Justiça de SP suspende demissão do delegado Da Cunha hoje
Decisão liminar do Tribunal de Justiça de São Paulo suspende a demissão do delegado e deputado federal Carlos Alberto da Cunha, anunciada por Tarcísio de Freitas, e mantém o vínculo dele com a Polícia Civil, em meio a acusações de abuso de autoridade e simulação de operação policial.
Justiça
Tribunal de SP mantém vínculo do delegado Carlos Alberto da Cunha com a Polícia Civil após liminar suspender sua demissão.
A Justiça de São Paulo suspende, por liminar, a demissão do delegado e deputado federal Carlos Alberto da Cunha, anunciada pelo governador Tarcísio de Freitas. A decisão mantém o vínculo de Da Cunha com a Polícia Civil, mesmo afastado e sem salário, e abre nova frente de disputa jurídica e política em torno do caso.
Decisão trava exoneração e expõe desgaste com o governo
A liminar é assinada pelo desembargador Álvaro Torres Júnior, que impede a publicação da exoneração no Diário Oficial do Estado. O ato, se consumado, retiraria em definitivo o delegado dos quadros da corporação paulista.
O magistrado afirma que “há risco de que a demissão fosse efetivada antes de uma análise mais aprofundada sobre o assunto”. A ordem tem caráter provisório, é individual e ainda será submetida ao Órgão Especial do tribunal, onde poderá ser confirmada ou derrubada.
Na prática, o governo estadual e a cúpula da Polícia Civil veem frustrada, ao menos por ora, a tentativa de encerrar um processo disciplinar que se arrasta desde 2020. A corporação recomendou a demissão em 2022, após investigação interna, e o caso está sob análise do Palácio dos Bandeirantes desde o início da atual gestão.
Processo disciplinar mira encenação de resgate e abuso de autoridade
O processo administrativo que embasa a demissão acusa Da Cunha de ter simulado, em 2020, o resgate de uma vítima de sequestro para gravar imagens e turbinar sua presença nas redes sociais. Segundo a Corregedoria da Polícia Civil, o delegado teria refeito a operação com vítima e suspeito já em segurança, apenas para registrar o vídeo.
A acusação interna o responsabiliza por abuso de autoridade e constrangimento ilegal durante a encenação, com uso de estrutura da polícia — armas, viaturas e equipe — em benefício de sua imagem pessoal. O Conselho da Polícia Civil, formado por delegados diretores, concluiu que a única punição compatível seria a demissão “para o bem do serviço público”.
O caso corre também na esfera criminal. Da Cunha responde na Justiça comum pelos mesmos fatos e é réu em outra ação, por violência doméstica, relativa a agressões e ameaças contra a ex-companheira em episódio de 2023. Nessas frentes, não há sentença.
Defesa aponta vícios no PAD e celebra vitória parcial
A liminar nasce de um ataque direto da defesa ao coração do processo administrativo. Os advogados alegam que novas peças foram juntadas aos autos depois do fim da fase de instrução e da entrega das alegações finais, e que mesmo assim teriam sido usadas para justificar a pena máxima.
No pedido acolhido pelo desembargador, a defesa sustenta que isso viola regras básicas do devido processo legal, impedindo o contraditório. O tribunal já havia negado um requerimento anterior, mas a reconsideração foi aceita nesta quinta-feira, sob o argumento de risco de dano irreversível à carreira do delegado.
Em nota, os advogados afirmam que Da Cunha “recebe com serenidade o deferimento da liminar que suspende os efeitos da publicação do DOE que o exonerava do cargo de Delegado da Polícia Civil. A decisão do juiz relator reforça o compromisso da justiça com o estado de direito e à ampla defesa. Com esta decisão, Carlos Alberto Da Cunha continua Delegado de Polícia e agora volta a centrar forças em sua campanha à reeleição a Deputado Federal”.
Delegado influencer, deputado e réu: a sobreposição de papéis
Da Cunha está afastado da Polícia Civil e não recebe salário como delegado porque exerce mandato de deputado federal em Brasília. Ele foi eleito por São Paulo, inicialmente por um partido e hoje filiado ao União Brasil, legenda pela qual tenta a reeleição.
