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Crise derruba indústria argentina e contratações aquecem Vasco

Fechamento de fábricas na Argentina já elimina 90 mil empregos formais e aprofunda a informalidade. No mesmo país, tornado mata agricultor em Misiones. Vasco reage com trio argentino para ganhar fôlego no Brasileirão.

12/09/2026 14:00 7 min de leitura
Crise derruba indústria argentina e contratações aquecem Vasco
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A crise na indústria argentina provoca perda massiva de empregos formais, enquanto o Vasco reforça seu elenco com jogadores argentinos.

A Argentina vive uma combinação rara de colapso industrial, desastre climático e exportação de talentos para o futebol brasileiro. Enquanto fábricas fecham e um tornado mata um agricultor em Misiones, o Vasco da Gama aposta em três argentinos para mudar o rumo no Brasileirão.

Galpões escuros, empregos sumindo e consumo travado

Na periferia de Buenos Aires, o cenário na fábrica de sapatos Kioshi resume a crise. Onde já trabalharam 120 funcionários, apenas 14 seguem ativos. Máquinas desligadas e caixas encalhadas ocupam o galpão, transformado em alerta sobre o rumo da indústria argentina sob Javier Milei.

O país perde cerca de 90 mil empregos industriais formais desde agosto de 2023, enquanto o governo celebra a queda da inflação. A taxa interanual recua para 33,8% em julho, mas a recuperação ainda não chega ao chão de fábrica. Em junho, a indústria opera com 40% de capacidade ociosa e, entre junho e julho, a produção manufatureira encolhe 5%, maior tombo em mais de um ano.

Para quem depende do mercado interno, a aritmética não fecha. “O mercado interno está morto, as pessoas não têm dinheiro para consumir, dificilmente vão comprar calçados”, afirma Emmanuel Fernández, diretor da Kioshi, em Esteban Echeverría. Ele relata que funcionários pedem adiantamento salarial apenas para pagar o transporte até a fábrica.

A avalanche de importados completa o quadro. Com câmbio considerado atrasado por empresários e tarifas reduzidas, produtos mais baratos chegam de fora, pressionando fábricas que já lidam com juros altos e impostos pesados. “Tudo o que se vê é que as pessoas que ficam sem emprego vão trabalhar nos aplicativos”, diz Fernández. A migração para o trabalho informal, sobretudo em plataformas digitais, cresce e corrói a arrecadação e a proteção social.

Política liberal em choque com chão de fábrica

O presidente Javier Milei mantém o discurso de austeridade e abertura comercial. Desde que assumiu, cerca de 30 mil empresas encerram atividades. No mesmo período, mais de 240 mil empregos formais no setor privado desaparecem. A aposta do governo é que setores competitivos, como mineração, hidrocarbonetos e agronegócio, puxem um novo ciclo de crescimento.

O ministro da Economia, Luis Caputo, reforça a linha dura. Ele diz que não governa para “determinados empresários”, mas para “48 milhões de argentinos”. Em defesa da abertura, dispara: “Me parece imoral e injusto que os argentinos tenham que pagar por bens de menor qualidades duas, quatro, dez vezes o seu valor”.

Empresários da indústria respondem que não recusam a competição, mas pedem condições mínimas de disputa. “Ninguém quer não competir, mas também você tem que ter condições para competir”, afirma Alejandro Mayer, vice-presidente da fábrica de circuitos Ernesto Mayer, na periferia norte de Buenos Aires. Ele conta que metade das máquinas está desligada e cita o câmbio, os juros e a carga tributária como barreiras para enfrentar rivais de países como a China.

Os efeitos se espalham para além da capital. Em Zárate, a 90 quilômetros de Buenos Aires, a unidade da multinacional química Clariant fecha as portas e deixa 42 trabalhadores sem emprego. Só dois voltam ao mercado formal. O resto sobrevive em bicos, dirigindo para aplicativos ou pegando serviços temporários. “Como não têm nenhuma restrição, convém a eles trazer do Brasil”, resume o ex-funcionário Miguel Márquez, sobre a decisão de importar produtos em vez de produzi-los localmente.

