Flávio Bolsonaro confirma Alfredo Gaspar como vice em 2026
Senador escolhe deputado alagoano e consolida chapa ‘puro-sangue’ do PL após neutralidade de Republicanos, União e PP e fracasso na busca por uma vice mulher.
Eleições 2026
Senador define deputado alagoano como vice, fortalecendo chapa do PL para a próxima disputa presidencial.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) anuncia nesta quarta-feira (05/08/2026) o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice-presidente em sua chapa presidencial. A decisão encerra semanas de negociações e cristaliza uma candidatura “puro-sangue” do PL, sem aliados formais de outras siglas.
Chapa fechada após neutralidade e impasse com aliadas
O anúncio coroa uma virada na estratégia da campanha. A cúpula bolsonarista tenta, desde o início das articulações, atrair Republicanos, União Brasil e PP para uma frente de centro-direita competitiva em 2026. As três legendas, porém, comunicam neutralidade na disputa nacional, esvaziando planos de uma coligação ampla.
Flávio Bolsonaro passa as últimas semanas buscando uma mulher para o posto de vice, mirando diretamente os 52,8% de eleitoras que hoje formam a maioria do eleitorado. A senadora Tereza Cristina (PP-MS) e a ex-presidente da Caixa Daniella Marques (Republicanos) chegam a ser tratadas como favoritas, mas esbarram em resistências internas de seus partidos. Ambas agradecem o convite e permanecem fora da chapa.
Com o caminho fechado nas outras siglas e o calendário eleitoral avançando, o PL abandona a ideia de um nome externo e feminino. A solução nasce dentro de casa e no Nordeste, com Alfredo Gaspar, que havia sido confirmado em 4 de agosto como candidato ao Senado por Alagoas durante convenção do partido em Maceió.
Quem é Alfredo Gaspar, o vice de Flávio Bolsonaro
Alfredo Gaspar constrói sua trajetória longe de Brasília. Ex-promotor de Justiça, ele chega ao comando do Ministério Público de Alagoas e depois assume a Secretaria de Segurança Pública do estado, cargo em que se notabiliza pelo discurso duro contra o crime organizado. Em 2022, é eleito deputado federal e, em pouco tempo, salta do noticiário regional para a vitrine nacional.
Esse salto vem com a relatoria da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS, criada para investigar suspeitas de fraudes em descontos de aposentados e pensionistas. Ao fim dos trabalhos, Gaspar apresenta um relatório em que pede o indiciamento de mais de 200 pessoas, entre parlamentares, ex-ministros, dirigentes estatais, entidades e Fábio Luís Lula da Silva, o “Lulinha”, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O texto, no entanto, é rejeitado por 19 votos a 12, e a CPMI termina sem relatório final. A derrota em plenário não apaga o efeito político da empreitada. A base bolsonarista passa a tratar Gaspar como símbolo de enfrentamento ao governo Lula e de defesa dos aposentados, capital que agora é incorporado à chapa presidencial.
No discurso em Brasília, Flávio Bolsonaro explora essa imagem. Define o aliado como “uma pessoa que eu aprendi a admirar, todos vocês aqui aprenderam a admirar pela coragem, honestidade, pela sua história em frente à segurança pública. Alguém que já foi promotor de Justiça, chefe de Ministério Público do seu estado”. E completa: “Alguém que enfrentou e defendeu os nossos aposentados na CPMI do INSS. Alguém que pediu a prisão do Lulinha porque tinha culpa no cartório. E alguém que representa o Nordeste de fato”.
Nordeste no centro da estratégia do PL
A escolha de um deputado alagoano não é casual. O Nordeste, região em que o bolsonarismo encontra seus piores índices desde 2018, é tratado como território decisivo para 2026. Levar um nordestino para a cabeça da articulação política da campanha é, para o PL, uma forma de tentar furar o bloqueio de rejeição e abrir canais com prefeitos e lideranças locais.
Gaspar explora essa origem em seu primeiro discurso como vice. “Vossa Excelência escolheu uma pessoa simples, nordestina, mas com uma história de vida de muito trabalho”, afirma ao lado de Flávio. Emenda que, ao aceitar a missão, “marchará para transformar esse Brasil num local justo e decente”.
Também reserva um momento para o componente emocional que mobiliza o núcleo bolsonarista. “Me permita, presidente, dizer que eu sinto uma falta grande hoje de duas pessoas: do meu pai, que está no céu, e do seu pai, que está em cativeiro”, diz, em referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar, e ao próprio pai, morto.
O caminho de Gaspar até o posto de vice passa ainda por uma promessa de Jair Bolsonaro ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que abre espaço para o alagoano dentro do PL. O gesto aproxima o deputado da família Bolsonaro e pavimenta sua ascensão da política estadual à cena nacional.
