Brasileiros deportados dos EUA vivem limbo em países africanos
Brasileiros detidos pela imigração dos EUA são enviados para Libéria e Guiné Equatorial, ficam sob vigilância, sem informação e sem prazo para voltar. Itamaraty alega desconhecer casos.
Imigração
Brasileiros deportados enfrentam incertezas e restrições em países africanos após ação dos EUA.
Brasileiros detidos pela imigração dos Estados Unidos passam as últimas semanas confinados em hotéis na Libéria e na Guiné Equatorial, sob vigilância armada e sem prazo para sair. Eles relatam algemas em voos de até 16 horas, uso de força física e um destino decidido sem aviso prévio.
De Minas à Libéria, sem saber o destino
Aos 21 anos, a mineira Paola Santos embarca algemada em um avião militarizado sem saber para onde vai. Trabalha há cinco anos com limpeza de obras nos EUA, depois de cruzar ilegalmente a fronteira com o México, e cai em uma blitz do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE).
Detida, passa um ano e três meses em cadeias de Massachusetts, Connecticut, Vermont, Texas e Louisiana. Só entende que deixa de vez o território americano quando a escolta a leva de ônibus até a pista. Tenta arrancar uma informação do agente.
“Falei com ele: ‘Se você não me falar para onde você está me mandando, eu não irei descer do ônibus’. E ele: ‘Se você não descer por vontade própria, a gente vai ter que fazer uso de força’”, lembra.
O avião cruza o Atlântico em 16 horas. Ela segue com pés, mãos e cintura presas por correntes. Desembarca em um aeroporto desconhecido. Só então alguém da imigração anuncia: “Bem-vindos, vocês estão na Libéria”, segundo o relato da jovem.
Paola não tem ligações com o país africano, nunca esteve na região e não recebe documento local. Permanece em um hotel, com liberdade limitada, em uma espécie de espera sem roteiro. O Ministério das Relações Exteriores, questionado, diz não ter recebido “notificação sobre o caso da Paola, nem da parte dos estados supostamente envolvidos na deportação, nem da parte da nacional ou sua família”.
Estratégia dos EUA empurra imigrantes para terceiros países
A história de Paola não é isolada. Sob a gestão de Donald Trump, o governo americano envia quase 25 mil pessoas para países que não são o de origem dos deportados. Em vez de devolver brasileiros ao Brasil ou hondurenhos a Honduras, por exemplo, o ICE embarca grupos para nações africanas e da América Central que aceitam receber imigrantes em troca de milhões de dólares.
O ponto de partida costuma ser o mesmo: pedidos de asilo negados ou processos arrastados na Justiça. Muitos alegam que correm risco de morte, violência difusa ou perseguição política se voltarem para casa. Juízes reconhecem o perigo e impedem o retorno ao país natal. A Casa Branca reage com uma saída lateral, ao negociar acordos de acolhida com terceiros países.
A advogada Savi Arvey, da organização Human Rights First, define a política como um recado para dentro e para fora. Segundo ela, o governo Trump assina acordos com mais de 35 países porque adota uma “tática de medo”. “O governo Trump assinou acordos com mais de 35 países porque quer minar o sistema global de proteção, e também para coagir imigrantes que ainda estejam nos EUA a se autodeportarem, por medo de acabarem num país qualquer”, afirma.
Os destinos variam de democracias frágeis, como a própria Libéria, a regimes consideradas autoritários e instáveis, caso da Guiné Equatorial, El Salvador, Essuatíni, República Democrática do Congo e República Centro-Africana. Na prática, os deportados atravessam uma fronteira para cair em outra fronteira, agora mais opaca.
Da Flórida a um hotel vigiado na Guiné Equatorial
O pernambucano Pietro Graza de Lima vive esse limbo na Guiné Equatorial. Morador da Flórida, ele integra um grupo inicialmente levado para a Libéria. Na chegada, resiste a descer do avião junto com outros quatro deportados e descreve uma cena de violência.
“Nós ficamos com hematomas no corpo, nos jogaram praticamente na pista do avião”, conta. Segundo Pietro, um representante liberiano informa que o país não aceitará o grupo. O avião decola de novo. Eles acreditam que voltam para os EUA. Horas depois, pousam em Malabo, capital da Guiné Equatorial.
Ao descer, encontram um corredor de armas. “Cerca de 10, 20 policiais encapuzados, com armas pesadas, estavam nos esperando. Esse foi o pior momento da minha vida. A gente olhou um para o outro e falou: ‘Não adianta resistir’”, relata.
Pietro carrega uma história de violência no Brasil. Em 2016, é preso no Recife por falsificação de anabolizantes. Aguarda a sentença em liberdade até ser alvo de uma emboscada, na qual leva sete tiros. Atribui o ataque a policiais corruptos e decide fugir para os EUA com um visto de estudante.
Em Orlando, trabalha como cozinheiro, entra em crise psiquiátrica, perde o passaporte e acaba detido pelo ICE. No tribunal, alega risco de assassinato se voltar ao Brasil. Segundo ele, a magistrada tenta construir uma saída: “A juíza sugeriu fazer o pedido de asilo nos EUA, mas a estratégia não funcionou”. O resultado é a deportação para um país em que nunca pôs os pés.
Hoje, o pernambucano está isolado em um hotel semi-abandonado, descrito em investigações da agência Associated Press como alojamento usado para suspeitos de contaminação por ebola enviados pelo ICE. O prédio recebe apenas estrangeiros nessa condição. Não é presídio formal, mas funciona como tal: não há liberdade de circulação nem garantia de comunicação regular com o exterior.
