Celso Amorim analisa aliança militar EUA e resposta de Lula hoje
Escudo das Américas, coalizão militar liderada pelos EUA com 15 países, rotula PCC e CV como terroristas. Flávio Bolsonaro quer adesão do Brasil; governo Lula fala em cerco.
Relações Internacionais
Especialista comenta sobre a aliança militar liderada pelos EUA e as implicações para o Brasil sob o governo Lula.
O Escudo das Américas, coalizão militar liderada pelos Estados Unidos com 15 países latino-americanos, entra no centro da campanha presidencial brasileira. De um lado, Flávio Bolsonaro promete levar o Brasil para a aliança se vencer a eleição. Do outro, o governo Lula acusa a iniciativa de criar um cerco político e militar ao país.
A disputa sobre a adesão à coalizão, que classifica 24 facções criminosas como ameaças terroristas – entre elas PCC e Comando Vermelho –, expõe dois projetos opostos de segurança e política externa. O debate ocorre em meio à escalada de tensões com Washington, após tarifaços americanos de 25% e 12,5% sobre produtos brasileiros neste ano.
Coalizão militar, sanções e rótulo de terrorismo
O Escudo das Américas surge como uma aliança de segurança sob liderança direta dos Estados Unidos, apresentada como resposta regional ao crime organizado e ao narcotráfico. Participam 15 países, entre eles Argentina, Colômbia, Chile, El Salvador, Peru e Paraguai. Brasil e México, governados por administrações de esquerda, ficam de fora.
Os governos integrantes assinam um acordo que lista 24 facções como «ameaças compartilhadas». A partir dessa designação, passam a adotar sanções coordenadas, como restrições migratórias, congelamento de bens e cooperação em operações militares e de inteligência. As facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) entram nesse rol e são rotuladas como organizações terroristas.
O enquadramento altera o status jurídico desses grupos e abre espaço para medidas extraterritoriais dos EUA e de parceiros. Ao carimbar o crime organizado como terrorismo, a coalizão passa a operar com base em instrumentos legais mais duros, usualmente reservados a ameaças de segurança nacional e redes extremistas globais.
Flávio busca alinhamento com Trump e aposta na pauta da segurança
Em videoconversa nesta semana com o presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, o candidato do PL defende abertamente a adesão brasileira. A Colômbia entrou na coalizão após a posse de Espriella, que autorizou operações conjuntas com forças americanas contra o narcotráfico.
Flávio Bolsonaro se apresenta como parceiro natural do eixo liderado por Donald Trump na região. «Então, mal posso esperar para começar a trabalhar junto com você como presidente do Brasil», diz ao colombiano. Ele já convida Espriella para sua cerimônia de posse, marcada para 6 de janeiro, caso confirme a vitória no segundo turno, após ter alcançado 47% dos votos no primeiro.
No vídeo, o candidato liga sua plataforma de segurança diretamente ao Escudo das Américas. «Eu vou com muita vontade e muita honra querer fazer parte também do Escudo das Américas, para fazer uma cooperação com a Colômbia e com os demais países que queiram se unir para combater essas facções narcoterroristas», afirma.
A estratégia de campanha é clara: associar o endurecimento contra o crime organizado à entrada em uma aliança militar liderada pelos EUA, com troca de inteligência, operações conjuntas e o selo de enfrentamento regional a PCC e CV. O movimento também reforça o alinhamento com Trump, figura central na política externa que Flávio promete adotar.
Lula e Amorim veem ‘dominação absoluta’ e risco de intervenção
Enquanto Flávio corteja Espriella, o Palácio do Planalto reage em tom de alerta. O assessor especial para assuntos internacionais, Celso Amorim, se converte em porta-voz da preocupação do governo. Em entrevistas e eventos recentes, ele descreve o Escudo das Américas como um projeto de cerco ao Brasil.
«Agora, sim, nós sofremos ameaça. Veja bem, essa questão do Escudo das Américas põe o Brasil em cerco, cercado com base em argumento falso, que é tratar a questão do crime organizado como se fosse terrorismo internacional. […] Na realidade, é um esquema de dominação absoluta», afirma Amorim.
Para o assessor, o alvo real da política americana é a influência da China na região. «O problema deles é a China», diz. Na leitura do Planalto, o carimbo de terrorismo sobre PCC e CV serviria menos para fortalecer o combate ao crime e mais para criar uma moldura legal que permita ações de pressão e, em último caso, intervenções.
O presidente Lula também endurece o discurso diante da retórica de Trump sobre o uso de poder militar na América Latina. Em resposta, insiste na defesa da autonomia brasileira. «O Brasil não cabe no quintal de ninguém», afirma em eventos públicos, em recado direto a Washington.
Tarifaços e disputa por influência na América Latina
O conflito em torno do Escudo das Américas se soma à escalada comercial entre os dois países. Neste ano, a Casa Branca anuncia dois pacotes de tarifas sobre exportações brasileiras: um de 25%, centrado em áreas como etanol, tecnologia de pagamentos e produtos ligados a desmatamento; outro de 12,5%, atrelado a alegações de falhas no combate ao trabalho forçado em cadeias globais.
Diplomatas brasileiros veem motivação política nos tarifaços, adotados em meio à campanha eleitoral no Brasil. Amorim traduz essa avaliação em termos diretos. «O tarifaço não foi uma medida econômica, tanto que eles tiveram que voltar atrás de algumas porque a própria Suprema Corte disse que eram ilegais. O tarifaço foi uma medida de intimidação», afirma.
