Crise de crédito eleva fintechs no agro e aperta bancos em 2026
Restrição bancária, juros altos e apostas online pressionam famílias, empresas e o agronegócio em 2026, mas abrem espaço para crédito estruturado e investidores mais seletivos.
Economia
Aumento da restrição bancária e juros altos impulsiona fintechs no setor agrícola, mudando o cenário financeiro em 2026.
No ano em que o crédito fica mais caro e escasso no Brasil, o agronegócio corre para alternativas fora dos grandes bancos, apostadores online perdem limite e empresas lutam para refinanciar dívidas.
Enquanto instituições tradicionais apertam critérios, fintechs especializadas e fundos de crédito privado ampliam espaço, mas com filtros rígidos e foco na geração de caixa de cada cliente.
Agro troca banco por crédito sob medida
No campo, o aperto já aparece nos balanços. O endividamento rural cresce, a inadimplência sobe e grandes bancos projetam impacto maior de calotes em suas provisões neste ano, o que reduz apetite para novas operações.
Esse vácuo favorece players como a Agrolend, instituição financeira dedicada ao agronegócio, que amplia operações estruturadas para indústrias, cooperativas e grandes distribuidores. A empresa se apresenta como alternativa justamente quando produtores e empresas precisam recompor caixa e capital de giro.
A estratégia passa por desenhar operações sob medida. Em vez de um empréstimo padronizado, os contratos acompanham a safra do produtor e o ciclo comercial da indústria, com prazos que vão de poucos meses a mais de um ano, alinhados ao fluxo de caixa real do cliente.
A companhia combina compra de recebíveis e crédito estruturado com garantias robustas e análise técnica dos ativos, apoiada em tecnologia e automação para manter estrutura enxuta. O objetivo é oferecer taxas competitivas sem abrir mão de rigor na avaliação de risco.
Nesse modelo, risco alto não significa torneira fechada, mas exigência de desenho financeiro mais sofisticado, capaz de acomodar a volatilidade de preço das commodities e a sazonalidade da produção, que bancos generalistas muitas vezes tratam como exceção.
Apostas online corroem orçamento e limite de crédito
Longe do campo, outro tipo de risco avança silenciosamente sobre o crédito das famílias. Estudo inédito liderado por Sérgio Firpo, professor do Insper, em parceria com pesquisadores da Stone, mostra como o avanço das apostas online desde a regulamentação do setor pesa no bolso dos jogadores.
Os economistas acompanharam pessoas que começaram a apostar depois da mudança regulatória e compararam sua vida financeira com a de quem permaneceu fora dos jogos digitais. Entre os apostadores, a proporção de inadimplentes cresce, em média, 20% nos 12 meses seguintes à primeira aposta.
O atraso no cartão de crédito piora ainda mais. A fração da fatura em aberto sobe, em média, 38,7% no primeiro ano. Em paralelo, o limite de crédito cai 16%, redução semelhante ao baque provocado por uma perda de emprego sobre o cartão.
Firpo resume o mecanismo que destrói o orçamento: “O dinheiro que a pessoa manda para a bet é dinheiro que não está mais lá para pagar a fatura. E, para uma parcela dos apostadores, não é pouco. Um em cada dez apostadores manda para a bet mais de 20% de tudo o que sai da conta no mês. Quando um quinto do orçamento vai embora assim, uma conta que seria paga deixa de ser”.
Os dados reforçam o alerta para reguladores e bancos. A regulamentação ampliou o acesso às bets, mas também expôs consumidores vulneráveis a um ciclo de perda de crédito: mais apostas, menos recursos disponíveis, mais atraso, menos limite. A tendência preocupa especialmente instituições que concentram sua carteira em classes de renda mais baixa.
Crédito corporativo encolhe e fundos avançam
Nas empresas, o cenário não é menos tenso. A taxa básica de juros permanece acima de dois dígitos desde março de 2022, e a liquidez encolhe tanto nos bancos quanto no mercado de capitais. O reflexo direto aparece no volume de novos financiamentos.
As carteiras de crédito dos grandes bancos crescem hoje algo entre 8,1% e 8,2%, ritmo bem mais fraco que em ciclos anteriores. No mercado de capitais, emissões de debêntures e outros títulos recuam entre 12% e 14% neste ano, sinal de que também ali a torneira aperta.
