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Comandante da Força Aérea revela como barrar golpe em 2026

Em livro e entrevistas, o ex-comandante da Força Aérea Carlos de Almeida Baptista Júnior relata pressões de Jair Bolsonaro por golpe após 2022 e bastidores da resistência militar.

18/08/2026 11:01 9 min de leitura
Comandante da Força Aérea revela como barrar golpe em 2026
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Forças Armadas

Ex-comandante detalha tentativas de golpe e a resistência das Forças Armadas após as eleições de 2022.

Carlos de Almeida Baptista Júnior, 65, ex-comandante da Força Aérea Brasileira no governo Jair Bolsonaro, relata em livro e entrevistas como resistiu às pressões por um golpe de Estado após a derrota do ex-presidente nas urnas.

O tenente-brigadeiro do ar descreve reuniões reservadas em Brasília, cobranças diretas de Bolsonaro e uma ofensiva política e militar para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva. Afirma que o risco de ruptura é real e iminente, mas contido por um núcleo de oficiais que decide preservar a legalidade.

A engenharia do golpe e o “não” da Aeronáutica

O relato está em “Eu disse não – Uma trincheira antigolpista”, de 240 páginas, lançado às vésperas das eleições deste ano. A obra chega num momento em que aliados de Bolsonaro, como o senador Flávio Bolsonaro, voltam a questionar a lisura do processo eleitoral, reacendendo fantasmas de 2022.

Baptista Júnior reconstrói encontros a portas fechadas no Ministério da Defesa, em que Bolsonaro tenta emplacar um “estado de exceção” para barrar a posse do presidente eleito. Segundo ele, o Planalto busca saídas como estado de sítio, estado de defesa ou operações de Garantia da Lei e da Ordem sem que houvesse os requisitos legais.

Em um desses encontros, Bolsonaro o adverte em tom de ameaça. “’BJ, eu já te dei dois cartões amarelos’”, relata o brigadeiro. Ele diz que, mesmo tendo votado em Bolsonaro em 2018 e 2022, se nega a embarcar em qualquer ruptura. “Nós demos diversas demonstrações de que não iríamos apoiar o golpe”, afirma.

Baptista Júnior ressalta que o foco da tensão recai sobre o Exército, pela sua capilaridade e poder de mobilização de tropas. Diz que conhece a resistência do general Freire Gomes, então comandante da Força, mas teme iniciativas paralelas em escalões inferiores ou em comandos regionais.

Quartéis cercados e a decisão de evitar sangue

A fase mais visível da crise se dá com as manifestações golpistas diante dos quartéis, em Brasília e em outras cidades, logo após o resultado eleitoral. Acampamentos com discursos por “intervenção militar” se espalham. As Forças Armadas sofrem pressão para agir em duas direções opostas: dispersar à força ou aderir à pauta golpista.

O comando decide não reprimir os protestos. Baptista Júnior sustenta que a opção não é de complacência, mas de contenção. Diz que havia informações de que forças de segurança poderiam retirar os manifestantes “à força”, o que, na visão dele, levaria a uma tragédia. “Iria ter um mar de sangue lá”, afirma. A estratégia, resume um amigo citado por ele, é tentar “atrasar o relógio” da bomba: “’Quando você não consegue desarmar a bomba, atrasa o relógio’”.

Nesse contexto, os comandantes publicam, em 11 de novembro de 2022, uma nota em que condenam “excessos” nas manifestações, reafirmam o direito a protestos pacíficos e pedem respeito à legalidade. O texto evita confrontar frontalmente Bolsonaro, mas sinaliza, segundo Baptista Júnior, que não haverá apoio militar a aventuras golpistas.

O brigadeiro admite que o tom moderado deixa dúvidas em parte da sociedade, mas insiste que, internamente, as conversas com o Ministério da Defesa e com o Supremo Tribunal Federal deixam claro o compromisso com a Constituição. “O povo não quer uma ditadura”, repete, ao explicar por que considera que uma ruptura teria pouca sustentação social duradoura.

Racha interno e desfecho no Supremo

Os bastidores, segundo ele, são marcados por fissuras no alto comando. Baptista Júnior relata que o general Laerte Santos, chefe do Estado-Maior Conjunto, é afastado das reuniões de análise de conjuntura, em decisão que atribui à pressão de comandantes de Força. Na Marinha, aponta o almirante Garnier como favorável à ruptura.

Bolsonaro, afirma o brigadeiro, tenta explorar simpatias políticas cultivadas ao longo do mandato. O próprio Baptista Júnior reconhece que já curtiu publicações pró-governo nas redes, participou de churrascos em Brasília e assinou nota dura contra o senador Omar Aziz durante a CPI da Covid. Mesmo assim, garante que nunca sinaliza apoio a um golpe. “Eu nunca dei essa semente para o presidente ter alguma ideia que eu embarcaria com ele”, diz.

Um momento-chave descrito no livro envolve o general Freire Gomes. Diante de uma proposta explícita de ruptura, o comandante do Exército, segundo o relato, reage: “’Se o senhor fizer isso, eu vou ter que lhe prender’”. A frase, repetida em diferentes bastidores, vira um marco simbólico da recusa militar às investidas de Bolsonaro.

