Feminicídio no AP e sumiço no RS expõem fragilidade do trabalhador
Em menos de um mês, feminicídio em Santana (AP) e desaparecimento de um rural em Nova Alvorada (RS) escancaram a vulnerabilidade de trabalhadores e cobram respostas do poder público.
Economia
Casos recentes revelam a insegurança enfrentada por trabalhadores em diferentes regiões do país.
Em menos de um mês, a morte de Emily Darck Vanzeler Canela, 22, no Amapá, e o desaparecimento do rural Diego Trentini Zatt, 37, no Rio Grande do Sul, jogam luz sobre a fragilidade da vida do trabalhador brasileiro em casa, na rua e no campo.
Feminicídio por ciúmes em Santana
Emily é assassinada a tiros dentro de um carro em Santana, no sábado, 1º de agosto de 2026. O caso passa poucas horas como suspeita de latrocínio, roubo seguido de morte, até que as contradições do companheiro mudam o rumo da investigação.
Adriano da Silva Pinheiro, com quem Emily se relaciona há seis anos, primeiro fala como testemunha. À medida que policiais avançam nas diligências, o discurso desmorona. Em conversa com agentes do Grupo Tático Aéreo, ele admite que atira na jovem por ciúmes.
A reviravolta leva a Polícia Civil a reclassificar o crime como feminicídio, quando a mulher é morta em razão da condição de gênero. Adriano tem a prisão preventiva decretada. A polícia agora tenta localizar a arma usada no assassinato para reforçar o conjunto de provas.
O delegado Rômulo Viegas, responsável pelo caso, descreve um perfil que, à primeira vista, não combina com a imagem do feminicida. “Era um rapaz trabalhador, muito conhecido em Santana, não tinha boletins de ocorrência registrados contra ele. Era visto como protetor de animais e tinha mais de 25 anos de trabalho em uma empresa”, afirma.
Emily, segundo o delegado, mantém vida discreta. “Emily era muito reservada, não falava quase nada sobre seus relacionamentos. Mesmo que estivesse sofrendo violência, os colegas de trabalho não saberiam”, diz Viegas. A frase sintetiza o desafio de identificar, a tempo, ciclos de agressão que se escondem atrás da rotina produtiva.
O casal passa a morar sozinho apenas em outubro de 2025. Em menos de um ano de convivência sob o mesmo teto, a relação termina em assassinato. Entre colegas e moradores de Santana, o impacto vai além do choque. O caso acende alerta sobre o quanto empresas, sindicatos e órgãos públicos ainda falham em enxergar sinais de violência doméstica entre trabalhadores.
Desaparecimento sem pistas no interior gaúcho
No extremo oposto do país, outra família vive um drama sem desfecho. Em Nova Alvorada, norte do Rio Grande do Sul, o trabalhador rural Diego Trentini Zatt some em 8 de julho de 2026, uma quarta-feira, quando sai para a lavoura e não volta.
Ele deixa a casa por volta das 13h30, ao volante da caminhonete, com destino a uma área rural onde trabalha com pulverização agrícola. No caminho, para para encher o tambor de água em uma caixa-d’água. Manda um áudio para a namorada, dizendo que está a cerca de 10 quilômetros da lavoura. Depois disso, silêncio.
O último sinal do celular aparece ainda nas proximidades de Nova Alvorada, onde mora há cerca de 15 anos. A caminhonete é encontrada completamente queimada em Soledade, a cerca de 60 quilômetros dali. Nenhum vestígio claro de luta, acidente ou roubo é divulgado.
Sem explicação concreta, a Polícia Civil tenta reconstruir os passos de Diego. A delegada Daniela Mineto obtém na sexta-feira, 31 de julho, autorização judicial para quebrar o sigilo telefônico do trabalhador. A expectativa é que registros de ligações e mensagens apontem com quem ele fala nas horas anteriores ao sumiço e para onde pode ter ido.
Natural de Arvorezinha, pai de duas filhas, Diego é descrito pela família como um homem tranquilo, ligado ao trabalho e à casa. A namorada, que pede para não ter o nome divulgado, conta que no início acredita em um problema banal. “Até então eu achava que ele estivesse com celular quebrado ou algo do tipo, mas no dia seguinte chamei a mãe dele para saber se conseguiam contato com ele, mas também não tinham conseguido”, relata.
