Do fim do ar na Terra ao sufoco das empresas: o cerco do oxigênio
De simulações que projetam o fim do oxigênio atmosférico a estudos sobre idosos e à crise de crédito no Brasil, elemento vital vira fio condutor de alerta.
Tecnologia
O oxigênio, elemento essencial, conecta alertas ambientais, desafios à saúde e impactos econômicos no Brasil.
O oxigênio que sustenta a vida complexa na Terra tem prazo: cerca de 1 bilhão de anos, indicam cientistas. No presente, idosos lutam para aproveitá-lo melhor durante o exercício, enquanto empresas brasileiras dizem que o “ar” do crédito acabou em plena crise de rolagem de dívidas.
Um bilhão de anos de fôlego para a biosfera
Cientistas japoneses e estadunidenses simulam o futuro do planeta em supercomputadores e chegam a um consenso desconfortável: “Nossa atmosfera rica em oxigênio tem, aproximadamente, 1 bilhão de anos pela frente”, resume o estudo publicado na revista Nature Geoscience.
Mais de 400 mil simulações sobre a evolução geológica e biológica da Terra apontam um mesmo desfecho. Conforme o Sol emite mais radiação, o ciclo natural que envolve rochas carbonáticas e silicáticas se acelera e derruba as concentrações de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera.
Sem CO₂ suficiente, plantas e outros organismos fotossintéticos entram em colapso. O mecanismo que libera oxigênio para o ar trava. O planeta volta a um cenário semelhante ao da chamada Terra Arcaica, de cerca de 2,5 bilhões de anos atrás, quando quase não havia oxigênio livre.
Os modelos sugerem que o oxigênio atmosférico desaba para algo próximo de um milionésimo dos níveis atuais. A vida aeróbica complexa, que depende desse gás para transformar nutrientes em energia, desaparece muito antes da evaporação dos oceanos. Permanecem formas de vida anaeróbicas, que vivem sem oxigênio ou com quantidades ínfimas.
O horizonte de 1 bilhão de anos relativiza angústias imediatas, mas reorganiza debates científicos. Pesquisadores em biologia, ecologia, climatologia e astrobiologia precisam recalibrar modelos de sustentabilidade planetária e de habitabilidade de outros mundos. A tabela periódica, tão familiar aos estudantes, esconde uma condição frágil: o oxigênio disponível à superfície não é dado eterno, mas resultado de um equilíbrio geológico e biológico delicado.
Quando o envelhecimento rouba ar do cérebro e dos músculos
Enquanto a comunidade científica projeta o futuro distante do planeta, laboratórios brasileiros observam como o oxigênio circula, aqui e agora, dentro do corpo humano que envelhece. Em 6 de setembro de 2026, pesquisadores da Unicamp e da Unesp publicam no Translational Journal of the American College of Sports Medicine um estudo que compara jovens e idosos fisicamente ativos.
Quarenta voluntários, 20 jovens e 20 idosos, caminham por 10 minutos em esteira, em intensidade moderada. Ao mesmo tempo, a equipe monitora em tempo real a oxigenação do córtex pré-frontal, região do cérebro ligada ao planejamento e à tomada de decisão, e dos músculos das pernas.
O grupo usa espectroscopia no infravermelho próximo, a NIRS, tecnologia que lança feixes de luz pela pele para estimar quanta hemoglobina carrega oxigênio em tecidos profundos. Não é exame invasivo, não dói, mas expõe diferenças claras entre gerações.
“Temos investigado a oxigenação muscular durante o esforço físico já há algum tempo”, explica a professora Fúlvia de Barros Manchado-Gobatto, coordenadora do Laboratório de Fisiologia Aplicada ao Esporte da Unicamp e uma das autoras do trabalho. O passo seguinte, diz ela, é cruzar oferta e uso de oxigênio em músculo e cérebro para refinar a prescrição de exercícios.
Os resultados mostram que os jovens aumentam progressivamente a oxigenação cerebral e muscular durante a caminhada. Os idosos, não. Neles, a oxigenação do córtex pré-frontal cai e o músculo utiliza menos oxigênio, sinal de menor eficiência metabólica. “Isso quer dizer que há um prejuízo na chegada de oxigênio durante o exercício, sendo que essa oxigenação é importante para a tarefa ser planejada e executada com sucesso”, afirma Fúlvia.
O sangue chega, mas o corpo não aproveita tão bem. A geriatra Erika Satomi, do Hospital Israelita Albert Einstein, resume o elo perdido: “Quanto mais saudável e ativa é a mitocôndria, mais oxigênio ela consegue utilizar”. Com o envelhecimento, explica, vasos ficam mais rígidos e as mitocôndrias, usinas de energia das células, trabalham pior.