Para Alexandre Cruz, CEO e fundador da gestora JiveMauá, o quadro é claro: “Até o ano passado, as carteiras de crédito dos bancos incumbentes e o mercado de capitais estavam suprindo o papel de dar liquidez às empresas. Agora, não mais. Não tem dinheiro para todo mundo”.
A JiveMauá, que administra R$ 27,4 bilhões em ativos, se posiciona para preencher parte desse espaço com operações próprias, fora da prateleira dos grandes bancos. A gestora olha para casos em que a geração de caixa suporta a dívida, mas o acesso ao crédito barateou por causa do medo generalizado dos investidores.
Cruz descreve um mercado em que o investidor precisa desconfiar dos pacotes prontos: “Se existe algo que está sendo vendido no mercado pelos bancos de investimento, pelos bancos que já têm aquela informação, não é que tudo é ruim. Mas a gente tem muita desconfiança de que, se estivesse ainda muito bom, os próprios bancos incumbentes estariam emprestando e suprindo aquela demanda financeira”.
O foco são operações estruturadas, muitas vezes privadas, em setores como logística e infraestrutura, em que ativos reais e contratos de longo prazo ajudam a mitigar risco. Mas a seleção é dura. “Precisa ter muita disciplina e precisa saber muito fazer a conta, entender o negócio do cliente, do empresário, muito na última linha do balanço, ou seja, quanto gera de caixa”, afirma o gestor.
Casos recentes de estresse em grandes empresas de varejo, saúde, combustíveis e serviços ambientais, com eventos de crédito que vão de reestruturações a suspeitas de fraude, reforçam a necessidade de diversificação e descorrelação. O investidor que mira retorno alto em crédito privado precisa aceitar que nem todos vão pagar.
Quem ganha, quem perde e o que vem pela frente
No curto prazo, o aperto atinge primeiro os mais frágeis. Pequenos produtores rurais e fornecedores dependentes de bancos tradicionais veem a linha de crédito encolher ou encarecer. Famílias com orçamento justo sentem o peso de apostas online e juros altos nas dívidas rotativas.
Empresas com geração de caixa comprometida enfrentam risco maior de recuperação judicial. Para elas, a queda de 12% a 14% nas emissões de mercado e o crescimento modesto das carteiras bancárias significam uma janela mais estreita para rolar passivos. O erro de timing pode custar a sobrevivência do negócio.
Do outro lado da mesa, fintechs especializadas como a Agrolend e gestoras como a JiveMauá ganham relevância. O ambiente de medo generalizado cria oportunidades para quem estuda caso a caso, estrutura garantias sólidas e cobra prêmio compatível com o risco. O crédito privado vira solução, mas também filtro.
O desfecho dessa crise de crédito depende do ritmo de queda dos juros, da capacidade dos reguladores de lidar com as consequências da explosão das bets e da disposição de bancos e investidores em financiar setores mais arriscados. Até lá, acesso a recursos será privilégio de quem apresentar disciplina financeira, transparência e caixa consistente.
A tendência é que o mercado saia mais segmentado: bancos concentrados em clientes de menor risco, fintechs ocupando nichos como o agro e fundos estruturando operações sob medida para empresas de médio e grande porte. O Brasil entra em um ciclo em que só chega dinheiro onde o risco é entendido linha por linha.
Quais são as principais dificuldades para conseguir crédito no Brasil atualmente?
As principais dificuldades hoje são juros em dois dígitos desde 2022, maior seletividade dos bancos — que veem inadimplência subir no agro e nas famílias — e forte retração do mercado de capitais, com emissões caindo entre 12% e 14%, o que reduz alternativas para empresas e consumidores endividados.
Como a aposta em bets influencia a inadimplência e o acesso ao crédito?
Apostas online elevam em média 20% a inadimplência dos novos apostadores em 12 meses, aumentam em 38,7% a fração da fatura do cartão em atraso e derrubam em 16% o limite de crédito; um em cada dez jogadores destina mais de 20% dos gastos mensais à bet, deixando menos dinheiro para pagar dívidas.
Quais oportunidades existem para crédito durante a crise atual?
As principais oportunidades surgem em crédito privado estruturado, em que fundos como a JiveMauá, com R$ 27,4 bilhões sob gestão, montam operações próprias focadas em negócios com geração de caixa robusta, especialmente em logística, infraestrutura e agronegócio, ocupando o espaço deixado por bancos e emissões públicas.