Os dias passam sem resposta. O cotidiano da família entra em suspensão. “Nós conversávamos o dia todo, ele é muito divertido, temos muitos momentos de alegria. A ausência dele tem sido um vazio enorme para todos nós, os dias têm sido horríveis sem ele”, diz. Ela afirma desconhecer qualquer vício ou inimizade que ajude a entender o desaparecimento.
Trabalhador vulnerável em casa e no campo
Os dois casos não têm ligação direta entre si, mas revelam um mesmo traço: a vulnerabilidade do trabalhador, seja no ambiente doméstico, seja nas estradas de chão e lavouras do interior.
Em Santana, o feminicídio desmonta a ideia de que histórico profissional e boa imagem pública bastam para afastar suspeitas. O próprio delegado ressalta que vítimas de violência doméstica costumam sofrer em silêncio por anos. Quando a agressão vira manchete, muitas vezes é tarde demais.
O episódio pressiona empresas a rever protocolos. Programas internos de acolhimento, canais seguros de denúncia e treinamento de gestores para identificar sinais de controle, isolamento e medo ainda engatinham em boa parte do país. A morte de uma funcionária de 22 anos, em início de carreira, ajuda a expor essa lacuna.
No interior gaúcho, o sumiço de um trabalhador rural evidencia um outro tipo de desproteção. Profissionais que circulam sozinhos por áreas afastadas, com pouca cobertura de sinal de celular, dependem de redes de apoio frágeis. Quando algo acontece, qualquer busca enfrenta distâncias longas, estradas precárias e falta de testemunhas.
A agricultura familiar e as pequenas comunidades rurais sentem o impacto de um desaparecimento como o de Diego. Além da dor afetiva, fica o temor difuso de que criminosos possam agir em áreas onde a presença do Estado é intermitente. Cada dia sem resposta amplia a cobrança sobre a polícia por rapidez, transparência e comunicação constante com os familiares.
Pressão por respostas e possibilidade de mudanças
Nos dois casos, o sistema de justiça se move, mas não afasta todas as dúvidas. No Amapá, a confissão de Adriano e a prisão preventiva não encerram a investigação. A busca pela arma e por outros elementos materiais ainda pode definir o rumo do processo e o enquadramento final das penas.
No Rio Grande do Sul, a quebra de sigilo telefônico é uma aposta central da Polícia Civil para avançar. A análise dos dados exigirá tempo e perícia. Até lá, família e comunidade vivem entre a esperança de encontrar Diego com vida e o medo de um desfecho trágico.
Os dois episódios tendem a alimentar debates mais amplos, em Brasília e nas assembleias estaduais, sobre políticas de proteção à mulher, segurança no campo e apoio psicológico a trabalhadores em situação de risco. Programas específicos, em ambientes urbanos e rurais, podem ganhar impulso, seja para prevenir feminicídios, seja para agilizar buscas e investigações em áreas remotas.
Enquanto novas medidas não saem do papel, a rotina segue marcada pela ausência. Em Santana, colegas de Emily tentam entender como não perceberam sinais de que algo ia mal. Em Nova Alvorada, amigos de Diego se revezam em orações e cobranças por respostas. As próximas semanas dirão se as instituições conseguem transformar tragédia e angústia em algum tipo de proteção mais efetiva para quem apenas tenta trabalhar e voltar para casa.
Qual o perfil do suspeito de feminicídio no Amapá que era trabalhador e protetor de animais?
Segundo o delegado Rômulo Viegas, Adriano da Silva Pinheiro é conhecido em Santana como trabalhador, sem boletins de ocorrência, protetor de animais e com mais de 25 anos na mesma empresa.
O que se sabe sobre o desaparecimento do trabalhador em Nova Alvorada?
Diego Trentini Zatt some em 8 de julho de 2026, após sair para trabalhar na lavoura em Nova Alvorada. O celular perde sinal perto da cidade e a caminhonete é achada queimada em Soledade, a 60 quilômetros. A polícia obteve quebra de sigilo telefônico e segue investigando, sem pistas claras sobre o motivo do sumiço.