Os idosos da pesquisa também produzem menos lactato, substância associada à via anaeróbia lática, que gera energia sem oxigênio em situações de esforço intenso. Aparentam, portanto, menos capacidade de recorrer a essa rota de emergência. A recuperação da oxigenação cerebral depois da caminhada é mais lenta nos mais velhos.
O quadro preocupa, mas não condena. A própria pesquisa reforça que a atividade física continua central para preservar autonomia e qualidade de vida. Ao mostrar onde falta oxigênio, o estudo aponta onde agir: treinos personalizados, fisioterapia, programas públicos de envelhecimento ativo. Intervenções que, na prática, dão mais fôlego ao cérebro e aos músculos.
‘Acabou o oxigênio’: o ar rarefeito do crédito
No outro extremo da metáfora, executivos da Faria Lima descrevem a economia real com um diagnóstico seco: “acabou o oxigênio”. Não se fala de tanques ou cilindros, mas da capacidade das empresas de rolar suas dívidas na praça brasileira em 2026.
Uma combinação de juros elevados, recuperações judiciais em série e incerteza eleitoral leva bancos a fechar a torneira da rolagem de débitos. Operações que por anos se renovam quase automaticamente agora travam, em especial para setores expostos ao mau humor econômico, como o varejo.
Um CEO de banco internacional sediado na Faria Lima, que acompanha de perto essas negociações, descreve a guinada nas salas de crédito. As instituições aumentam provisionamentos, reservando mais capital para perdas, e fogem de risco, privilegiando empréstimos com garantias robustas.
“Eu diria que 80% das rolagens que estão acontecendo só saem porque, se não sair, vai ser ruim para todo mundo”, admite o executivo. A frase escancara um impasse: quando o banco nega a rolagem, ele próprio eleva o risco de não receber de volta o dinheiro que já emprestou.
A metáfora do fim do oxigênio financeiro aparece com frequência em conversas com empresários. Sem crédito, muitas companhias não conseguem alongar prazos, refinanciar debêntures ou renegociar linhas de capital de giro. O sufoco pressiona balanços, empregos, investimentos. Empresas de óleo e gás e utilities, com receitas mais previsíveis, respiram melhor. O restante encara uma atmosfera rarefeita.
Nesse ambiente, a palavra “sustentabilidade” ganha um duplo sentido. Fala de ecossistemas, mas também de balanços. A mesma substância que, em escala planetária, garante a existência de organismos complexos vira imagem para descrever a sobrevivência de negócios endividados.
Um elemento, três alertas
O estudo na Nature Geoscience sinaliza que a atmosfera terrestre, tão confortável para a espécie humana hoje, é um capítulo transitório da história do planeta. A pesquisa da Unicamp e da Unesp mostra que, mesmo dentro desse intervalo de abundância, envelhecer significa lidar com um transporte de oxigênio menos eficiente. A crise de crédito brasileira, por sua vez, escancara a dependência de empresas de um fluxo contínuo de recursos para seguir operando.
Em todos os níveis, o recado converge. Condições que parecem dadas — o ar que respiramos, a disposição para caminhar até a esquina, a linha de financiamento que se renova há anos — podem mudar e se esgotar. A diferença está no prazo e nas ferramentas disponíveis.
No longo arco de 1 bilhão de anos, o debate se desloca para a ciência básica, a busca por outros mundos habitáveis, a compreensão de como preservar ciclos biogeoquímicos. No horizonte de décadas, pesquisadores brasileiros correm para traduzir medições de oxigênio em protocolos concretos de saúde para uma população que envelhece rápido. No intervalo de meses, reguladores e governos podem ser chamados a agir se a falta de “oxigênio” financeiro ameaçar empregos e produção.
As três histórias correm em tempos distintos, mas se tocam em um ponto: a percepção de que a vida, seja de um organismo, seja de uma empresa, depende de fluxos invisíveis. Quando eles rareiam, a urgência muda de escala — e a busca por novo fôlego se torna inevitável.
Quando o oxigênio da Terra deve acabar segundo os cientistas?
As simulações indicam que a atmosfera rica em oxigênio se mantém por cerca de 1 bilhão de anos, antes de uma rápida desoxigenação ligada ao aumento da radiação solar.
O que causou a paralisação dos bancos na rolagem de dívida relacionada ao oxigênio?
A expressão “acabou o oxigênio” é metáfora para a crise de crédito: juros altos, mais recuperações judiciais e incerteza eleitoral levaram bancos a travar a rolagem de dívidas.
Por que idosos podem apresentar menor oxigenação cerebral e muscular durante exercícios?
O estudo mostra prejuízo na chegada e no uso de oxigênio em cérebro e músculos, associado a rigidez vascular e menor eficiência das mitocôndrias com o envelhecimento.