O Itamaraty informa que, em 2 de setembro, o embaixador brasileiro na Guiné Equatorial recebe uma atualização sucinta sobre a situação. Segundo a nota enviada ao Fantástico, Pietro “está em boa situação de saúde, hospedado em hotel determinado pelas autoridades e que uma visita será facilitada nos próximos dias”. Não há detalhes sobre documentação, direito de saída ou eventual reassentamento.
Mudança silenciosa na vida de centenas de brasileiros
Outro brasileiro, Alex Pereira Alves, preso em Adelanto, na Califórnia, tenta evitar o mesmo destino. Morador de Los Angeles, ele pede asilo há dez anos por se declarar homossexual e afirmar que se sente perseguido no Brasil. Durante uma década, comparece anualmente à imigração, sempre em novembro, para provar que segue a lei.
Em abril, a rotina muda. Convocado fora de época, Alex recebe um aparelho de monitoramento eletrônico. Em 12 de agosto, um novo chamado antecipa a audiência que só ocorreria em novembro. Ele vai ao encontro com a imigração. A advogada Jane Oak conta que chega em seguida e não encontra o cliente.
“Quando cheguei, fiquei uma hora procurando e nada. Me disseram que ele tinha sido preso cinco minutos depois de se apresentar”, relata. Desde então, Alex tenta convencer a Justiça a autorizar a deportação para o Brasil, não para a Guiné Equatorial. A defensora resume a aposta dele: “Ele acha que, dez anos depois, a sociedade brasileira mudou e se sentiria mais seguro”.
As trajetórias de Paola, Pietro e Alex expõem um vácuo institucional. Brasileiros são removidos dos EUA, não podem voltar ao Brasil por decisões judiciais americanas que reconhecem risco de violência e desembarcam em países com pouca transparência, onde o Estado brasileiro alega desconhecer até a chegada dos seus cidadãos.
Comunidades de imigrantes, sobretudo nos estados onde o ICE atua com mais intensidade, como Flórida, Texas e Massachusetts, relatam medo. Advogados de imigração veem dificuldades extras. A deportação deixa de ser um retorno indesejado ao país de origem e passa a significar o envio para um território desconhecido, com regimes de segurança variáveis e infraestrutura frágil.
Pressão sobre Itamaraty e futuro indefinido
A revelação dos casos reacende o debate sobre o alcance da política externa brasileira diante da nova estratégia migratória americana. Sem notificação formal de Washington, o Itamaraty alega atuar no escuro. A falta de canais estruturados com Libéria e Guiné Equatorial para tratar especificamente dos deportados amplia o vácuo.
Para organizações de direitos humanos, a combinação de detenções prolongadas, uso de algemas por longas horas, ameaças e confinamento em hotéis vigiados indica possíveis violações de direitos básicos, como liberdade de locomoção, informação e defesa. Ao financiar terceiros países, os EUA deslocam a fronteira migratória para além do próprio território e dificultam a fiscalização internacional.
Os próximos meses tendem a trazer novas pressões. A divulgação das deportações para a África deve acionar redes de apoio a imigrantes brasileiros, provocar questionamentos no Congresso e forçar o Itamaraty a construir protocolos com os países receptores. Organizações internacionais podem cobrar transparência sobre os acordos bilaterais que permitem esse tipo de transferência.
Enquanto governos negociam e tribunais discutem, a vida de Paola, Pietro e Alex segue suspensa. A mineira tenta preencher os dias com caminhadas à praia e mergulhos na piscina do hotel em Monróvia. “Eu tinha uma vida boa, vivia tranquilamente, ajudava minha mãe. Essa é a parte que eu não me arrependo nunca. Eu tinha condição de ajudar minha mãe, tinha condição de dar ao meu irmão tudo o que ele queria”, diz. O que vem depois da porta do quarto de hotel, porém, ninguém ainda consegue responder.
Por que brasileiros estão sendo deportados dos EUA para países africanos?
Porque, em muitos casos, a Justiça americana impede o retorno ao Brasil por risco de violência ou perseguição, e o governo dos EUA firma acordos com terceiros países, como Libéria e Guiné Equatorial, que recebem recursos para aceitar deportados.
Como foi a experiência da brasileira que ficou algemada por 16 horas durante a deportação?
Paola Santos relata que embarcou sem saber o destino, com pés, mãos e cintura algemados, sob ameaça de uso de força. Após 16 horas de voo, desembarcou na Libéria e só então foi informada onde estava.
Quais são as dificuldades enfrentadas pelos brasileiros deportados dos EUA para a Libéria?
Os deportados chegam sem laços com o país, sem clareza sobre status migratório, vivem em hotéis com liberdade restrita, dependem de recursos limitados e não recebem informações sobre prazos ou possibilidades de sair.
Por que os brasileiros deportados dos EUA para a África não sabem quando poderão voltar?
Porque não há cronograma oficial para regularizar a situação deles, nem definição se serão reassentados, integrados localmente ou enviados a outro país. Os acordos entre EUA e nações africanas não são transparentes, e o Itamaraty diz não ser formalmente informado.
Como dois brasileiros explicam o motivo de terem sido deportados dos EUA para a África?
Paola afirma ter entrado ilegalmente pelos México e ter sido presa após blitz do ICE. Pietro diz que fugiu do Brasil após levar sete tiros em uma emboscada, viveu na Flórida com visto de estudante, perdeu o passaporte, foi detido e, mesmo alegando risco de morte se voltasse ao país, teve a estratégia de asilo frustrada.
Quais são as consequências da deportação para os brasileiros enviados para países africanos?
As consequências incluem confinamento em hotéis vigiados, perda de vínculos familiares e profissionais, incerteza sobre o futuro, exposição a contextos políticos instáveis e dificuldade de acesso a proteção consular e jurídica, além de impactos psicológicos e econômicos profundos.


