PF afasta prefeito de Coari e mira deputado federal Adail Filho
Polícia Federal afasta o prefeito de Coari por 90 dias e cumpre 29 mandados no Amazonas em operação que investiga corrupção, fraudes em licitações e lavagem de dinheiro.
Polícia Federal
Operação no Amazonas investiga corrupção e afasta prefeito de Coari por 90 dias, com mandados cumpridos contra políticos locais.
A Polícia Federal deflagra a Operação Dinastia do Lago, que mira o deputado federal Adail Filho (MDB-AM) e leva ao afastamento do prefeito de Coari, Adail Pinheiro (Republicanos), por 90 dias. Agentes cumprem 29 mandados de busca e apreensão em Manaus e Coari, em investigação sobre corrupção, fraudes em licitações, desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro.
Esquema nasce de flagrante com R$ 1,25 milhão em espécie
A investigação tem origem na prisão em flagrante de três empresários no Aeroporto Internacional de Brasília, em maio do ano passado. Eles transportavam R$ 1,25 milhão em dinheiro vivo, em voo vindo de Manaus, sem comprovar a origem dos recursos.
A partir dessa apreensão, a PF recolhe documentos e dispositivos eletrônicos, analisados com autorização judicial. O material revela movimentações financeiras consideradas suspeitas e possíveis vínculos com contratos da Prefeitura de Coari, cidade estratégica no interior do Amazonas e reduto político da família de Adail Pinheiro.
Em decisão que autoriza a operação, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, afirma que o cruzamento de dados indica repasses em benefício direto do deputado e do prefeito. “Na mesma ocasião, foram apreendidos documentos e dispositivos eletrônicos que, após análise autorizada judicialmente, revelaram a realização de repasses financeiros por pessoas jurídicas vinculadas aos investigados em benefício do Deputado Federal Adail Filho e de seu pai, Manoel Adail, prefeito do Município de Coari/AM”, escreve Moraes.
O inquérito, aberto no Supremo a pedido da Procuradoria-Geral da República, é prorrogado por mais 60 dias em junho, após a PF apontar a complexidade do caso, o número de pessoas físicas e jurídicas envolvidas e diligências ainda pendentes.
Mandados, afastamentos e dinheiro em espécie
Com a Operação Dinastia do Lago, a PF cumpre 29 mandados de busca e apreensão em endereços ligados a políticos e empresários em Manaus e Coari. Também são executados 12 mandados de medidas cautelares diversas da prisão e 28 mandados de busca dentro do pacote de decisões.
O prefeito de Coari e secretários municipais são afastados dos cargos por 90 dias, medida que busca evitar interferência na coleta de provas e no andamento do inquérito. Entre os alvos está o secretário municipal da Fazenda, Eduardo Jorge de Oliveira Alves, em cuja residência a PF encontra cerca de R$ 400 mil em espécie, além de veículos de luxo, coleções de relógios e joias.
Os empresários Cesar de Jesus Gloria Albuquerque, Erick Pinto Saraiva e Wagner Santos Moutinho, presos no flagrante com R$ 1,25 milhão em Brasília, integram o núcleo privado do suposto esquema. Relatórios de inteligência da PF apontam atuação coordenada entre eles, agentes públicos e pessoas interpostas, com uso de empresas diferentes para simular concorrência em licitações e direcionar contratos.
Os investigadores descrevem um modelo recorrente: empresas formalmente distintas participam do mesmo certame, combinam resultados, vencem disputas com propostas artificiais e, em seguida, passam a movimentar recursos entre si e para pessoas ligadas ao grupo político. Pagamentos sem causa econômica aparente e repasses de emendas parlamentares destinadas a Coari completam o mapa do dinheiro.
Crimes sob apuração e impacto em Coari
A PF apura possíveis crimes de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, fraude em licitação e contratos administrativos, além de lavagem de dinheiro. A suspeita central é que contratos públicos da Prefeitura de Coari tenham sido usados para desviar recursos, ocultar sua origem e financiar interesses políticos locais e federais.
Na prática, a operação atinge o coração da administração municipal. O afastamento de prefeito e secretários interrompe a rotina de decisões em áreas como finanças, obras e serviços básicos. Projetos que dependem de licitações e pagamentos a fornecedores tendem a sofrer atrasos, enquanto contratos em vigor entram em zona de incerteza jurídica.
