Esquema de R$ 6 bi no INSS cerca Lulinha e lobista ligada ao Planalto
Depoimentos, planilhas e mensagens obtidos pela PF detalham como o empresário Careca do INSS teria desviado R$ 6 bilhões e buscado influência no governo com ajuda de aliados.
Corrupção
Investigações revelam detalhes do desvio bilionário e conexões políticas envolvendo figuras próximas ao Planalto.
O empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, está preso desde setembro de 2025, acusado de comandar um desvio de R$ 6 bilhões das aposentadorias do INSS. Depoimentos e documentos obtidos pela Polícia Federal desde 2023 agora empurram o caso para o entorno do Palácio do Planalto e do Ministério da Saúde.
Testemunha-chave rompe o silêncio
No centro das revelações está Edson Claro, ex-diretor comercial da World Cannabis, empresa de Antunes. Ele passa mais de 80 horas prestando depoimento à PF e entrega um pacote de mensagens, planilhas, fotografias e diálogos de celular que expõem o fluxo de dinheiro e as conexões políticas do grupo.
“A primeira coisa que falei é que muita gente grande estava envolvida”, afirma Edson. As informações abrem ao menos três investigações que mencionam Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente da República, e miram suspeitas de tráfico de influência em contratos bilionários na área da saúde e de tecnologia.
Segundo Edson, Careca do INSS conta a ele que reservava R$ 25 milhões para pagar a Lulinha, em troca da viabilização de um contrato de R$ 1 bilhão no Ministério da Saúde. O negócio envolveria a venda de testes rápidos para dengue e zika à rede pública. “Falei sobre a comissão de 25 milhões que o Antonio disse que pagaria para o filho do presidente e também sobre o envolvimento de outras pessoas importantes, incluindo o senador Weverton Rocha”, relata.
A defesa de Lulinha nega participação e fala em abuso investigativo. “Não tem relação direta ou indireta com os negócios de Roberta Luchsinger”, diz a nota enviada à imprensa, em referência à lobista que atua junto a órgãos federais e é apontada como elo entre empresários e instâncias do governo.
A engrenagem dos negócios e as viagens
As provas reunidas pela PF descrevem um roteiro que mistura viagens internacionais, consultorias privadas e pressão sobre órgãos públicos. Edson conta que Lulinha viaja com Careca para Portugal, Alemanha, Suíça e Espanha, em agendas voltadas a negócios de cannabis medicinal, tecnologia e serviços ligados ao poder público. Um dos deslocamentos, para Portugal, ocorre em novembro de 2024.
Paralelamente, mensagens obtidas a partir de maio de 2025 mostram Careca e seus intermediários discutindo estratégias para acessar ministros, dirigentes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), técnicos da Dataprev e executivos do BNDES. O objetivo, segundo investigadores, é abrir espaço para contratos com recursos previdenciários e orçamentos da saúde.
Edson descreve também um fluxo recorrente de recursos destinados ao filho do presidente. Diz à PF que Lulinha recebe uma mesada de R$ 300 mil, bancada pela lobista Roberta Luchsinger e pela publicitária Danielle Fonteles, que mora em Portugal. O dinheiro, segundo ele, sai de negócios estruturados por Careca e seus parceiros, em especial projetos de cannabis medicinal para o Sistema Único de Saúde e iniciativas de educação financeira atreladas ao INSS.
Os relatos o colocam em risco. A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS tenta incluí-lo em programa de proteção, sem sucesso. Nas semanas seguintes aos primeiros vazamentos, ele passa a receber ligações de números dos Estados Unidos, do Paraguai e do interior de São Paulo. Em uma delas, ouve que estaria “falando muito”. Antes da prisão, o próprio Careca o ameaça, prometendo “meter uma bala” em sua cabeça se ele continuasse colaborando.
Lobista na Esplanada e pagamentos a ex-assessor de Lula
Enquanto Edson fala aos investigadores, a trajetória de Roberta Luchsinger, amiga próxima de Lulinha, ganha peso no inquérito. Dona de uma empresa de consultoria, ela circula pela Esplanada entre 2023 e 2025 representando empresários interessados em contratos públicos. Registros oficiais mostram oito agendas no Palácio do Planalto e, ao menos, 32 visitas a ministérios da Saúde, do Desenvolvimento Social e ao BNDES, entre outros órgãos.
