Derrota de Randolfe reorganiza forças no Senado em 2026
Queda de Randolfe no Amapá enfraquece o PT no Senado, enquanto Novo e aliados ampliam oposição e o partido de Lula aposta em ex-ministros e mulheres para reagir.
Política
Mudanças no Senado indicam nova configuração para as eleições de 2026, com PT enfraquecido e oposição fortalecida.
O senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo Lula no Congresso, perde neste 4 de junho de 2026 a disputa pela reeleição para Rayssa Furlan (Pode-AP). A derrota no Amapá expõe fragilidades do PT no Senado em meio à campanha do segundo turno presidencial.
Reviravolta no Amapá expõe fragilidade petista
Randolfe tenta um terceiro mandato, mas vê a vaga escapar para a ex-primeira-dama de Macapá, esposa do governador eleito do estado, Dr. Furlan (PSD). A vitória de Rayssa consolida o grupo dos Furlan como novo polo de poder local, enquanto o PT perde seu principal articulador no Senado.
Na mesma chapa, Lucas Barreto (PSD) assegura mais oito anos de mandato, reforçando o bloco alinhado ao governador eleito. O resultado redesenha o mapa político do Amapá e reduz o alcance direto do Planalto na Casa.
Em vídeo nas redes sociais, Randolfe reconhece a derrota e tenta deslocar o foco para a disputa presidencial. “Nas eleições, na democracia, ao vencedor não cabe a soberba, ao derrotado não cabe o ódio. Quero cumprimentar o governador eleito, Antônio Furlan, a senadora Rayssa e o senador Lucas Barreto. Desejo a todos o melhor esforço pelo Amapá no próximo período. Os tempos são desafiadores. É tarefa de cada um de nós, a partir de amanhã, para defender a democracia, para defender o melhor do Brasil, se engajar na candidatura de Lula presidente. É em torno disso que estarei dedicado”, afirma.
A fala sinaliza que, sem cadeira no Senado, Randolfe tenta preservar protagonismo na campanha de Lula, num momento em que o PT vê adversários avançarem no Congresso e no eleitorado.
Senado vira termômetro do segundo turno
A disputa pelas 27 vagas em jogo neste ano se converte em termômetro imediato do apoio ao governo e do ambiente para o segundo mandato de Lula, se confirmado. Com a saída de Randolfe, o PT perde uma voz experiente na condução de pautas sensíveis, em um Senado já inclinado ao conservadorismo e à fragmentação partidária.
No Amapá, a convergência entre Podemos e PSD em torno dos Furlan deixa o PT isolado. A proximidade entre a nova senadora e o governador eleito indica uma bancada afinada com o poder estadual, capaz de negociar com diferentes campos em Brasília, mas menos dependente do Palácio do Planalto.
A derrota de um aliado central de Lula às vésperas da definição presidencial reforça a leitura de desgaste do governo em parte do eleitorado, mesmo em estados onde a esquerda acumulou vitórias em ciclos anteriores.
PT aposta em ex-ministros e mulheres para segurar terreno
Diante do revés, a direção petista reage com uma estratégia conhecida: recorrer a nomes com forte capital político, ex-ministros de Lula e Dilma Rousseff e lideranças femininas para tentar preservar ou ampliar a bancada. A ideia é misturar experiência em Brasília e enraizamento nos estados.
Na Bahia, Jaques Wagner, ex-governador e ex-ministro, busca novo mandato sob pressão de investigações ligadas ao Banco Master. Ao lado dele, Rui Costa, também ex-governador baiano e ex-chefe da Casa Civil de Lula, tenta converter sua influência regional em votos ao Senado.
No Paraná, Gleisi Hoffmann deixa o Ministério das Relações Institucionais em 2025 para entrar na disputa. Ex-presidente nacional do PT entre 2017 e 2025 e figura central nas negociações com o Congresso, ela tenta transformar visibilidade e fidelidade a Lula em assento na Casa.
