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Brasileiros ainda têm R$ 5,64 bi em dinheiro esquecido

Banco Central informa que 25,8 milhões de clientes têm R$ 5,64 bilhões em valores esquecidos. Parte do dinheiro bancou o Desenrola 2.0 e é alvo do TCU.

09/09/2026 06:19 7 min de leitura
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Economia

Banco Central revela montante significativo de valores esquecidos por milhões de clientes no sistema financeiro brasileiro.

O Banco Central informa nesta terça-feira (8) que 25,8 milhões de clientes ainda têm R$ 5,64 bilhões em dinheiro esquecido em bancos e outras instituições financeiras. Os valores podem ser consultados e resgatados pela internet, enquanto parte desse montante já financia o programa federal Desenrola 2.0.

Dinheiro parado em contas e no centro de uma disputa fiscal

O balanço considera recursos contabilizados até julho de 2026 e expõe uma dupla realidade. Milhões de brasileiros têm pequenas e médias quantias à espera de resgate. Ao mesmo tempo, o governo já usa parte desse caixa para contornar o aperto do orçamento em ano eleitoral.

Segundo o Banco Central, R$ 4,24 bilhões pertencem a 23,6 milhões de pessoas físicas. Outros R$ 1,4 bilhão são de 2,2 milhões de empresas. São sobras de contas encerradas, tarifas cobradas a mais, consórcios, saldos de crédito e outros valores que ficaram pelo caminho e não foram reclamados.

Em março, o montante esquecido chegava a R$ 10,6 bilhões. A queda até os atuais R$ 5,64 bilhões não se deve apenas a resgates. Em maio, cerca de R$ 5,7 bilhões foram transferidos para o Fundo de Garantia de Operações (FGO), que dá suporte ao Desenrola 2.0, programa de renegociação de dívidas do governo Lula.

Transferência para o FGO acende alerta no TCU

O uso desses recursos fora do orçamento da União entra na mira do Tribunal de Contas da União desde junho. Técnicos do TCU investigam se a manobra respeita a legislação fiscal e a exigência de transparência na gestão de dinheiros públicos.

O FGO é um fundo público que funciona como espécie de seguro para os bancos. Se o devedor do Desenrola 2.0 não pagar, o fundo cobre parte do calote. Para viabilizar o programa sem abrir espaço no orçamento, o governo recorreu justamente aos valores esquecidos pelos correntistas.

Em nota à época da transferência, o Executivo afirma: “Os recursos não reclamados serão utilizados para o FGO garantir operações do próprio sistema financeiro. Haverá segregação de 10% do saldo transferido que ficará disponível para cobrir eventuais pedidos de resgate [pelos correntistas]”.

O ponto central da investigação é que, ao não passar pelo orçamento tradicional, esses R$ 5,7 bilhões escapam do limite de crescimento de gastos, hoje travado em 2,5% ao ano acima da inflação. Se fossem contabilizados como despesa, o governo teria de bloquear igual valor em outras áreas.

Em 2026, já há R$ 17,9 bilhões bloqueados no orçamento dos ministérios, o que espreme políticas de fiscalização, investimentos em tecnologia e a própria prestação de serviços à população. A operação com os valores esquecidos preserva espaço para iniciativas como o Desenrola 2.0, mas amplia dúvidas sobre até onde vai a criatividade fiscal do governo.

Impacto para correntistas: direito garantido, mas com incertezas

Na teoria, a transferência para o FGO não elimina o direito de quem tem dinheiro esquecido. O governo promete reservar 10% do valor migrado para atender a pedidos de resgate e diz que o sistema do Banco Central continua funcionando normalmente.

Na prática, a engenharia financeira adiciona uma camada de incerteza. Especialistas apontam o risco de o fundo ficar pressionado se a procura aumentar, num cenário de maior divulgação do tema ou de crise de confiança. O TCU avalia justamente os impactos fiscais e jurídicos desse desenho.

