Augusto Cury lança candidatura ao centro pelo partido Avante
Escritor best-seller lança pré-candidatura à Presidência pelo Avante, tenta se firmar como terceira via entre Lula e Flávio Bolsonaro e aposta em discurso de pacificação.
Eleições 2024
Augusto Cury anuncia pré-candidatura à Presidência pelo Avante, buscando se destacar como terceira via com discurso de pacificação.
Augusto Cury, escritor e psiquiatra com mais de 30 milhões de livros vendidos, lança sua pré-candidatura à Presidência da República pelo Avante e tenta ocupar o espaço de terceira via entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Ele se apresenta como um nome de centro, promete pacificar o país e mistura defesa do empreendedorismo com um discurso de forte preocupação social.
Candidato de centro com “mente capitalista” e “coração social”
No centro da narrativa de Cury está a recusa em escolher um dos polos que dominam o debate político brasileiro. Ele diz que o país está “dramaticamente doente, polarizado, radicalizado” e acusa a disputa de estar “sequestrada por duas famílias”, Bolsonaro e Lula. “O Brasil é muito maior do que a família Bolsonaro e a família Lula da Silva”, afirma.
O escritor tenta sintetizar seu programa na fórmula que repete em entrevistas e debates: “Eu sou de centro. Sou mente capitalista e com um coração que cuida dos desvalidos”. A frase serve de senha para duas frentes que ele pretende explorar: de um lado, um Estado “enxuto e eficiente”, com foco em quem quer produzir e esbarra em juros altos e burocracia; de outro, políticas sociais para populações vulneráveis, defesa de direitos humanos e investimentos em educação e proteção da mulher.
Na prática, Cury aposta em um eleitorado cansado da briga constante entre direita e esquerda e que busca uma alternativa capaz de dialogar com ambos os lados. Em debates, como o da Band em São Paulo, ele evita atacar adversários de forma direta e insiste em falar de projetos. “O Brasil está dramaticamente doente, polarizado, radicalizado. Venderam uma ideia mentirosa que estamos em dois barcos. Estamos em um barco só, nem de direita, nem de esquerda”, disse ao vivo, referindo-se aos mais de 200 milhões de brasileiros como parte da “família brasileira”.
Terceira via tímida nas pesquisas, barulhenta no discurso
Apesar da visibilidade como autor, o ponto de partida eleitoral é modesto. Segundo pesquisa Quaest realizada em abril, Cury aparece com 2% das intenções de voto, empatado com Renan Santos, do partido Missão, e à frente de nomes menores, mas bem distante dos líderes Lula e Flávio Bolsonaro, que somam mais de 60% juntos. Renan também tenta se apresentar como alternativa ao duelo PT x PL, o que fragmenta ainda mais o espaço intermediário.
A entrada de Cury, porém, mexe com a paisagem política. Mesmo com baixa pontuação inicial, sua figura pública conhecida e o discurso de pacificação obrigam outros candidatos a responder a temas como saúde mental, conflito político e violência verbal nas redes. “Não quero fazer carreira política. Meu objetivo é aumentar a régua do debate”, insiste ele, numa tentativa de se diferenciar de profissionais da política e, ao mesmo tempo, afastar a ideia de um projeto de poder prolongado.
Nas entrevistas, Cury promete que, se for eleito, não disputará um segundo mandato. Diz que decidiu enfrentar um ambiente “extremamente agressivo, espinhoso” apesar do receio da família. “Não pensei muito nisso, mas vários amigos me dizem que vai prejudicar, que vou sair ferido. Mas já tenho muito mais do que mereço, tanto financeiramente quanto socialmente e intelectualmente”, afirma, numa resposta às acusações de que a candidatura seria apenas uma estratégia de marketing para vender mais livros e cursos.
Paz social, fome e segurança pública no centro da agenda
O eixo programático de Cury se ancora em três bandeiras: pacificação social, combate à fome e incentivo ao empreendedorismo. Ele critica a retórica violenta na política e na segurança pública. Em debate, atacou a frase “bandido bom é bandido morto”, comum em setores mais duros da direita, chamando-a de “um discurso estúpido”. Defende rever o sistema prisional, que, segundo ele, gasta de R$ 3 mil a R$ 4 mil por mês com cada preso e devolve à sociedade pessoas condenadas a reincidir no crime.