No Rio, Benedita da Silva volta a pleitear vaga no Senado com o peso de décadas de atuação em pautas sociais, direitos das mulheres e igualdade racial. É uma aposta do PT para reconectar o discurso progressista às periferias e ao eleitorado popular.
Em Minas, Marília Campos, ex-prefeita de Contagem, surge como principal liderança petista no estado. Ao trocar a possibilidade de disputar o governo mineiro por uma candidatura ao Senado, entra no núcleo da estratégia de reconstrução da presença do partido em um dos maiores colégios eleitorais do país.
No Espírito Santo, o senador Fabiano Contarato, primeiro senador gay eleito no Brasil, tenta a reeleição pelo PT, apoiado em sua atuação em segurança pública, direitos humanos e defesa de minorias. No Nordeste, Humberto Costa, em seu segundo mandato e ex-ministro da Saúde, também busca renovar o mandato com a força da base histórica petista em Pernambuco.
A lista inclui ainda Eliziane Gama, hoje senadora e ex-líder da bancada feminina, que se filia ao PT após passagem por outras siglas, e lideranças tradicionais como Jorge Viana, no Acre, que tenta recuperar espaço em Brasília após ter comandado o estado e representado a região amazônica no Senado.
Novo se posiciona como contraponto ao PT
Enquanto o PT procura conter perdas, o Novo explora o enfraquecimento governista para cravar um lugar no campo oposto. Com 93,06% das urnas apuradas, o ex-governador mineiro Romeu Zema, presidenciável da sigla, reforça o discurso de antagonismo frontal.
“Onde tiver PT, eu Girão e Novo estaremos do outro lado”, afirma Zema, ao comentar o cenário pós-primeiro turno. A frase resume o projeto do partido de se colocar como referência de oposição liberal a Lula, em aliança com setores bolsonaristas e conservadores.
O cálculo, porém, é também de sobrevivência institucional. Zema admite que a prioridade está em eleger parlamentares o suficiente para ultrapassar a cláusula de barreira, que define o acesso a recursos públicos e tempo de TV. “Nossa grande prioridade é cumprir a cláusula de barreira, já que isso vai proporcionar a perenidade do partido, o partido passa a ter recursos, passa a ter uma série de prerrogativas que até essa atual legislatura ele não tem”, diz.
A investida do Novo, somada ao avanço de siglas como PSD e Podemos em estados-chave, torna o terreno mais hostil para a bancada petista. Mesmo legendas eventualmente aliadas ao Planalto podem chegar à próxima legislatura mais autônomas e dispostas a negociar caro por apoio.
Disputa legislativa pressiona governabilidade
A combinação de perda de quadros estratégicos, como Randolfe, com a ascensão de forças oposicionistas e de centro autônomo desenha um Senado mais fragmentado e menos previsível. Para Lula, isso significa maior custo político para aprovar reformas econômicas, pautas de costumes e indicações para o Judiciário.
No curto prazo, a narrativa construída pelo PT tenta transformar a derrota no Amapá em alerta para a base se mobilizar pelo segundo turno presidencial. No médio prazo, porém, o desafio é mais profundo: reconstruir capilaridade nos estados, renovar lideranças e, ao mesmo tempo, depender de nomes históricos para evitar um encolhimento ainda maior no Legislativo.
As próximas semanas de campanha devem mostrar até onde a derrota de Randolfe é um ponto fora da curva ou o prenúncio de um ciclo de retração petista no Senado. A resposta virá das urnas e, depois, das primeiras votações da nova legislatura, quando ficará claro quem, de fato, dita o ritmo do Congresso nos próximos quatro anos.
Por que a derrota de Randolfe importa para o governo Lula?
Randolfe era o principal articulador do Planalto no Senado. Sua saída reduz a influência direta do governo na Casa e torna mais difíceis negociações de projetos sensíveis.
O que é a cláusula de barreira que preocupa o partido Novo?
É a regra que exige desempenho mínimo em votos ou número de eleitos para que partidos tenham acesso a fundo público, tempo de TV e estrutura parlamentar plena.