O delegado construiu notoriedade fora da rota tradicional da carreira policial. Desde 2020, alimenta canais digitais com vídeos de operações, bastidores de investigações e comentários sobre segurança pública. Somados, tem mais de 3,7 milhões de inscritos no YouTube e cerca de 2 milhões de seguidores no Instagram, o que o coloca entre os policiais mais influentes da internet.
A exposição, que impulsiona sua trajetória política, também alimenta críticas. A Corregedoria concluiu que ele cruzou a linha entre transparência e autopromoção, ao transformar flagrantes e ações de risco em conteúdo calculado para engajar seguidores e gerar receita em plataformas digitais.
Efeito imediato e implicações para a Polícia Civil
A decisão judicial não devolve Da Cunha à atividade. Ele segue afastado da função e concentrado no mandato, mas preserva um vínculo formal com a Polícia Civil enquanto o processo segue em exame. Isso significa que eventual confirmação da demissão ainda poderá retirá-lo, retroativamente, da estrutura da corporação.
Para o governo paulista e para a direção da Polícia Civil, a liminar representa um revés institucional. A cúpula pretendia dar resposta dura a um caso visto como emblemático no debate sobre abuso de autoridade e uso de estrutura pública para ganho pessoal. A suspensão adia esse gesto, prolonga a incerteza interna e reabre discussões sobre disciplina e hierarquia.
Entre especialistas em administração pública e segurança, o episódio reforça a importância de processos disciplinares blindados contra falhas formais, sobretudo quando envolvem figuras com capital político e milhões de seguidores. Uma vírgula errada no rito pode anular anos de investigação e enfraquecer futuras punições em casos semelhantes.
Caso segue vivo na Justiça e no tabuleiro eleitoral
No plano político, a liminar tende a ser explorada pela campanha de Da Cunha como sinal de injustiça revertida. A defesa já fala em vitória do estado de direito e da ampla defesa. A narrativa encontra eco em parte do eleitorado que o enxerga como voz dura contra o crime e vítima de perseguição corporativa.
Adversários planejam o movimento oposto: lembrar que o deputado continua réu por violência doméstica e responde a processo por abuso de autoridade. Os casos, somados à acusação de encenação do resgate, devem pautar debates sobre o limite da atuação de policiais em redes sociais e o uso político da farda.
O governo paulista e a Polícia Civil podem recorrer da liminar, que será apreciada pelo Órgão Especial do tribunal. O colegiado terá a palavra final sobre a manutenção ou não da suspensão da demissão, ao menos até o julgamento definitivo do mérito da ação.
Enquanto isso, o processo administrativo permanece em curso, assim como as ações penais. O desfecho jurídico desses casos pode redefinir o futuro de Da Cunha na carreira pública e influenciar a forma como o Estado lida com agentes que transformam a rotina policial em espetáculo digital. O próximo capítulo, agora, se escreve tanto nos tribunais quanto nas urnas.
O que aconteceu com o delegado Da Cunha hoje?
A Justiça de São Paulo suspendeu, por liminar concedida nesta quinta-feira (3), a demissão do delegado e deputado federal Carlos Alberto da Cunha, anunciada pelo governador Tarcísio de Freitas, mantendo seu vínculo com a Polícia Civil enquanto o Tribunal analisa irregularidades apontadas pela defesa no processo disciplinar que pedia sua exoneração.
Delegado Da Cunha continua na Polícia Civil?
Carlos Alberto da Cunha continua formalmente delegado da Polícia Civil de São Paulo, porque a liminar do Tribunal de Justiça barrou a publicação de sua exoneração, mas segue afastado do cargo e sem salário, exercendo apenas o mandato de deputado federal em Brasília, à espera de decisão definitiva sobre o processo disciplinar.
Quais acusações pesam contra o delegado Da Cunha?
Carlos Alberto da Cunha responde a processo disciplinar e ação penal por suposta simulação de resgate de sequestro em 2020, com abuso de autoridade e constrangimento ilegal, além de ser réu em processo por violência doméstica desde 2023, em que é acusado de agredir e ameaçar de morte a ex-companheira no litoral paulista.