Para o escritor, o Brasil aprisiona demais e ressocializa de menos. Ele questiona quem de fato está atrás das grades: grandes criminosos ou jovens empurrados para o crime por falta de oportunidades. A pauta, frequentemente associada à esquerda, é classificada por Cury como “suprapartidária”. “Também a esquerda não fez nada de grande impacto para mudar a ressocialização e impedir que as prisões se tornem escolas do crime. Essas pautas são sequestradas”, critica, tentando se descolar de rótulos ideológicos fáceis.
No plano internacional, o pré-candidato deseja usar a imagem do Brasil como país pacífico para dialogar com líderes envolvidos em conflitos, como Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky. “Se tivesse o privilégio de sentar na cadeira de presidente, nos primeiros dias chamaria vários políticos, como Putin e Zelensky, para conversar, porque sou um especialista em pacificação de conflitos, tenho livros sobre isso”, diz. Ele propõe que uma parte dos gastos globais em armamentos seja desviada para um fundo contra a fome.
Fundo global contra a fome e aposta na emoção do eleitor
Cury calcula que 20% do gasto mundial com armas poderiam resolver o problema da fome no planeta. Apresenta também alternativas “menos ambiciosas”, como um fundo internacional financiado por 0,5% de todas as importações e exportações do mundo ou por 2% a 3% de toda compra e venda de armas. A ideia é convocar o G20 e quase 200 países que participam da ONU para pactuar o mecanismo. O plano reforça sua tentativa de se vender como um pacificador global, não apenas um gestor doméstico.
Embora concorra por um partido de pouca expressão, o Avante, Cury conta com o marqueteiro Sergio Lima, que já trabalhou em campanhas de Jair Bolsonaro e do presidente da Câmara, Arthur Lira. A aposta da equipe é usar a experiência do escritor com emoção e linguagem motivacional para alcançar um público que hoje pouco lê livros e, em boa parte, não sabe quem é Augusto Cury candidato a presidente, ainda que conheça o autor de autoajuda.
Lima vê espaço entre eleitores que votaram em branco ou nulo e entre os que se abstiveram no último ciclo eleitoral. Em vez de disputar diretamente o eleitorado já fidelizado a Lula ou a Flávio Bolsonaro, a campanha pretende falar com quem se sente órfão de representação. Nesse grupo, estão eleitores que tentam entender se Augusto Cury é de esquerda, de direita ou algo fora desse eixo tradicional. Ele responde com a imagem do barco único. “Estamos em um barco só”, repete, sugerindo que o rótulo importa menos do que a disposição ao diálogo.
No curto prazo, o principal desafio é transformar notoriedade literária em intenção de voto e superar o patamar de 2% nas pesquisas. Se conseguir crescer, Cury pode forçar uma reorganização de alianças, atrair nanicos e pressionar por um debate menos agressivo. Se continuar estacionado, tende a ser eclipsado pela máquina partidária de PT e PL, restando como voz lateral, mas insistente, contra a polarização crônica. A campanha, ainda em fase de consolidação, aposta que as próximas semanas dirão se a terceira via de Augusto Cury ganha corpo ou permanece só no discurso.
Quem é Augusto Cury candidato a presidente?
Augusto Cury, escritor e psiquiatra com mais de 30 milhões de livros vendidos no Brasil, é pré-candidato à Presidência pelo Avante, tenta se firmar como terceira via e se define como um político de centro, com “mente capitalista e coração social”, que rejeita a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Augusto Cury é de esquerda, de direita ou de centro?
Augusto Cury se apresenta como um nome de centro, diz ter “mente capitalista e coração social”, defende Estado enxuto e incentivo ao empreendedorismo, mas também políticas sociais robustas, critica tanto a direita radical quanto a esquerda tradicional e afirma que o Brasil está em “um barco só, nem de direita, nem de esquerda”.
Qual é o partido de Augusto Cury e qual seu desempenho nas pesquisas?
Augusto Cury é filiado ao Avante, partido de pequeno porte no cenário nacional, e aparece com 2% das intenções de voto em pesquisa Quaest de abril, empatado com Renan Santos (Missão) e atrás de nomes como Romeu Zema, Lula e Flávio Bolsonaro, que concentram a maior parte do eleitorado.
Renan Santos é de direita ou esquerda na disputa presidencial?
Renan Santos, do partido Missão, disputa o mesmo espaço intermediário que Augusto Cury e, embora dialogue com pautas conservadoras em alguns temas, tenta construir imagem de alternativa à polarização, o que o afasta tanto da esquerda tradicional quanto da direita bolsonarista no desenho atual da corrida presidencial.


