Fraude com biometria de idosos acelera mudança no INSS
Esquema que desviou R$ 86 milhões do BPC expõe falhas na biometria do INSS e acelera a adoção da Carteira de Identidade Nacional e do reconhecimento facial.
Economia
Esquema milionário revela vulnerabilidades no sistema biométrico do INSS e impulsiona novas tecnologias de identificação.
Um esquema que usa a biometria de idosos para criar identidades falsas e fraudar o INSS é denunciado nesta terça-feira (6) contra 35 suspeitos em Minas. A investigação aponta desvio de R$ 86 milhões do Benefício de Prestação Continuada (BPC) ao longo de 20 anos.
O caso pressiona o governo a apertar as regras de identificação de aposentados e pensionistas e coincide com duas mudanças profundas: a adoção da Carteira de Identidade Nacional (CIN) como base biométrica única no INSS até 2028 e a implantação do reconhecimento facial em portos, aeroportos e hidrovias a partir de novembro de 2026.
Rede de dublês biométricos no interior de Minas
A denúncia aceita pelo juiz Leonardo Araujo de Miranda Fernandes, da 1ª Vara Federal Criminal de Governador Valadares, descreve um grupo que atua há pelo menos duas décadas em cidades mineiras. A engrenagem mistura cartórios, documentos tardios e idosos usados como dublês biométricos.
Segundo o Ministério Público Federal, os criminosos inventam pessoas. Conseguem certidões de nascimento tardias em cartórios para indivíduos que nunca existiram, o que abre brecha para tirar documentos oficiais de identidade. Em seguida, recrutam idosos, que emprestam rosto e impressões digitais para dar vida às criações no sistema do INSS.
Esses idosos se apresentam em agências como se fossem diferentes beneficiários fictícios, sempre amparados por procurações assinadas a rogo, recurso usado quando alguém alega não saber ou não poder assinar. Os contatos informados ao INSS são telefones e endereços ligados ao próprio grupo, que controla toda a comunicação.
Perícias da Polícia Federal desmontam o truque. “Uma mesma impressão digital aparecia ligada a diversas identidades no sistema do INSS”, afirma o Ministério Público Federal. Mais de 170 laudos papiloscópicos e biométricos sustentam a acusação.
No total, a força-tarefa identifica 457 aposentadorias fraudadas. Dessas, 240 ainda estão em pagamento regular em agosto de 2026, quando a Operação Leste do Espinhaço é deflagrada, em 25 de agosto, pela Polícia Federal em conjunto com a área de inteligência da Previdência Social.
O MPF descreve o grupo como “uma rede criminosa integrada, estável e com clara divisão de funções entre seus membros”. Dois dos apontados como líderes já tinham sido alvo da Operação Fementido, em 2022, quando foram condenados por estelionato previdenciário.
Prisão de 19 réus e nova frente de investigação
A decisão do juiz Leonardo Araujo mantém a prisão preventiva de 19 dos 35 denunciados. Para o magistrado, a chance de o esquema continuar em funcionamento ainda é concreta. “O risco de reiteração persiste, pois há comprovantes de saques de benefícios fraudulentos até 31 de julho”, escreve.
A Operação Leste do Espinhaço cumpre 91 medidas judiciais, entre elas 25 mandados de prisão preventiva e 33 de busca e apreensão. As diligências se espalham por nove cidades mineiras e por São Gabriel da Palha, no Espírito Santo.
Parte dos investigados responde em liberdade, com medidas cautelares como monitoramento eletrônico. Três acusados seguem foragidos. O juiz manda a Polícia Federal abrir um novo inquérito para rastrear lavagem de dinheiro e outros envolvidos ainda não denunciados.
Os investigadores relatam que, depois de concedido o benefício fraudulento, os integrantes do grupo assumem cartões bancários, fazem saques mensais em caixas eletrônicos e na boca do caixa, reativam benefícios suspensos e chegam a contratar empréstimos consignados em nome de beneficiários fictícios. Os pedidos são pulverizados entre vários municípios para driblar filtros automáticos do INSS.
INSS corre para blindar sistema com nova identidade
O caso mina a confiança de um programa social voltado justamente a idosos pobres e pessoas com deficiência, público mais vulnerável a intermediações suspeitas. A resposta oficial vem em duas frentes: mudança nas regras de concessão de benefícios e reformulação da base biométrica.
Em nota recente, o INSS afirma que endurece controles e amplia o uso de biometria. “Entre as medidas está a exigência de cadastro biométrico, por meio da Carteira Nacional de Identidade, da Carteira Nacional de Habilitação ou do Título de Eleitor, para benefícios previdenciários requeridos a partir de 21 de novembro de 2025 e benefícios assistenciais requeridos a partir de 1º de setembro de 2024”, diz o instituto.
O passo seguinte é mais ambicioso. O governo decide que, a partir de 1º de janeiro de 2028, apenas a Carteira de Identidade Nacional servirá como base biométrica para concessão, manutenção e revisão de benefícios. A CIN usa o CPF como número único e reúne impressões digitais e fotografia em um só documento. “A Carteira de Identidade Nacional utiliza o CPF como número único de identificação, o que ajuda a evitar registros duplicados e reduz erros nos cadastros públicos”, destaca o portal ND Mais.
