Asteroide Bennu volta ao centro do alerta científico mundial
Com 500 metros de diâmetro e monitorado desde 1999, o asteroide Bennu tem chance de 0,057% de atingir a Terra até 2300. Nasa afina cálculos e orienta defesa planetária.
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O asteroide Bennu, com meio quilômetro de diâmetro, continua sendo monitorado para evitar possíveis impactos futuros.
A Nasa atualiza neste ano os cálculos sobre a órbita do asteroide Bennu, de 500 metros de diâmetro, monitorado desde 1999 e com risco remoto de atingir a Terra entre 2182 e 2300. As novas estimativas, baseadas na missão OSIRIS-REx, reforçam o alerta científico, mas indicam que a probabilidade de impacto segue muito baixa.
Um risco real, mas altamente improvável
Bennu cruza periodicamente a órbita terrestre e já chegou a cerca de 299 mil quilômetros do planeta, distância um pouco menor que a da Lua. Desde a descoberta, em 11 de setembro de 1999, ele entra e sai do noticiário sempre que o medo de um choque global viraliza nas redes. Agora, a preocupação ganha contornos mais precisos.
Segundo os cálculos mais recentes, a chance total de colisão até o ano 2300 é de 0,057%, o equivalente a 1 em 1.750. A data que concentra a maior probabilidade é 24 de setembro de 2182, com risco estimado em 0,037% (1 em 2.700). Em termos práticos, os números significam mais de 99,9% de probabilidade de que o impacto nunca aconteça.
A agência, porém, trata Bennu como um laboratório de defesa planetária. “A Nasa refinou cálculos sobre a trajetória do asteroide Bennu, que pode liberar energia equivalente a 22 bombas nucleares se colidir com a Terra”, registra reportagem de O Globo ao resumir o peso do novo monitoramento. A ideia é simples: quanto mais se conhece a órbita e a estrutura do objeto, maior a capacidade de agir, se o risco crescer.
O que a missão OSIRIS-REx revela
O salto de precisão vem de uma operação que começa em 2016. Lançada naquele ano, a sonda OSIRIS-REx chega a Bennu em 2018, após percorrer milhões de quilômetros. Por mais de dois anos, orbita o asteroide, fotografa a superfície em alta definição e mede com cuidado sua massa, forma, rotação e composição.
Em outubro de 2020, realiza o momento histórico da missão: toca rapidamente a superfície de Bennu, aspira fragmentos soltos e parte de volta. As amostras pousam no deserto de Utah em 24 de setembro de 2023, dentro de uma cápsula selada. Desde então, laboratórios nos Estados Unidos e em outros países analisam grão por grão.
Os dados ajudam em duas frentes. De um lado, revelam a estrutura física do asteroide 101955 Bennu, um bloco escuro e poroso, rico em carbono, que preserva vestígios da formação do Sistema Solar. De outro, permitem medir com mais exatidão pequenos efeitos que empurram sua órbita ao longo de décadas, como o chamado efeito Yarkovsky, causado pelo aquecimento e pela reemissão de calor.
Essas forças minúsculas, somadas à gravidade do Sol e dos planetas, definem o caminho futuro do objeto. Ao refinar a posição e a velocidade de Bennu, a OSIRIS-REx reduz as incertezas matemáticas e estreita o leque de trajetórias possíveis até o próximo século.
O ponto de virada em 2135
O ano de 2135 entra no centro dessa conta. As projeções indicam que Bennu fará então uma aproximação significativa da Terra, sem chance de colisão conhecida, mas suficientemente perto para sofrer um puxão gravitacional relevante. Pequenas diferenças na distância e no ângulo dessa passagem podem deslocar o asteroide para uma nova rota.
É como um jogo de bilhar em câmera lenta. Um desvio de poucos quilômetros em 2135 pode, décadas depois, significar milhares de quilômetros a mais ou a menos em relação à Terra. Por isso, cientistas tratam essa data como uma chave: ela definirá se as probabilidades de impacto em 2182 e além sobem, caem ou permanecem estáveis.
Os modelos mais recentes, alimentados com dados da OSIRIS-REx, indicam que o risco segue baixo. Mas a comunidade científica prefere lidar com margens de segurança generosas. A previsão é manter Bennu sob vigilância constante, com telescópios e, possivelmente, novas sondas nas próximas décadas.
Se Bennu acertar a Terra
O cenário extremo, embora improvável, é levado a sério. Se Bennu colidir com o planeta, a energia liberada equivaleria a 22 bombas nucleares de grande porte. O impacto abriria uma cratera de vários quilômetros, com devastação total na região próxima e danos severos em áreas distantes, por ondas de choque, terremotos e incêndios florestais.
