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Mendonça afasta chefe da PF e amplia crise com STF

Em decisão de 8 de setembro, André Mendonça afasta preventivamente o diretor-geral da PF e o chefe de inteligência, aciona corregedoria e acirra crise institucional em Brasília.

08/09/2026 23:00 8 min de leitura
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Crise Institucional

Decisão de Mendonça intensifica tensão entre os poderes ao afastar líderes da Polícia Federal em Brasília.

O ministro André Mendonça afasta, nesta terça-feira (8), o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada, em meio a suspeitas de monitoramento ilegal e uso de relatórios apócrifos contra integrantes do Supremo Tribunal Federal.

Ato inédito expõe rachadura entre STF e Polícia Federal

A decisão, tomada em Brasília e já em vigor, instala uma crise aberta entre a cúpula do Judiciário e a direção da PF. Mendonça afirma que o afastamento é necessário para que ministros do STF, a Advocacia-Geral da União e servidores da corporação exerçam suas funções “sem constrangimentos ilegais”.

No centro da turbulência estão relatórios de inteligência produzidos dentro da PF, sem assinatura ou timbre oficial, usados pelo ministro Alexandre de Moraes para acusar Mendonça de abuso de autoridade, crime de responsabilidade e improbidade na condução dos casos Banco Master e INSS, dois escândalos bilionários.

O episódio atinge a credibilidade da área de inteligência policial, levanta dúvidas sobre o uso interno de informações sensíveis e arrasta o STF para uma disputa que mistura investigação criminal, disputa de poder e proteção de garantias institucionais.

Relatórios sem autoria e suspeita de monitoramento por mais de 30 dias

Mendonça relata que é monitorado pela PF há mais de 30 dias. Segundo ele, relatórios internos recomendaram “monitoramento e coleta dirigida” sobre sua atuação e sua relação com o advogado-geral da União, Jorge Messias. O documento faz uma análise da “postura da Advocacia-Geral da União e o quadro de risco associado” e sugere que a proximidade entre os dois, ambos evangélicos, poderia representar ameaça à corporação.

Para o ministro, os papéis não atendem a requisitos mínimos de autenticidade. Ele descreve o texto como “apócrifo, sem timbre ou qualquer outro símbolo gráfico capaz de lhe empregar o mínimo grau de legitimidade e confiabilidade, inviabilizando qualquer conferência quanto à sua autoria e data de elaboração”.

Na decisão, Mendonça fala em “superlativa gravidade e ilicitude na produção dos ‘relatórios de inteligência’ publicizados pelo Ministro Alexandre de Moraes” e sustenta que isso impõe “a adoção de providências imediatas para evitar que as prerrogativas da magistratura, da advocacia pública e da própria atividade policial continuem sendo vilipendiadas”.

Entidades ligadas à inteligência e à PF reforçam as dúvidas. A União dos Profissionais de Inteligência de Estado da Abin (Intelis) contestou o uso dos papéis. O presidente da Associação de Delegados da Polícia Federal, Edvandir Felix de Paiva, foi além: “É a primeira vez que se tem notícia de uma situação como essa. É preciso se apurar inclusive porque um ministro do Supremo Tribunal Federal sabia da produção desses documentos”.

Decisão atinge cúpula da PF e coloca corregedoria em campo

A ordem de afastamento atinge diretamente o comando da PF. Além de retirar Andrei Rodrigues da direção-geral e do cargo de delegado, Mendonça determina a saída de Leandro Almada da Diretoria de Inteligência Policial e suspende “a produção, elaboração ou compartilhamento, ainda que interno, de todo e qualquer relatório de inteligência” voltado à análise de atos praticados por juízes, advogados públicos e policiais no exercício de suas funções.

O ministro aciona a corregedoria da PF para instaurar procedimentos administrativos-disciplinares contra os dois afastados. Cabe à área interna de controle levantar dados, ouvir envolvidos e, se for o caso, propor punições. Esses pedidos de medidas serão submetidos ao próprio Mendonça.

O delegado William Marcel Murad assume interinamente a direção-geral da PF, na tentativa de garantir continuidade operacional em meio à tormenta. A troca forçada, porém, expõe fragilidades na governança da corporação e acende o alerta sobre a politização do comando policial.

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, é intimado a cumprir a decisão, o que o coloca no centro de uma negociação delicada entre Executivo, Judiciário e PF. A medida também gera apreensão em setores que veem risco de interferência excessiva do STF sobre a autonomia da polícia.