Passada a posse de Lula, Baptista Júnior deixa o comando da Força Aérea e se recolhe para escrever suas memórias. Também presta depoimento ao Supremo Tribunal Federal, que usa seu relato para condenar o ex-presidente e integrantes do núcleo golpista. O ex-ministro da Defesa Paulo Sérgio Nogueira recebe pena de 19 anos de prisão.

Medo, política e a disputa pelo passado

As revelações ganham novo peso agora, em plena campanha eleitoral. Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, volta a lançar dúvidas sobre as urnas eletrônicas. Baptista Júnior vê repetição de uma estratégia conhecida. “’O populismo exige antes de mais nada a mobilização dos seus eleitores’”, afirma. Considera um erro reviver um tema que a sociedade, segundo ele, já rejeita.

O ex-comandante tenta se diferenciar da imagem de “mais bolsonarista dos comandantes”, rótulo que o persegue. “’Eu não fui o mais bolsonarista, mas votei no presidente Bolsonaro em 2018’”, escreve, ao explicar sua adesão inicial a uma agenda liberal e anticorrupção. Em 2022, repete o voto, mas diz que não enxerga com clareza que Bolsonaro buscaria se tornar um ditador caso reeleito.

Critica também a tentativa de transformar militares em bloco monolítico. Lembra que mais de dez oficiais são condenados pelo STF por participação na tentativa de golpe, mas afirma que sua geração, formada ainda na sombra da ditadura, não quer “assumir responsabilidade sobre o desenvolvimento do Brasil” como protagonista político.

Aponta, contudo, o peso do estigma. Diz que se sente ameaçado, evita rotinas previsíveis e relata ter ficado “indignado” com ataques generalizados às Forças Armadas após o governo Bolsonaro. “’Indignado, tirei uma foto da tela’”, escreve, ao comentar críticas em programas de TV.

A publicação do livro reacende a disputa de narrativas sobre a crise que desemboca nos atos de 8 de janeiro. Para setores bolsonaristas, a obra será explorada como mais um capítulo de perseguição judicial. Para forças democráticas, reforça a tese de que a democracia sobrevive menos por consenso amplo e mais por freios acionados na última hora por alguns atores-chave.

Baptista Júnior insiste que a lição central ainda está em jogo. Sem citar o Mundial de Seleções, lembra que crises institucionais tendem a reaparecer em ciclos eleitorais. Defende que o país estude o próprio passado autoritário, fortaleça instituições e mantenha vigilância constante sobre aventuras personalistas. O alerta, afirma, vale sobretudo agora, com as urnas novamente à vista.

Quem é o Brigadeiro Carlos Baptista Júnior e qual foi seu papel no governo Bolsonaro?

Carlos de Almeida Baptista Júnior, 65 anos, é tenente-brigadeiro do ar e comandou a Força Aérea Brasileira entre a crise militar do governo Jair Bolsonaro e a posse de Lula, liderando a Aeronáutica em meio às pressões golpistas e tornando-se um dos principais articuladores internos da resistência à ruptura institucional.

Qual foi a posição de Carlos de Almeida Baptista Júnior sobre o risco de golpe durante o governo Bolsonaro?

Carlos de Almeida Baptista Júnior afirma que vê risco iminente de golpe após as eleições de 2022, teme iniciativas isoladas no Exército e, mesmo assim, adota postura firmemente legalista, recusa apoiar qualquer ruptura institucional e atua, em coordenação com outros comandantes, para atrasar movimentos mais radicais e impedir derramamento de sangue.

Como Carlos Baptista Júnior descreve a pressão de Bolsonaro para o golpe em seu livro?

No livro “Eu disse não – Uma trincheira antigolpista”, Carlos Baptista Júnior relata reuniões reservadas no Ministério da Defesa em que Jair Bolsonaro cobra adesão militar, ameaça com frases como “BJ, eu já te dei dois cartões amarelos” e tenta construir juridicamente um estado de exceção para barrar a posse de Lula.

Quais foram os bastidores revelados por Carlos Baptista Júnior sobre a crise que levou ao 8 de Janeiro?

Carlos Baptista Júnior revela exclusão do general Laerte Santos de reuniões-chave, simpatia golpista atribuída ao almirante Garnier, resistência do general Freire Gomes, o cálculo para não reprimir acampamentos e evitar “mar de sangue” e a articulação de notas e reuniões com o Supremo que, segundo ele, esvaziam o ímpeto golpista.

Qual era o cargo de Carlos de Almeida Baptista Júnior na Força Aérea Brasileira durante o governo Bolsonaro?

Carlos de Almeida Baptista Júnior ocupa, durante o governo Jair Bolsonaro, o cargo de comandante da Força Aérea Brasileira, posto máximo da Aeronáutica, liderando a Força entre a crise militar instalada pelo Planalto e a transição para o governo Lula, quando passa para a reserva e se dedica a relatar os bastidores.

Como o ex-comandante da FAB conseguiu abortar o golpe articulado por Jair Bolsonaro?

O ex-comandante da FAB, Carlos Baptista Júnior, afirma ter ajudado a abortar o golpe ao recusar apoio da Aeronáutica, alinhar-se ao general Freire Gomes, sustentar notas públicas pela legalidade, resistir à repressão violenta dos acampamentos para evitar mártires e levar ao Supremo, em depoimento, informações que embasam condenações do núcleo golpista.


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