Impasse feminino expõe limite da chapa masculino-partidária
A ausência de uma mulher na chapa, mesmo após tantas sondagens, é o ponto sensível da decisão. A tentativa de atrair Tereza Cristina e Daniella Marques mostra que a campanha de Flávio Bolsonaro reconhece a dificuldade com o público feminino, historicamente mais refratário ao bolsonarismo.
As duas, porém, fazem questão de demonstrar apoio público ao projeto, mesmo fora da vaga de vice. Daniella Marques, hoje no Republicanos, argumenta que a escolha de um homem não necessariamente afastará eleitoras. “A mulher não vota só porque é mulher, ela vota em valores. Ela vai avaliar os valores do Alfredo Gaspar […] Ele é de uma área que o Brasil acha hoje que é a principal, que é a Segurança, um promotor de Justiça. Mas não vejo isso como fator preponderante. Eu nem sei se eu sendo a vice eu traria as mulheres”, afirma.
A leitura dentro do PL é que a agenda de segurança pública, bandeira de Gaspar, pode ajudar a reconectar parte desse eleitorado, sobretudo em grandes centros urbanos marcados pelo medo da violência. A aposta é que o currículo do ex-promotor e do ex-secretário de Segurança dialogue com demandas cotidianas por proteção, ainda que a chapa siga composta apenas por homens.
Michelle Bolsonaro, vista por aliados como principal ativo entre mulheres conservadoras, não participa do evento de anúncio, nem da convenção em Maceió que oficializa a candidatura de Flávio. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) diz que a ex-primeira-dama se ausenta para “cuidar” de Jair Bolsonaro e garante que a relação com o senador está “boa”.
Chapa ‘puro-sangue’ reforça identidade, mas limita alianças
Com Alfredo Gaspar de vice, o PL assume de vez uma campanha centrada em seus próprios quadros. A chapa “puro-sangue” dá ao partido controle total da mensagem, do programa e da distribuição de recursos. Também reduz o poder de veto de aliados e permite calibrar o discurso sem amarras externas.
Esse ganho de coesão, porém, tem custo. Sem Republicanos, União Brasil e PP em aliança formal, o bolsonarismo perde capilaridade em estados onde essas siglas dominam prefeituras e estruturas partidárias. A neutralidade anunciada deixa em aberto o comportamento das bases dessas legendas, que podem negociar apoios locais, mas não carregar automaticamente seus votos para a urna presidencial.
Na prática, a campanha de Flávio Bolsonaro entra na fase decisiva com dois desafios simultâneos. De um lado, consolidar o nome de Alfredo Gaspar para além do círculo antipetista, apresentando-o a um eleitorado que ainda o conhece pouco fora de Alagoas e da CPMI do INSS. De outro, tentar romper o isolamento parcial que a chapa “puro-sangue” produz, buscando apoios regionais e setoriais fora das estruturas tradicionais de coalizão.
A tendência é que o relatório rejeitado da CPMI volte ao centro do discurso bolsonarista, como símbolo de confronto com o governo Lula e de combate à corrupção. A forma como esse tema será recebido pelo eleitorado e pelos partidos hoje neutros pode definir se a aposta no vice alagoano se traduz em expansão de votos ou apenas reforça o núcleo já convertido.
Com a chapa oficialmente definida, o próximo movimento do PL será medir, nas próximas pesquisas, o impacto imediato do nome de Alfredo Gaspar, especialmente no Nordeste e entre as mulheres. A campanha sabe que 2026 cobra mais do que identidade partidária: cobra capacidade de formar maiorias, tanto nas urnas quanto no Congresso, caso a dupla chegue ao Planalto.
Quem é o vice de Flávio Bolsonaro?
Alfredo Gaspar é deputado federal pelo PL de Alagoas, ex-promotor de Justiça, ex-chefe do Ministério Público alagoano, ex-secretário de Segurança Pública do estado e relator da CPMI do INSS.
Por que Flávio Bolsonaro escolheu Alfredo Gaspar?
Pela trajetória em segurança pública, pela projeção nacional na CPMI do INSS, pelo perfil de combate à corrupção e pela origem nordestina, estratégica para a campanha do PL.
O que significa a chapa ‘puro-sangue’ do PL?
Significa que tanto o candidato a presidente quanto o vice são do PL, sem indicação de outros partidos. O partido ganha controle interno, mas perde amplitude de alianças.
A ausência de uma vice mulher pode prejudicar a chapa?
Há risco de afastar parte do eleitorado feminino, que é 52,8% do total. A campanha tenta compensar com a agenda de segurança e com o apoio público de lideranças mulheres aliadas.

