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CNH digital e novas regras fazem emissão disparar no RS

Emissão de CNH cresce 44,3% no RS em 2026 com digitalização e redução de burocracia, enquanto decisão judicial em SP limita negativa de seguro por CNH vencida.

09/08/2026 22:29 9 min de leitura
Damaged in car accident vehicle on city street crash site.
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Tecnologia

A digitalização e mudanças nas regras impulsionam significativamente a emissão de CNH no Rio Grande do Sul.

A emissão de Carteira Nacional de Habilitação no Rio Grande do Sul cresce 44,3% no primeiro semestre de 2026, puxada por novas regras e digitalização do processo. Entre janeiro e junho, 102.215 motoristas recebem o documento, contra 70.839 no mesmo período de 2025.

Menos burocracia, mais habilitados

O salto nas habilitações ocorre em meio à mudança da legislação de trânsito e à expansão da CNH digital no país. As novas normas do Conselho Nacional de Trânsito entram em vigor em janeiro de 2026, após aprovação em dezembro do ano anterior, e alteram a rotina de quem busca a primeira carteira.

O objetivo oficial é reduzir custos e simplificar a formação de condutores. Na prática, a carga horária prática obrigatória cai, o agendamento de etapas migra para plataformas on-line e etapas presenciais se concentram em aulas e exames. O Detran-RS adota um modelo híbrido nos primeiros meses, misturando regras antigas e novas, e passa à aplicação integral em março.

O efeito aparece nos números. Em julho, já sob o novo formato consolidado, o Estado registra 23.067 novas habilitações, o maior volume mensal desde o início da série histórica, em 1997. A demanda reprimida no fim de 2025, à espera das mudanças, também ajuda a explicar a curva ascendente.

O Sindicato dos Centros de Formação de Condutores do Rio Grande do Sul aponta o comportamento dos candidatos no fim do ano passado como peça-chave. “Precisamos lembrar que em dezembro, novembro e outubro de 2025, praticamente ninguém fez carteira de habilitação no Brasil, aguardando as novas regras para a formação de condutores. Temos que levar em conta todas essas circunstâncias”, afirma Vilnei Pinheiro Sessim, presidente do SindiCFC.

Categorias AB e B lideram corrida pela primeira CNH

Os dados do Detran-RS mostram que o crescimento se concentra nas categorias voltadas ao uso cotidiano de carro e moto. A carteira AB, que permite conduzir os dois tipos de veículo, tem a maior alta proporcional: passa de 8.362 para 13.297 novas habilitações entre janeiro e junho, avanço de 59%.

A categoria B, destinada apenas a carros, lidera em volume absoluto. Em seis meses, salta de 55.446 para 82.046 novos condutores, um aumento de 26,6 mil emissões, equivalente a 49,9%. A categoria A, exclusiva para moto, é a única a encolher, com leve queda de 7.031 para 6.872 habilitações, recuo de 2,26%.

O movimento reflete um cenário em que a Carteira Nacional de Habilitação volta a caber no bolso de mais famílias. A combinação de carga horária reduzida, maior previsibilidade de prazos e possibilidade de baixar a CNH digital no aplicativo oficial do governo diminui o custo indireto da formação, como deslocamentos e horas de trabalho perdidas.

Os centros de formação de condutores relatam salas cheias e filas de espera reativadas, depois de um final de 2025 esvaziado. Instrutores veem a demanda se espalhar por cidades médias e pequenas, onde a CNH costuma representar também uma porta de entrada para o mercado de trabalho de entrega, transporte por aplicativo e serviços.

Instrutor autônomo e CNH definitiva pela internet

A engrenagem que leva à primeira habilitação também muda de perfil. A figura do instrutor autônomo, regulamentada e credenciada no Estado, passa a dividir espaço com os CFCs tradicionais. Segundo o Detran-RS, 500 profissionais já atuam nesse modelo, oferecendo aulas por conta própria, mas sob supervisão e regras públicas.

No outro extremo do processo, quem completa um ano de permissão para dirigir sem infrações graves, gravíssimas ou reincidência em multas médias agora pode solicitar a CNH definitiva pela internet. O pedido é feito na Central de Serviços do Detran-RS ou diretamente no aplicativo CNH do Brasil, sem necessidade de retorno ao CFC.

A medida vale para permissionários que não têm direito à conversão gratuita automática. Condutores que integram o cadastro positivo do governo federal e passam 12 meses sem multas podem atualizar o documento apenas pelo celular, seguindo as instruções do aplicativo e recebendo o registro em formato digital. A emissão impressa continua opcional.

Quem acumula infrações no período ou deseja o documento físico precisa recorrer ao atendimento presencial, na Central de Serviços ou em um centro de formação de condutores, com pagamento de taxa de R$ 80,37. Condutores com anotação de atividade remunerada na CNH, ou que saem de exames médico e psicológico com resultado “apto com validade”, têm de renovar presencialmente essas avaliações para obter a carteira definitiva.

A digitalização do processo reduz filas no atendimento, mas impõe um desafio de inclusão digital. Jovens familiarizados com aplicativos migram rapidamente para o novo modelo, enquanto condutores mais velhos ainda buscam orientação em CFCs e postos do Detran.

