema é estrutural: o fundo não recebeu, de fato, os créditos que deveriam respaldar o valor de mercado das cotas.

O episódio chega justamente quando o Conselho Monetário Nacional restringe o uso de créditos judiciais em estruturas de fundos. O objetivo é evitar que carteiras pouco transparentes virem moeda corrente em recuperações e reestruturações, com risco de transferir um buraco difícil de mensurar para investidores institucionais e de varejo.

Casos recentes de recuperação judicial e extrajudicial criam a sensação de uma crise generalizada no crédito privado e alimentam uma onda de aversão a risco. Fundos de debêntures e de infraestrutura sofreram resgates, spreads subiram e emissões novas ficaram mais caras ou simplesmente inviáveis para empresas fora do primeiro escalão.

Gestoras especializadas relatam um comportamento atípico dos aplicadores. “Pela primeira vez, começamos a receber ligações de investidores para perguntar por que o nosso fundo estava indo bem. Geralmente perguntam quando está ruim”, diz Gabriela El-Jaick, corresponsável pela área de pesquisa da Leto Asset Management. O interesse pelo que dá certo revela a preocupação em separar o joio do trigo num mercado mais seletivo.

Crédito se concentra nos mais fortes e encarece o resto

Nesse novo ambiente, o dinheiro migra para quem oferece balanços robustos, governança consolidada e negócios menos cíclicos. O resultado é uma concentração maior de recursos em poucos grupos, enquanto empresas médias, companhias em recuperação e setores mais arriscados enfrentam janelas fechadas ou custo proibitivo.

A seletividade agrava o quadro de quem precisa de capital para girar a operação ou financiar projetos de longo prazo. Sem mercado de capitais funcional para todos os perfis de risco, sobra a dependência dos bancos — que também endurecem critérios depois de verem ativos judicializados transformados em promessa vazia.

O caso Inepar funciona, assim, como um alerta para o desenho de instrumentos financeiros baseados em créditos judiciais. Sem transparência sobre o estágio dos processos, a chance de recuperação real e o fluxo esperado de pagamentos, esses fundos podem inflar balanços no curto prazo e corroer confiança no médio.

Construção cresce pouco, com custos em alta e crédito caro

Enquanto o mercado de crédito se retrai, a construção civil tenta avançar. O setor responde por cerca de 6% do PIB brasileiro e emprega mais de 3 milhões de trabalhadores, com salário médio de admissão de R$ 2.631,65, acima da média nacional. A projeção da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) é de crescimento de 1,2% em 2026, após alta de 0,5% em 2025.

Obras de infraestrutura e programas habitacionais, como o Minha Casa, Minha Vida, sustentam parte desse desempenho. As vendas do setor sobem 5,3% no segundo trimestre em relação ao mesmo período do ano passado. Mas os números vêm acompanhados de um alerta: o avanço ocorre sobre um terreno frágil, marcado por juros elevados, famílias endividadas e custo crescente.

Nos 12 meses encerrados em julho, os custos da construção sobem 6,44%, frente a uma inflação oficial de 4,44%. Insumos essenciais descolam ainda mais: o fio de cobre dispara 21,35%. A pressão corrói margens, especialmente em empreendimentos de média e alta renda, mais dependentes do crédito imobiliário privado, como ressalta o presidente da CBIC, Eduardo Aroeira.

Ieda Vasconcelos, economista da CBIC e do Sinduscon-MG, resume o nó central: “Taxas de juros por um longo período acima de dois dígitos prejudicam muito os investimentos produtivos, porque eles são de longo prazo. Quem precisa de crédito não é só quem vai comprar o imóvel, o construtor também precisa de capital de giro e sofre as consequências de um juro nesse patamar”.

Agenda de reformas: burocracia, jornada e financiamento

Setores organizados da construção montam uma agenda para tentar destravar investimentos. Yorki Estefan, presidente do SindusCon-SP, defende a redução da burocracia para aprovação de projetos, a criação de um Código de Obras Nacional de referência e a ampliação das fontes de financiamento. A crítica recorrente é à lentidão do poder público em adaptar regras e sistemas à nova reforma tributária.