Empresas que atuam em Coari, especialmente as que mantêm contratos com a prefeitura, passam a ser escrutinadas. Aquelas ligadas aos investigados enfrentam risco de bloqueio de pagamentos, rescisões unilaterais e ações de improbidade. A população, por sua vez, sente o efeito indireto na prestação de serviços públicos já pressionados por problemas estruturais na região amazônica.
No plano político, o caso pressiona a base aliada de Adail Filho em Brasília e redesenha alianças no Amazonas. Lideranças locais observam o impacto eleitoral de uma operação que combina dinheiro vivo apreendido, luxo ostensivo e suspeitas de desvio de recursos públicos, cenário que alimenta discursos de oposição e cobranças por transparência.
Defesa nega crimes e aposta em STF e PF
A defesa de Adail Filho e de Adail Pinheiro reage com nota em que tenta conter o desgaste político. “O cumprimento dos mandados de busca e apreensão não representa formação de culpa ou reconhecimento da prática de crimes. Os investigados não têm relação com os fatos que deram origem ao inquérito instaurado pelo STF e já adotam medidas para esclarecer o caso. Reafirmam a confiança nas instituições e esperam que os fatos sejam esclarecidos e a normalidade restabelecida o quanto antes”, afirma o comunicado.
Advogados dos empresários flagrados com os R$ 1,25 milhão ainda não se manifestam publicamente. A Prefeitura de Coari não apresenta versão detalhada sobre o impacto administrativo imediato do afastamento do prefeito e dos secretários, nem sobre a situação dos contratos sob investigação.
Enquanto a operação avança, a PF concentra esforços na análise de dados bancários, fiscais e de comunicação extraídos de computadores e celulares apreendidos. A expectativa entre investigadores é identificar a rota completa do dinheiro, mapear o papel de cada integrante do grupo e separar, na rede de contratos, o que é serviço efetivamente prestado do que seria apenas fachada.
O STF mantém o acompanhamento direto do caso, por envolver parlamentar federal com foro privilegiado. A depender das provas reunidas, o inquérito pode resultar em denúncia da Procuradoria-Geral da República contra Adail Filho e outros investigados, com ações penais e de improbidade correndo em paralelo em diferentes instâncias.
Nos próximos meses, a principal incógnita recai sobre a capacidade da administração de Coari de preservar serviços essenciais em meio à intervenção judicial e à desorganização política. A Operação Dinastia do Lago tende a seguir como referência para novas investigações sobre fraudes em licitações e uso de emendas parlamentares no Amazonas, num movimento que pode inspirar operações semelhantes em outros municípios da região.
O que é a Operação Dinastia do Lago e quem é alvo?
A Operação Dinastia do Lago é uma ação da Polícia Federal, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, que investiga corrupção, fraudes em licitações, desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro ligados à Prefeitura de Coari. O deputado federal Adail Filho, seu pai, o prefeito afastado Adail Pinheiro, secretários municipais e empresários do Amazonas estão entre os principais alvos.
Quais medidas foram tomadas contra o prefeito de Coari e o deputado?
O prefeito de Coari, Adail Pinheiro, é afastado do cargo por 90 dias, assim como secretários municipais, para evitar interferência na investigação. O deputado federal Adail Filho é alvo de mandados de busca e apreensão em endereços no Amazonas e responde a inquérito no Supremo Tribunal Federal, que apura sua participação em suposto esquema de corrupção e lavagem de dinheiro.
De onde veio o dinheiro que deu origem à investigação?
A investigação nasce da apreensão de R$ 1,25 milhão em espécie no Aeroporto Internacional de Brasília, transportados por três empresários do Amazonas em voo vindo de Manaus. A origem não foi comprovada no momento do flagrante, e a análise de documentos e aparelhos eletrônicos apreendidos passou a indicar ligações do dinheiro com contratos e licitações da Prefeitura de Coari.
O que foi apreendido pela PF durante a operação no Amazonas?
Durante a operação no Amazonas, a Polícia Federal cumpre 29 mandados de busca e apreensão em Manaus e Coari e encontra cerca de R$ 400 mil em espécie na casa do secretário municipal da Fazenda, além de veículos de luxo, coleções de relógios e joias. Documentos físicos, contratos, computadores e celulares também são recolhidos para perícia.