Um dos clientes é justamente Careca do INSS. Documentos apreendidos mostram que ele transfere R$ 1,5 milhão à lobista, em cinco parcelas de cerca de R$ 300 mil entre 2024 e 2025. Um contrato entre a RL Consultoria e Intermediações, de Roberta, e a Brasília Consultoria Empresarial, ligada a Antunes, prevê remuneração de R$ 100 mil por projeto, com menções a iniciativas de energia, tecnologia e saúde.
Em áudio de início de 2025, revelado em outra investigação, Roberta explica a Antunes como driblar a concorrência em um contrato de cannabis medicinal no SUS. Ela fala em usar a lei de licitações para justificar a dispensa de disputa pública, com base em um suposto cenário de emergência sanitária, por meio de um “documento bem robusto”. O convênio, porém, nunca sai do papel.
As apurações mostram ainda pagamentos da lobista ao ex-chefe do Gabinete Pessoal da Presidência, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que deixa o cargo duas semanas antes de o caso vir à tona. Ele nega irregularidades e afirma à imprensa: “Recebi os valores na forma de um empréstimo, posteriormente quitado”. Não informa o montante. Roberta é citada em inquéritos no Supremo Tribunal Federal que investigam tráfico de influência e venda de facilidades no governo.
Reações, negativas e o cerco judicial
As suspeitas atingem o núcleo político do Planalto e a cúpula da saúde. A PF rastreia agendas e mensagens para entender até onde vai a influência de Careca, Roberta e seus associados dentro do governo federal. A investigação mira, por exemplo, tentativas de aproximação com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e com diretores da Anvisa.
A assessoria de Padilha afirma que ele mantém distância desse circuito. “Não recebi Roberta nenhuma vez no Ministério da Saúde após ter assumido a pasta em março de 2025”, informa a nota enviada à reportagem. A defesa de Careca diz que ainda não conhece o teor das provas colhidas. “A defesa não teve acesso à investigação nem ao conteúdo do celular dele e por isso não iria se manifestar”, declara a advogada Danyelle Galvão.
A PF, com autorização do Supremo, abre inquéritos específicos para apurar suspeitas de corrupção, tráfico de influência e lavagem de dinheiro em contratos de saúde e tecnologia. Os investigadores desconfiam que parte dos R$ 6 bilhões desviados das aposentadorias do INSS tenha irrigado negócios privados e o caixa paralelo de campanhas, embora essa frente ainda esteja em fase inicial. A defesa de Lulinha fala em “pesca probatória” e tenta limitar o acesso a seus dados pessoais nos autos.
O impacto vai além do noticiário político. O rombo bilionário pressiona as contas da Previdência e acende alerta sobre a fragilidade dos mecanismos de controle do INSS, responsável por pagar benefícios a milhões de aposentados e pensionistas. Órgãos como Dataprev e BNDES, citados em planilhas e conversas interceptadas, têm de reforçar internamente regras de integridade para afastar a suspeita de favorecimento.
O que vem pela frente
O caso Careca do INSS entra em 2026 como uma das investigações mais sensíveis para o governo federal. A PF ainda cruza dados bancários, registros de viagens e contratos públicos para medir o tamanho real do esquema. A possibilidade de novas quebras de sigilo e de delações premiadas preocupa aliados do Planalto e empresários citados nas planilhas.
No Congresso, a CPMI do INSS discute propor mudanças na fiscalização de contratos ligados à Previdência e reforço nas barreiras para consultorias privadas que atuam em nome de empresas interessadas em recursos públicos. A tendência é que o caso siga por anos no Judiciário, com fases sucessivas de denúncias e julgamentos, enquanto o país ainda tenta recuperar a confiança na gestão do dinheiro dos aposentados.
Quem é o Careca do INSS envolvido no escândalo?
É o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, dono da World Cannabis e apontado pela PF como líder de um esquema que desviou R$ 6 bilhões do INSS.
Qual a relação entre o Careca do INSS e Lulinha?
Segundo a testemunha Edson Claro, Careca promete pagar R$ 25 milhões a Lulinha por um contrato de R$ 1 bilhão na Saúde e financia viagens e mesadas via aliados.
Onde está o Careca do INSS atualmente?
Ele está preso desde setembro de 2025, custodiado em unidade do sistema prisional federal, enquanto responde às investigações sobre os desvios do INSS.
Quais as ações da Polícia Federal contra o Careca do INSS?
A PF o prendeu, quebrou sigilos, analisou celulares e documentos, e conduz inquéritos por corrupção, tráfico de influência, lavagem de dinheiro e desvio de recursos do INSS.