Na visão do assessor, o objetivo de Washington é pressionar o governo Lula e favorecer uma mudança de rumo em Brasília. «É que o Lula e o Alckmin não têm medo de tarefas difíceis, eles enfrentam. Essa é a questão. E eles [EUA] querem alguém que se acomode e faça o que eles querem, pra ser um grande Porto Rico, com todo respeito ao povo de Porto Rico», diz.
No entorno de Lula, auxiliares classificam a coalizão como «muito grave» e enxergam nela uma possível porta de entrada para ações militares na região, como as já vistas em episódios na Venezuela e na própria Colômbia. Países vizinhos teriam aderido por motivos distintos: uns por afinidade ideológica com Trump, outros por cálculo pragmático em busca de recursos e blindagem contra ingerências diretas.
O que está em jogo para o Brasil após a eleição
A eventual entrada do Brasil no Escudo das Américas significaria uma guinada na política de segurança e nas relações exteriores. Na prática, implicaria submeter decisões sensíveis — como o grau de cooperação com forças americanas, o compartilhamento de dados de inteligência e o tipo de operação em fronteiras — a um mecanismo coletivo sob liderança dos EUA.
Para os defensores da adesão, a principal vantagem seria o acesso a tecnologia, informações e apoio militar para enfrentar facções que já atuam de forma transnacional. O combate ao tráfico e à lavagem de dinheiro poderia ganhar coordenação regional inédita, com impacto direto em rotas que atravessam Amazônia, fronteiras secas e portos brasileiros.
Críticos alertam para o risco de perda de autonomia. A classificação de PCC e CV como terroristas por uma coalizão externa passaria a orientar sanções, listas de monitoramento e até decisões bancárias no Brasil, sem controle pleno do governo. Na avaliação do Itamaraty, o rótulo pode ainda dificultar cooperações tradicionais, que hoje se baseiam em convenções sobre crime organizado, e não em legislação antiterror.
A adesão também teria custo geopolítico. Um Brasil abertamente integrado a uma aliança militar desenhada em Washington reforçaria o eixo pró-EUA na região e tenderia a afastar o país de iniciativas impulsionadas por Pequim. Isso afetaria negociações comerciais, projetos de infraestrutura e a própria atuação brasileira em fóruns como Brics e G20.
Neste momento, nada muda de imediato: o Brasil segue fora do Escudo das Américas e mantém crítica aberta à classificação de facções brasileiras como terroristas. A eleição presidencial, porém, tende a transformar a coalizão em divisor de águas. Se Flávio Bolsonaro chegar ao Planalto, a diplomacia terá de administrar uma reaproximação acelerada com Washington. Se Lula for reeleito, Brasília deve dobrar a aposta em alianças alternativas e em uma estratégia própria de combate ao crime organizado, em choque com o desenho americano.
O que é o Escudo das Américas proposto por Trump?
O Escudo das Américas é uma coalizão militar liderada pelos Estados Unidos, formada hoje por 15 países latino-americanos, criada para combater crime organizado e narcotráfico com sanções conjuntas, operações coordenadas e compartilhamento de inteligência, classificando 24 facções como ameaças terroristas, entre elas o PCC e o Comando Vermelho.
Quais são os objetivos do Escudo das Américas em relação ao Brasil?
O objetivo central do Escudo das Américas em relação ao Brasil é enquadrar facções como PCC e Comando Vermelho como ameaças terroristas regionais, coordenar sanções e operações transnacionais, e aproximar a política de segurança brasileira da estratégia dos Estados Unidos, reduzindo brechas territoriais na América do Sul para o crime organizado.
Por que Celso Amorim considera o Escudo das Américas um cerco ao Brasil?
Celso Amorim considera o Escudo das Américas um cerco ao Brasil porque avalia que a coalizão usa o argumento, que ele chama de falso, de combater o crime organizado como terrorismo internacional para justificar um esquema de dominação absoluta liderado pelos Estados Unidos, voltado a conter a influência da China e pressionar o governo Lula.
Qual a posição de Flávio Bolsonaro sobre a inclusão do Brasil no Escudo das Américas?
Flávio Bolsonaro defende explicitamente a inclusão do Brasil no Escudo das Américas, promete aderir à coalizão se for eleito presidente, diz ter “muita vontade e muita honra” de integrar a aliança e vincula sua plataforma de segurança à cooperação militar e de inteligência com Estados Unidos, Colômbia e demais países participantes.
Como o Escudo das Américas pretende combater o crime na América Latina?
O Escudo das Américas pretende combater o crime na América Latina por meio da designação de 24 facções como ameaças compartilhadas, aplicação coordenada de sanções como restrições migratórias e congelamento de bens, operações militares e policiais conjuntas e um amplo sistema de compartilhamento de informações de inteligência sob liderança dos Estados Unidos.
Quais seriam as consequências para o Brasil ao entrar no Escudo das Américas?
A entrada do Brasil no Escudo das Américas traria acesso ampliado a inteligência, tecnologia e operações conjuntas contra o crime transnacional, mas também maior influência direta dos Estados Unidos sobre a política de segurança brasileira, possível perda de autonomia em decisões sensíveis e impactos geopolíticos nas relações com a China e vizinhos não alinhados.