Decisão judicial limita negativa de seguro por CNH vencida

Enquanto o Rio Grande do Sul acelera a emissão da Carteira Nacional de Habilitação, uma decisão recente da Justiça paulista redefine limites para o uso da habilitação vencida como argumento de seguradoras. Em São Paulo, a juíza Marian Najjar Abdo, da 4ª Vara Cível do Foro Regional de Santo Amaro, condena uma empresa do setor a pagar indenização integral por acidente com perda total em Santos, mesmo com a CNH do segurado vencida.

No processo 4030629-72.2026.8.26.0002, o motorista pede R$ 269 mil relativos ao valor do veículo, segundo a Tabela Fipe, mais R$ 72 mil da cobertura específica de blindagem, além de danos materiais a terceiros e R$ 20 mil por danos morais. A seguradora reconhece administrativamente a perda total, mas condiciona a liberação dos valores à regularização da carteira, alegando que o direito de dirigir estaria suspenso ou cassado.

Ao analisar o caso, a magistrada conclui que a empresa não comprova qualquer suspensão ou cassação definitiva da habilitação, limitando-se a apontar o vencimento do prazo de validade. Ampara-se em decisões anteriores do Superior Tribunal de Justiça e do Tribunal de Justiça de São Paulo, que tratam a CNH vencida como irregularidade administrativa, sem impacto automático no risco do contrato.

“Dessa forma, o condicionamento da indenização à regularização da CNH, com o sinistro já reconhecido administrativamente, revela-se medida incompatível com a função primordial do contrato de seguro e excessivamente onerosa ao consumidor, nos termos do art. 51, IV, do CDC, não podendo prevalecer para obstar o recebimento de indenização já apurada e incontroversa quanto à sua existência”, escreve a juíza.

O advogado Roberto Farias Amaral, que atua na defesa do motorista ao lado de Luiz Fernando Pereira Busta, resume o recado do Judiciário ao mercado. “Não basta a seguradora afirmar que a habilitação estava suspensa ou cassada. Se essa circunstância é utilizada para negar uma indenização, cabe à empresa comprová-la documentalmente e demonstrar de que forma ela contribuiu para o acidente ou representou um agravamento intencional do risco”, afirma.

A decisão reforça a proteção contratual de segurados com Carteira Nacional de Habilitação vencida, sem afastar a possibilidade de negativa quando houver, de fato, suspensão do direito de dirigir ou fraude comprovada. Ao mesmo tempo, pressiona seguradoras a rever cláusulas genéricas de exclusão e a calibrar manuais internos de análise de sinistros.

Mais motoristas nas ruas e pressão sobre fiscalização

O avanço da CNH digital, a queda da burocracia e a consolidação da jurisprudência em torno de irregularidades administrativas desenham um cenário de mais motoristas nas ruas e maior segurança jurídica para quem já dirige. O Rio Grande do Sul se transforma em vitrine dessa nova fase, com recordes de emissão alimentados por regras mais enxutas e serviços on-line.

O impacto, porém, não se limita à mesa do despachante ou à tela do celular. Um contingente maior de motoristas habilitados pressiona a infraestrutura viária, o transporte coletivo e os sistemas de fiscalização. Prefeituras e governos estaduais serão cobrados por mais educação no trânsito, campanhas permanentes e fiscalização capaz de acompanhar a curva de crescimento das habilitações.

Nos próximos meses, o Detran-RS terá o desafio de estabilizar a demanda após o pico de 2026, observar a qualidade da formação sob o novo modelo e medir reflexos em índices de acidentes. No Judiciário, a decisão de São Paulo tende a alimentar novas ações de segurados em disputas semelhantes, até que tribunais superiores consolidem ainda mais o entendimento sobre o peso da CNH vencida em contratos de seguro.

A combinação de CNH digital mais acessível, formação simplificada e proteções jurídicas em expansão indica um trânsito com mais condutores formalmente habilitados. A pergunta é se o país conseguirá transformar esse avanço documental em deslocamentos mais seguros, menos desiguais e, de fato, organizados.

Como solicitar a Carteira Nacional de Habilitação definitiva pela internet?

No Rio Grande do Sul, o permissionário que completou um ano sem infrações graves, gravíssimas ou reincidência em médias acessa a Central de Serviços do Detran-RS ou o aplicativo CNH do Brasil, confirma dados e solicita a conversão. O documento passa a constar em formato digital e, se não quiser o impresso, não precisa ir ao CFC.

O que acontece se a CNH estiver vencida e o motorista sofrer um acidente?

A CNH vencida é tratada pelos tribunais como irregularidade administrativa, não como prova automática de aumento de risco. No caso julgado em São Paulo, a Justiça determinou o pagamento integral da indenização porque a seguradora não comprovou suspensão ou cassação do direito de dirigir nem relação entre o vencimento do documento e o acidente.

Quais são as novas regras para emissão da CNH no Rio Grande do Sul?

As normas em vigor desde janeiro de 2026 reduzem a carga horária prática obrigatória, ampliam o uso de serviços digitais e permitem que etapas sejam marcadas e acompanhadas on-line. O Detran-RS adotou um período curto de transição híbrida e, desde março, aplica integralmente o novo modelo, que também abriu espaço para instrutores autônomos credenciados ao lado dos CFCs.


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