Até 31 de dezembro de 2026, o INSS ainda aceita biometria vinculada à carteira de habilitação, ao título de eleitor e ao passaporte. A partir de 1º de janeiro de 2027, esses cadastros só valem se a biometria tiver sido registrada até 31 de dezembro de 2026. A virada definitiva ocorre em 2028, quando a CIN passa a ser o único documento com biometria reconhecida pelo sistema previdenciário.
Na prática, aposentados e pensionistas terão de acompanhar o calendário e atualizar documentos para não correr o risco de suspensão dos pagamentos. A corrida aos postos de identificação tende a crescer nos próximos dois anos, em especial entre quem nunca refez a carteira de identidade.
Reconhecimento facial chega a portos e aeroportos
Enquanto o INSS reestrutura a base de dados, o governo abre outra frente de biometria, voltada à mobilidade e ao controle migratório. Em agosto de 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos cria a Política Nacional de Identificação Biométrica.
A norma prevê que o embarque com reconhecimento facial chegue a todos os aeroportos, portos e hidrovias do país. “A Política Nacional de Identificação Biométrica vai levar o embarque por reconhecimento facial a todos os aeroportos, portos e hidrovias”, afirma o ministério.
O plano de implementação mira meados de novembro de 2026 e envolve empresas de tecnologia como Pacer, Positivo e Grupo GTI, já atuantes em soluções de biometria facial. Essas companhias disputam espaço em um mercado aquecido pelo endurecimento das normas de segurança.
Nos bastidores, fornecedores pressionam para incluir outras formas de biometria, como leitura de íris e palma da mão, nas futuras fases do programa. O avanço, porém, deve alimentar debates sobre proteção de dados, uso de câmeras em larga escala e risco de vigilância abusiva.
Cartórios, órgãos de segurança pública e serviços sociais também entram na roda. A tendência é de maior integração entre bases civis e criminais, algo que especialistas veem como arma poderosa contra fraudes, mas que exige transparência e fiscalização para não se transformar em ferramenta de abuso.
Quem ganha, quem perde com a nova biometria
O desmonte do esquema de dublês biométricos coloca sob suspeita uma rotina que parecia segura: a conferência de digitais e fotos nas agências do INSS. A descoberta de 457 benefícios fictícios mostra que a tecnologia, isolada, não basta quando os próprios cadastros de origem são falsos.
Os cofres públicos perdem R$ 86 milhões em benefícios indevidos, enquanto pessoas em situação de miséria podem ter enfrentado filas e atrasos em nome de uma fila inflada artificialmente. A Previdência calcula recuperar ao menos parte desse rombo com a interrupção dos pagamentos irregulares.
Fornecedores de tecnologia biométrica saem fortalecidos. A expansão do reconhecimento facial em terminais de transporte e a exigência da CIN em todo o INSS abrem contratos para desenvolvimento de sistemas, equipamentos de captura e bases de dados mais robustas.
Para o cidadão comum, o impacto é mais ambíguo. A tendência é de menos fraudes e maior rapidez na concessão de benefícios para quem está com documentação em dia, mas também de mais burocracia de curto prazo, com filas para atualização cadastral e dúvidas sobre onde e como registrar a biometria válida.
O desfecho do processo criminal em Minas e a forma como o governo conduz a transição para a CIN e para o reconhecimento facial serão decisivos para definir se o novo ciclo de biometria fortalece a proteção social ou apenas muda o tipo de risco. A promessa é de um sistema mais seguro até 2028; a pergunta, agora, é como garantir que ninguém fique para trás no caminho.
Como fazer biometria para o INSS?
O beneficiário deve verificar se já tem biometria cadastrada em documento aceito (CIN, CNH, título de eleitor ou passaporte) e, se não tiver, procurar o órgão de identificação do estado ou o cartório eleitoral, conforme o caso, para registrar digitais e foto e depois conferir no Meu INSS se os dados foram integrados.
Onde fazer a biometria para o INSS?
A coleta não é feita nas agências do INSS. Ela ocorre nos institutos de identificação dos estados, nos órgãos que emitem a CIN e a CNH e, no caso da biometria eleitoral, nos cartórios do Tribunal Regional Eleitoral; depois, essas bases são cruzadas pelo INSS.
Como cadastrar biometria e comprovar para o INSS?
O cadastro é realizado ao emitir ou renovar documentos como a Carteira de Identidade Nacional, a CNH ou o título de eleitor biométrico. Após a emissão, o segurado pode acessar o Meu INSS, conferir se a biometria aparece vinculada ao CPF e utilizar esse cadastro em procedimentos como prova de vida e requerimento de benefícios.
Meu INSS biometria: como consultar?
No aplicativo ou site Meu INSS, o segurado entra com CPF e senha, acessa seu perfil e verifica, nas opções de prova de vida ou dados cadastrais, se há registro de biometria associada ao seu CPF e quais documentos a originaram.
Como baixar o comprovante de biometria?
Não há um comprovante único nacional. Em geral, o cidadão usa o próprio documento com biometria, como a CIN ou a CNH digital, disponível nos aplicativos oficiais, e pode imprimir ou apresentar o QR Code para validação quando necessário.
TSE biometria consulta: isso vale para o INSS?
A biometria coletada pela Justiça Eleitoral pode ser aproveitada pelo INSS desde que esteja integrada às bases federais. O eleitor pode consultar no site do Tribunal Superior Eleitoral ou do Tribunal Regional Eleitoral se seu cadastro biométrico eleitoral está ativo e, em seguida, acompanhar pelo Meu INSS se essa informação aparece vinculada ao CPF.


