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Economia

Disputa por mina de Corumbá acirra crise política na Vale

Tentativa de venda de fatia da mina de Corumbá por até R$ 4 bilhões expõe bastidores da relação entre Joesley Batista e Vale e pressiona governança da mineradora.

17/07/2026 22:20 8 min de leitura

Economia

Venda da mina de Corumbá revela tensões internas e pressiona a governança da Vale em meio a negociações bilionárias.

Joesley Batista tenta vender uma fatia bilionária da mina de Corumbá (MS) para a Vale em 2026. A negociação, mantida sob sigilo até maio, vem à tona em julho e aprofunda a crise política na mineradora às vésperas da assembleia de acionistas marcada para 22 de julho de 2026.

A operação não se concretiza. A diretoria da Vale considera o negócio financeiramente ruim, mas o episódio escancara divergências internas, rearranja o poder no conselho e recoloca o nome de Joesley no centro de uma disputa por ativos estratégicos na mineração.

A mina, o preço e a estratégia de Joesley

No centro da disputa está a mina de minério de ferro de Corumbá, parte do chamado Sistema Centro-Oeste. O grupo J&F compra o ativo em 2022 por US$ 1,2 bilhão e, quatro anos depois, passa a testar o mercado para vender uma participação minoritária.

Segundo fontes da Vale ouvidas pela imprensa, o empresário busca levantar entre R$ 2 bilhões e R$ 4 bilhões ao vender uma fatia da controladora LHG Mining, que reúne os ativos da região. A ideia é negociar algo em torno de 30% por cerca de R$ 2 bilhões ou até 45% por R$ 4 bilhões, sem abrir mão do comando da operação.

O movimento se encaixa na estratégia de Joesley de monetizar ativos minerais, reduzir exposição a risco e abrir espaço para novos investimentos. Em maio de 2026, ele injeta R$ 300 milhões na Avibras Aeroco, empresa criada após a reestruturação da tradicional fabricante de equipamentos militares, num negócio desenhado para ficar livre dos passivos da Avibras Indústria Aeroespacial, hoje em recuperação judicial.

Para conduzir a venda da participação minoritária na LHG Mining, a J&F contrata o banco Citi. O mandato é explorar possibilidades de parceria com grandes players do setor, entre eles a antiga dona da mina.

Visita sigilosa, e-mail vazado e recado ao mercado

Em maio, o então chairman da Vale, Daniel Stieler, organiza um jantar no restaurante Nido, na zona sul do Rio de Janeiro, com os irmãos Batista. À mesa, além de Joesley, estão conselheiros da mineradora e o CEO, Gustavo Pimenta, que em 2022 vende Corumbá para a J&F quando ainda é diretor financeiro da empresa.

No dia seguinte, parte dessa comitiva embarca em um jato particular rumo às minas do Sistema Centro-Oeste, em Mato Grosso do Sul. A programação, atribuída a Stieler por pessoas próximas ao conselho, inclui visita detalhada às instalações e à logística fluvial montada pela J&F.

O conselheiro Manoel Lino Oliveira, conhecido como Ollie, chega ao encontro cético sobre o negócio. Depois da viagem, muda de posição. Em um e-mail confidencial enviado a Stieler e a Pimenta no início de maio, ele relata a mudança de percepção e elogia, em tom incomum para um documento interno, o perfil dos irmãos Batista.

No texto, Ollie fala em “empreendedorismo fora do normal” e “apetite para riscos muito além de nós”. Destaca que a J&F obtém licenças para produzir até 26 milhões de toneladas de minério de ferro e investe pesado no escoamento por hidrovias.

O e-mail vaza. Seu teor é publicado pelo colunista Lauro Jardim e o caso explode no noticiário econômico. A Vale reage com um comunicado em que nega planejar recomprar a mina. A J&F também nega ter tentado vender o controle do ativo, mas admite a visita da comitiva e a contratação do Citi para buscar um sócio minoritário na LHG Mining.

Diretoria barra negócio e expõe fratura interna

Nos bastidores, executivos da Vale confirmam que houve tentativa de aproximação por parte de Joesley. “De acordo com essas informações, Joesley queria repassar à Vale 45% da mina que custou US$ 1,2 bilhão em 2022 por R$ 4 bilhões”, relatam fontes da mineradora à colunista Malu Gaspar.

Outra possibilidade debatida, segundo as mesmas fontes, prevê uma participação próxima de 30%, num modelo de parceria, por cerca de R$ 2 bilhões. Em ambos os cenários, a J&F permaneceria no controle do ativo e dividiria o risco operacional e de mercado.