O problema não termina no local da colisão. Estudos do Centro IBS de Física Climática (ICCP), da Universidade Nacional de Pusan, na Coreia do Sul, simulam as consequências globais de um choque desse tipo. As projeções indicam que entre 100 e 400 milhões de toneladas de poeira seriam lançadas na atmosfera.
Esse material escureceria o céu. “O escurecimento solar devido à poeira causaria um ‘inverno de impacto’ global abrupto, caracterizado pela redução da luz solar, temperatura fria e diminuição da precipitação na superfície”, explica a pesquisadora Lan Dai, do ICCP. Os modelos apontam queda de até 4°C na temperatura média global, redução de 15% das chuvas e queda de 20% a 30% na fotossíntese.
A camada de ozônio poderia encolher 32%, aumentando a exposição à radiação ultravioleta. O plâncton oceânico, base das cadeias alimentares marinhas, tende a se recuperar em cerca de seis meses, até com um possível ganho, estimulado pela poeira rica em ferro que cai nos mares. A vegetação terrestre, porém, enfrentaria um retorno mais lento, sob frio prolongado, menos luz e menos água.
O quadro compõe um inverno de impacto que pode durar de três a quatro anos. Agricultura, ecossistemas e saúde humana sentiriam o peso dessa mudança súbita. Economias nacionais sofreriam com colheitas perdidas, infraestrutura danificada e cadeias de abastecimento interrompidas.
Defesa planetária entra na pauta
A combinação de risco real, ainda que remoto, e impacto potencialmente catastrófico empurra Bennu para o centro da agenda de defesa planetária. A Nasa testa estratégias para desviar asteroides, como a missão DART, que em 2022 altera a órbita de um pequeno corpo celeste ao atingi-lo com uma sonda.
No caso de Bennu, o monitoramento detalhado abre caminho para ações futuras: empurrões controlados, rebocadores espaciais, explosões próximas à superfície. Nada disso está pronto, mas a lógica é clara. Sem conhecer com exatidão massa, densidade, formato, rotação e órbita, qualquer tentativa de desvio vira um tiro no escuro.
Os estudos do ICCP sobre clima pós-impacto entram como outra peça desse quebra-cabeça. Ao quantificar efeitos sobre temperatura, chuvas, ozônio e fotossíntese, ajudam governos a avaliar danos potenciais e a planejar respostas, caso algum dia um alerta vermelho seja disparado.
A pressão por novas tecnologias, protocolos internacionais e cooperação entre agências espaciais tende a crescer nas próximas décadas. A indústria aeroespacial ganha campo para desenvolver soluções de monitoramento e intervenção. A população mundial, ainda que distante no tempo do pico de risco, é a principal interessada em que essas cartas estejam prontas na manga.
Bennu continua a girar em torno do Sol, cruzando discretamente o caminho da Terra a cada seis anos. A vigilância, segundo cientistas, deve seguir pelo menos até o ano 2300. A pergunta que fica, mais do que se ele vai atingir o planeta, é se a humanidade usará esse século e meio de vantagem para organizar uma defesa capaz de transformar um possível desastre em mero exercício de cálculo.
Quando o asteroide Bennu terá sua maior aproximação da Terra?
As previsões atuais indicam que a passagem mais crítica ocorre em 2135, quando Bennu se aproxima bastante da Terra, sem risco conhecido de colisão, mas com chance de ter sua órbita alterada pela gravidade do planeta.
Qual a data prevista para o possível impacto do asteroide Bennu com a Terra?
A data que concentra a maior probabilidade de impacto é 24 de setembro de 2182, com chance estimada em 0,037%, o equivalente a 1 em 2.700.
Qual a energia estimada que o asteroide Bennu pode liberar em um impacto?
Estimativas da Nasa indicam que um impacto de Bennu liberaria energia equivalente à explosão de 22 bombas nucleares de grande porte.
O que a Nasa descobriu sobre o asteroide Bennu em suas últimas observações?
Com a missão OSIRIS-REx, a Nasa mediu com precisão a forma, a massa, a rotação e a composição de Bennu, refinou sua órbita e calculou melhor efeitos sutis, como o aquecimento solar que desvia lentamente o asteroide ao longo do tempo.
O que pode acontecer na Terra caso o asteroide Bennu atinja o planeta?
Haveria devastação local, ondas de choque, terremotos e incêndios, além de um inverno de impacto global com queda de até 4°C na temperatura média, redução de 15% das chuvas, queda de até 30% na fotossíntese e encolhimento de 32% da camada de ozônio, afetando agricultura, ecossistemas e a economia mundial por três a quatro anos.
O que foi encontrado no asteroide Bennu durante as missões de exploração?
As amostras trazidas em 2023 revelam que Bennu é rico em carbono e preserva materiais antigos do Sistema Solar, ajudando a entender a formação de planetas e, ao mesmo tempo, a modelar com mais precisão sua estrutura física e comportamento em caso de tentativa de desvio.