Segunda Turma do STF trava resultado e amplia tensão

A decisão de Mendonça atende a um pedido do partido Novo, que havia solicitado inclusive a prisão de Andrei Rodrigues. O relator dos casos Master e INSS rejeita a medida mais extrema e opta pelo afastamento cautelar. “A suspensão cautelar de função pública é constitucionalmente admissível quando fundada em elementos concretos”, escreve, defendendo que a restrição temporária é menor do que o dano potencial ao processo investigativo.

O caso vai a referendo, ainda no dia 8, na Segunda Turma do STF, formada por cinco ministros: Mendonça, Luiz Fux, Gilmar Mendes, Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli, que tem se declarado impedido em temas ligados ao caso Master. A maioria se posiciona pela manutenção do afastamento, mas Gilmar pede vista, o que impede a proclamação do resultado final e prolonga a incerteza.

Nos bastidores do Supremo, o embate amplia uma divisão que já vinha se acentuando. A utilização dos relatórios por Moraes, as reações de Mendonça e a entrada de outros ministros no tabuleiro expõem uma disputa interna sobre limites da atuação judicial e o uso de estruturas de Estado em conflitos entre magistrados.

Os diálogos apreendidos no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, reforçam o clima de suspeita. Em mensagens encaminhadas à Procuradoria-Geral da República, Vorcaro menciona a necessidade de proteção de “Andrei e Paulo”, em referência ao diretor-geral da PF e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, o que alimenta questionamentos sobre eventuais alinhamentos de bastidor.

Instituições em xeque e futuro da PF sob escrutínio

O afastamento de Andrei Rodrigues, peça central no comando da PF, tem impacto imediato sobre a confiança na corporação. A suspeita de monitoramento clandestino de um ministro do STF e do advogado-geral da União atinge em cheio a imagem de neutralidade da polícia judiciária federal.

Para a advocacia pública, o episódio funciona como alerta. O monitoramento de Jorge Messias, responsável pela defesa jurídica da União, aciona um debate sobre proteção de autoridades e fronteiras entre investigação legítima e perseguição política. No Supremo, o caso reforça o sentimento de vulnerabilidade de ministros a estruturas que, em tese, deveriam servir de suporte técnico, não de instrumento de pressão.

Na prática, a PF entra em um ciclo de escrutínio intenso. A corregedoria precisará mostrar independência ao apurar a cadeia de comando que permitiu a produção e a circulação dos relatórios. O Ministério da Justiça será pressionado a apresentar propostas de reforma e maior controle sobre a inteligência policial, sem paralisar investigações em curso.

No médio prazo, o desfecho no STF — tanto na Segunda Turma quanto em eventuais julgamentos no plenário — vai definir o grau de intervenção do Judiciário sobre o comando da PF. A forma como o tribunal equilibrar a proteção de suas prerrogativas com o respeito à autonomia investigativa tende a influenciar futuras nomeações e a moldar o desenho institucional da segurança pública federal.

Enquanto o pedido de vista de Gilmar Mendes mantiver o resultado em suspenso, a crise segue aberta. A disputa entre Moraes e Mendonça, já alimentada por investigações sensíveis e processos de alto impacto político, ganha um novo capítulo, com a cúpula da PF transformada em campo de batalha. A principal questão, agora, é se o sistema conseguirá construir um mecanismo estável de controle da inteligência policial sem aprofundar ainda mais a desconfiança entre os poderes.

Quem é Andrei Rodrigues e qual seu papel na Polícia Federal?

Andrei Rodrigues é delegado de carreira da PF e ocupava o cargo de diretor-geral, posto máximo da corporação, responsável pela gestão administrativa e operacional em todo o país.

Por que André Mendonça afastou Andrei Rodrigues da chefia da PF?

Mendonça aponta “superlativa gravidade” na produção de relatórios apócrifos e suspeita de monitoramento ilegal de autoridades, e vê risco de uso do cargo para interferir nas apurações.

Qual foi a decisão da 2ª Turma do STF sobre o afastamento de Andrei Rodrigues?

A maioria da Segunda Turma vota por manter o afastamento, mas um pedido de vista de Gilmar Mendes suspende a proclamação do resultado e mantém o caso em aberto.

Qual a relação entre Andrei Rodrigues e a disputa entre Moraes e Mendonça?

Relatórios produzidos na PF sob sua gestão foram usados por Alexandre de Moraes para acusar Mendonça. O relator vê ilicitudes nesses documentos e responsabiliza a cúpula da corporação.

O que acontece agora com o comando da Polícia Federal após o afastamento de Andrei Rodrigues?

O delegado William Marcel Murad assume interinamente a direção-geral, enquanto a corregedoria investiga Rodrigues e Leandro Almada e o STF decide se tornará o afastamento definitivo.


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