O comitê executivo da Vale, porém, fecha questão contra o negócio. “O negócio acabou não indo adiante porque foi considerado ruim pela diretoria da mineradora”, dizem integrantes da cúpula, também em condição de anonimato. A avaliação é que a taxa de retorno estimada para Corumbá, mesmo com perspectivas de expansão, não compensa o desembolso pedido pela J&F.

O episódio ganha contornos políticos quando se cruza com a disputa de poder dentro do conselho. O fundo de pensão Previ, um dos maiores acionistas da Vale, já vinha em rota de colisão com Stieler. Após o vazamento do e-mail de Ollie e a repercussão sobre a visita à mina, o fundo decide destituir Stieler e passa a apoiar justamente Ollie para a presidência do colegiado.

A troca aprofunda o desconforto entre conselheiros e executivos. Para parte do mercado, a sequência de eventos acende alerta sobre a governança da mineradora e o grau de influência de grandes acionistas em decisões estratégicas bilionárias.

Quem ganha, quem perde e o que está em jogo

A negociação fracassada deixa marcas de lado a lado. Joesley não consegue realizar o ganho imediato de capital esperado com Corumbá, mas mantém sob seu guarda-chuva um ativo considerado estratégico na fronteira Centro-Oeste da mineração brasileira. A tentativa reforça a leitura de que a J&F caminha para se firmar como um grupo relevante no setor, com apetite maior a risco geológico, ambiental e regulatório do que mineradoras tradicionais.

Para a Vale, o recado oficial é de cautela. A recusa a pagar R$ 4 bilhões por 45% de um ativo vendido quatro anos antes por US$ 1,2 bilhão indica uma postura mais conservadora em aquisições, num momento de cobrança por disciplina de capital e foco em retorno para acionistas.

No mercado financeiro, o caso alimenta a narrativa de que a governança da companhia ainda enfrenta ruídos importantes. O episódio mistura jantar reservado, visita pouco transparente, e-mail vazado e mudança repentina na correlação de forças do conselho, com a Previ reforçando seu peso na definição dos rumos da mineradora.

A assembleia de 22 de julho de 2026 tende a transformar a mina de Corumbá em símbolo desses conflitos. Investidores minoritários e gestoras institucionais prometem questionar a transparência do processo, os critérios usados na análise da proposta da J&F e a forma como conselheiros e executivos lidam com ofertas vindas de grupos empresariais com forte histórico político.

Para além da disputa interna na Vale, a tentativa de venda reforça uma tendência de reacomodação de grandes ativos de mineração no país, com grupos de capital nacional e estrangeiro testando limites de preço e de apetite ao risco. A forma como o caso Corumbá é resolvido vai servir de referência para futuras transações no setor.

Ainda que o negócio não saia, a pressão sobre todos os envolvidos aumenta. Joesley precisa mostrar ao mercado que consegue destravar valor de seus investimentos minerais. A Vale, por sua vez, entra na assembleia sob escrutínio redobrado, obrigada a provar que a recusa de hoje não se tornará, no futuro, mais um erro de avaliação em seu histórico de decisões bilionárias.

O que Joesley Batista quer com a venda da mina para a Vale?

Ele busca monetizar parte de um ativo comprado por US$ 1,2 bilhão, levantar caixa bilionário, reduzir risco em mineração e abrir espaço para novos investimentos e reorganização financeira.

Por que a Vale descartou investir nas minas dos irmãos Batista?

A diretoria concluiu que a taxa de retorno projetada não justificava pagar de R$ 2 bilhões a R$ 4 bilhões pela fatia oferecida, apesar do potencial de expansão do ativo.

Qual é o valor que Joesley Batista pede para vender a mina à Vale?

Fontes da Vale relatam que ele queria cerca de R$ 2 bilhões por algo próximo de 30% e até R$ 4 bilhões por 45% da controladora da mina de Corumbá.

Como está a situação das dívidas da Avibras envolvendo Joesley Batista?

O investimento de R$ 300 milhões de Joesley é na Avibras Aeroco, nova empresa criada sem os passivos. As dívidas permanecem na antiga Avibras Indústria Aeroespacial, em recuperação judicial.

O que revelam os e-mails sobre a visita dos conselheiros da Vale à mina da J&F?

O e-mail de Manoel Lino Oliveira mostra que ele muda de posição após a visita, elogia o “empreendedorismo fora do normal” dos Batista e seu “apetite para riscos muito além de nós”. O vazamento do texto expõe o racha interno na Vale e pressiona a mineradora a explicar as tratativas com a J&F.


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