Tornado em Misiones reabre cicatrizes e medo

Enquanto a economia sangra, um fenômeno extremo atinge a província de Misiones. Um tornado cruza uma faixa de cerca de 300 metros na zona rural de San Pedro, na fronteira com o Brasil, e deixa um morto e casas destruídas. A vítima é o agricultor Demecio Monteiro, de 42 anos, arrastado junto com a própria casa para dentro de uma plantação de erva-mate.

Pelo menos cinco residências sofrem danos estruturais, com telhados arrancados e propriedades rurais devastadas. A rede de energia elétrica é rompida, deixando parte da área sem luz. Linhas telefônicas também caem, enquanto equipes de emergência percorrem estradas de terra para checar feridos e contabilizar prejuízos.

A destruição concentrada em uma faixa estreita, com trilha de escombros contínua, reforça as evidências de tornado. Meteorologistas ainda avaliam a intensidade. O episódio reacende memórias dolorosas em Misiones: a região marca recentemente 17 anos de um tornado de força excepcional que matou 11 pessoas em San Pedro, no que ainda hoje é considerado o maior desastre natural da história da província.

Moradores de localidades como Tobuna e Santa Rosa realizam, nesta semana, cerimônias em homenagem às vítimas daquele evento. Dias depois, veem novamente um funil descer do céu. A coincidência temporal amplia o trauma e recoloca em debate a preparação de comunidades rurais para eventos extremos, que se tornam mais frequentes com o aquecimento do clima.

Argentina exporta crise e líderes para o futebol brasileiro

Na contramão da economia real, o futebol se transforma em rota de ascensão para alguns argentinos. O Vasco da Gama fortalece laços com o país vizinho e fecha com três jogadores de destaque para tentar se afastar da zona de rebaixamento e mirar títulos em mata-matas nacionais.

Chegam o volante Santiago Sosa, ex-capitão do Racing, o atacante Lescano, que usava a braçadeira no Argentinos Juniors, e o também atacante Colidio, titular do River Plate. As três contratações têm um traço em comum: são atletas consolidados em clubes grandes, em uma liga considerada a segunda mais competitiva da América do Sul.

A direção do clube mira não apenas qualidade técnica, mas personalidade para comandar o vestiário. A saída de referências como Philippe Coutinho, o jovem Rayan e o centroavante Vegetti deixa vácuo de liderança. O departamento de futebol tenta ainda reforçar as posições de volante e meia, mas negociações emperram, como a do colombiano Deossa, afetada por uma decisão judicial que afastou o presidente Pedrinho no meio da janela.

O técnico Pedro Emanuel ganha, com o trio argentino, opções para mudar o estilo de jogo e a hierarquia do elenco, que já reúne vários estrangeiros. Lescano resume o espírito ao desembarcar: “Vou desfrutar ao máximo”. Em São Januário, o discurso agrada. Um dos cronistas que acompanham o clube avalia que um dos reforços “já caiu nas graças da torcida”.

O movimento do Vasco beneficia diretamente os jogadores, que trocam um mercado interno argentino em retração por salários em reais e exposição em uma vitrine maior. O fluxo confirma uma tendência recente: com a crise prolongada do país vizinho, atletas experientes cruzam o continente em busca de estabilidade esportiva e financeira.

Para a torcida cruz-maltina, a resposta virá em campo, nas próximas rodadas do Brasileirão. Para a Argentina, a equação é mais complexa: o país segue perdendo empregos qualificados na indústria, lamenta mais uma morte em Misiones e assiste alguns de seus melhores profissionais, dentro e fora das quatro linhas, buscarem futuro longe de casa.

Qual é o impacto da crise na indústria argentina sobre o emprego?

A crise industrial na Argentina elimina cerca de 90 mil empregos na indústria desde agosto de 2023 e mais de 240 mil postos formais no setor privado, empurrando milhares de trabalhadores para a informalidade, principalmente em aplicativos, reduzindo renda estável, direitos trabalhistas e a própria arrecadação de impostos do país.

Como o tornado na fronteira da Argentina com Santa Catarina afetou a região?

O tornado que atinge a área rural de San Pedro, em Misiones, na fronteira com Santa Catarina, causa a morte do agricultor Demecio Monteiro, de 42 anos, destrói ao menos cinco casas em uma faixa de 300 metros, derruba estruturas rurais, interrompe o fornecimento de energia elétrica e prejudica as comunicações telefônicas locais.


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