Na frente do crédito, a CBIC propõe ampliar de 80% para 90% o direcionamento obrigatório dos recursos da poupança para o financiamento residencial. O cálculo da entidade indica que a medida poderia liberar cerca de R$ 75 bilhões adicionais para habitação, com juros de até 12% ao ano em imóveis de até R$ 2,25 milhões.

A discussão trabalhista também entra no radar. O debate sobre reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas preocupa as construtoras. Nas contas da CBIC, se a mudança vier sem ganho de produtividade, o custo da mão de obra pode subir até 15% e gerar impacto mínimo de 6% no custo total das obras. Aroeira insiste que o tema precisa vir ligado a uma agenda de eficiência. “Defendemos que esse debate esteja associado a uma agenda de qualificação profissional, industrialização e aumento da produtividade, criando condições para que os ganhos de produtividade possam se traduzir também em melhores condições de trabalho e ganhos reais para os trabalhadores”, afirma.

O setor também pressiona por ajustes na legislação de terceirização, revisão de multas em demissões sem justa causa e programas robustos de formação de mão de obra, inclusive com planos de carreira para jovens. A agenda ambiental aparece como eixo complementar, com defesa de métodos construtivos mais sustentáveis, redução de emissões de carbono e uso racional de água e energia.

Mercado mais seletivo e setor dependente dos juros

No horizonte próximo, a tendência é que o crédito privado siga mais regulado e concentrado em emissores sólidos. As restrições a fundos de créditos judiciais devem apertar o cerco a estruturas como a usada pela Inepar, reduzindo espaço para ativos superavaliados e exigindo maior transparência.

Na construção civil, o crescimento moderado previsto para 2026 depende de variáveis macroeconômicas fora do controle direto das empresas. Ieda Vasconcelos lembra que as perspectivas para 2027 permanecem incertas e ligadas à trajetória das contas públicas e dos juros, que devem seguir em patamar elevado. Sem alívio consistente na taxa básica e sem uma política clara para crédito de longo prazo, a expansão do setor corre o risco de ficar aquém do potencial.

Empresários e economistas da área apostam as fichas em negociações com o governo federal, em torno de reformas administrativas, ajustes trabalhistas e redesenho das políticas de financiamento habitacional. A questão central permanece aberta: o país conseguirá construir, ao mesmo tempo, um mercado de crédito mais seguro para o investidor e suficientemente amplo para financiar a infraestrutura e a habitação de que precisa?

Por que a carteira de FIDC está sendo considerada uma moeda ‘vazia’ para pagar credores?

A carteira do FIDC Taranis é tratada como uma “moeda vazia” porque o fundo, embora avaliado por cifras elevadas em balanços, nunca recebeu efetivamente os créditos judiciais que deveriam lastreá-lo, o que significa que as cotas entregues aos credores podem não ter recuperação real e podem representar apenas valor contábil inflado.

Quais são os principais obstáculos para as indústrias brasileiras acessarem crédito de longo prazo?

Os principais obstáculos são juros elevados em patamar de dois dígitos, maior aversão a risco após casos de recuperação judicial, concentração de recursos em poucos emissores de melhor qualidade, exigências rígidas de garantias, mercado de capitais seletivo e incertezas fiscais que encarecem prazos longos e afastam investidores de projetos produtivos.

Como os juros altos impactam o acesso ao crédito na indústria e na construção civil?

Juros altos em dois dígitos encarecem o custo de capital de giro e de investimentos de longo prazo, reduzem a capacidade de endividamento de famílias e empresas, comprimem margens já pressionadas por custos em alta, tornam projetos menos viáveis e levam bancos e investidores a selecionar apenas tomadores considerados de risco muito baixo.

Qual é a agenda da construção civil em relação ao crédito para o próximo governo?

A agenda da construção inclui ampliar de 80% para 90% o direcionamento da poupança para financiamento residencial, buscar equilíbrio fiscal para permitir queda de juros, simplificar a burocracia para aprovar projetos, adaptar a reforma tributária ao setor e criar condições para mais crédito privado acessível e de longo prazo.


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