A controvérsia também tem dimensão política. Em ano eleitoral, qualquer movimento que permita ampliar programas sociais ou de crédito sem que isso apareça como gasto oficial entra no radar de opositores e órgãos de controle. O debate no Congresso tende a girar em torno do equilíbrio entre inovação financeira, responsabilidade fiscal e proteção dos direitos dos correntistas.

Como funciona o sistema de valores a receber

O acesso ao dinheiro esquecido é todo digital e concentrado numa única página. “O único site no qual é possível fazer a consulta e saber como solicitar a devolução dos valores para pessoas jurídicas ou físicas, incluindo falecidas, é o https://valoresareceber.bcb.gov.br”, afirma o Banco Central.

Ao entrar no endereço, o cidadão informa CPF ou CNPJ e segue as orientações. Para receber pela própria plataforma, é obrigatório indicar uma chave PIX, que funciona como apelido usado para transferências instantâneas.

Quem não tem chave PIX precisa falar diretamente com o banco ou a instituição financeira responsável pelo valor. É possível combinar outra forma de pagamento ou criar uma chave e voltar ao sistema para concluir o pedido. No caso de pessoas falecidas, o resgate cabe apenas a herdeiros, inventariantes, representantes legais ou beneficiários indicados em testamento, com preenchimento de termo de responsabilidade.

O desenho digital facilita o acesso para a maioria dos usuários, mas ainda representa um obstáculo para idosos, pessoas com baixa familiaridade com internet ou moradores de regiões com conexão precária. A pressão sobre o Banco Central e os bancos é para reforçar canais de apoio e orientação, sem abrir espaço para golpes e falsos sites.

Próximos passos: decisão do TCU e pressão por transparência

O processo no TCU segue em andamento e deve resultar em um relatório com recomendações ao governo e ao Banco Central. A depender das conclusões, o tribunal pode exigir ajustes na forma de uso dos recursos não reclamados, aumento da reserva voltada a resgates ou mudanças na governança do FGO.

No Congresso, parlamentares já discutem projetos para delimitar, em lei, o que pode ser feito com dinheiro esquecido nos bancos e qual parcela precisa ficar sempre disponível aos titulares. O tema tende a ganhar força com a proximidade das eleições e com a disputa por espaço no orçamento.

Enquanto a disputa institucional avança, o efeito mais imediato recai sobre o bolso dos correntistas. Quem consulta o sistema tem chance de recuperar saldos que, muitas vezes, passam de valores simbólicos a quantias significativas. A combinação de crise fiscal, inovação financeira e dinheiro esquecido abre uma nova frente de debate sobre a fronteira entre recursos públicos e direitos privados.

Como saber se tenho direito ao dinheiro esquecido nos bancos?

É preciso acessar o site oficial do Banco Central, em valoresareceber.bcb.gov.br, informar CPF ou CNPJ e seguir as instruções da própria página.

Como consultar os valores esquecidos para resgatar no Banco Central?

A consulta é feita exclusivamente em valoresareceber.bcb.gov.br. Após o login, o sistema informa se há valores disponíveis e orienta o passo a passo para o resgate.

Quem tem direito aos R$ 5,64 bilhões em dinheiro esquecido?

Os R$ 5,64 bilhões pertencem a 23,6 milhões de pessoas físicas e 2,2 milhões de empresas com saldos não resgatados em bancos, consórcios e outras instituições.

Como fazer para resgatar o dinheiro esquecido nos bancos?

Depois de consultar em valoresareceber.bcb.gov.br, o correntista informa uma chave PIX para receber pela plataforma ou combina outra forma de pagamento com a instituição.

Quantas pessoas ainda não resgataram o dinheiro esquecido nos bancos?

Segundo o Banco Central, há 25,8 milhões de titulares com valores a receber: 23,6 milhões de pessoas físicas e 2,2 milhões de empresas.

Quais bancos têm dinheiro esquecido disponível para resgate?

O sistema abrange bancos, consórcios e outras instituições financeiras que operam no país. O site do Banco Central informa, após a consulta, em quais delas há valores a receber.


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