PF investiga desvios de R$ milhões em Dark Horse Bolsonaro hoje
Operação da PF investiga suspeita de desvio de emendas e repasses milionários para o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, com alvos no mundo político e cultural.
Política
PF apura irregularidades financeiras ligadas à produção do filme sobre Jair Bolsonaro, envolvendo políticos e agentes culturais.
A Polícia Federal mira o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, em uma operação que atinge o deputado Mario Frias (PL-SP), a produtora Karina Gama e aliados políticos do ex-presidente.
Agentes cumprem 49 mandados de busca e apreensão em quatro estados para apurar suspeitas de desvio de emendas parlamentares, lavagem de dinheiro e uso de offshores no projeto.
Operação avança sobre emendas e produtoras ligadas a Frias e Karina
Os mandados são cumpridos em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. A ofensiva, batizada de “Make Up”, atinge pessoas físicas e jurídicas ligadas ao longa, incluindo entidades controladas por Karina Gama, como o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC).
O inquérito que apura o uso de dinheiro público está sob relatoria do ministro Flávio Dino no Supremo Tribunal Federal. A investigação nasce em São Paulo, mas sobe para o STF após a inclusão de parlamentares com foro privilegiado. A operação não prevê prisões, apenas apreensão de celulares, computadores e documentos.
Mario Frias, ex-secretário de Cultura e hoje deputado, atua como roteirista e produtor-executivo de “Dark Horse”. Em vídeo publicado nas redes, ele reage à presença dos agentes e diz que não há ilegalidade em suas emendas. “Levaram celular, documentos, computador. Ninguém foi preso. É claro, porque não existe mandado de prisão contra mim nem contra ninguém”, afirma.
A auditoria da Controladoria-Geral da União aponta suspeita de desvio em uma emenda de R$ 2 milhões indicada pelo deputado e destinada a entidades ligadas a Karina. Os técnicos veem gastos não comprovados e indícios de que recursos públicos possam ter irrigado estruturas ligadas à produção do filme.
Rota do dinheiro inclui fundo nos EUA e repasses de US$ 12,3 milhões
Enquanto Dino supervisiona a frente das emendas, um segundo inquérito no STF, relatado pelo ministro André Mendonça, acompanha o fluxo de dinheiro privado. O alvo central é o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que teria repassado US$ 12,3 milhões para financiar “Dark Horse”, a pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL), hoje pré-candidato à Presidência.
Delação premiada do empresário Antonio Carlos Freixo Junior, já homologada no Supremo, descreve como o dinheiro atravessa fronteiras. Ele relata sete transferências, apresentadas como “subscrições de cotas”, para um fundo nos Estados Unidos administrado pelo advogado Paulo Calixto, ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro. O valor, convertido, passa de R$ 60 milhões.
Mensagens atribuídas a Flávio Bolsonaro reforçam a pressão sobre Vorcaro. Em uma delas, o senador escreve: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”. A PF investiga se a totalidade dos recursos entra no orçamento do filme ou se parte financia outras despesas políticas ou pessoais no exterior.
Os investigadores já rastreiam movimentações de “centenas de milhões de reais” entre empresas associadas ao grupo, com operações de ocultação de origem e destino do dinheiro mapeadas até julho deste ano. A suspeita é de um esquema estável, que mistura contratos públicos, aportes privados e estruturas internacionais.
Produtora diz estar “apavorada” e nega captar dinheiro para o filme
No centro das suspeitas, Karina Gama tenta se descolar da engrenagem financeira. Dona da produtora Go Up e responsável pela condução prática de “Dark Horse”, ela afirma que não tem relação com arrecadação de recursos. “Eu nunca captei dinheiro para o filme, eu nunca lidei com financiadores. Eu não sei nada sobre isso. Eu prestei um serviço, de produzir o ‘Dark Horse’, e fui remunerada”, diz.
Karina relata pressões e intimidações desde que o caso ganha corpo. Conta que se sente alvo de abordagens suspeitas na porta de casa e dentro de seu círculo profissional. “Estou apavorada”, afirma. Segundo ela, pessoas se apresentando como oficiais de Justiça, mas sem documentos, batem à sua porta à noite, fazem perguntas insistentes e tentam forçar uma delação premiada.
Ela diz colaborar formalmente com a PF, entregando documentos e contratos sempre que solicitada, e nega qualquer participação em desvio de verbas públicas. A Go Up, produtora responsável pela cinebiografia, não está listada entre os alvos diretos dos mandados de hoje, embora seu entorno empresarial seja vasculhado.
No campo político, Mario Frias sustenta a narrativa de perseguição. O deputado afirma que sua emenda de R$ 2 milhões não tem vínculo com o longa-metragem e que o dinheiro financia um projeto esportivo e de letramento digital para crianças. Diz possuir documentação para provar a regularidade dos gastos e classifica a operação como uma “cortina de fumaça” em plena pré-campanha.
Impacto político, setor audiovisual sob pressão e contratos milionários
O avanço simultâneo de duas frentes no STF transforma o caso Dark Horse em um teste para o financiamento de obras ligadas a figuras políticas. A suspeita de que emendas parlamentares e repasses privados milionários bancam um filme de forte conteúdo eleitoral alimenta críticas de adversários e desconforto entre aliados de Jair Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro tenta se firmar como nome competitivo na corrida presidencial, enquanto vê seu nome associado a mensagens de cobrança de recursos e a uma estrutura financeira no exterior. O risco imediato é de desgaste político e jurídico, com possível inclusão formal do senador na condição de investigado, caso o Supremo entenda que há elementos suficientes.
O setor audiovisual acompanha o desenrolar do caso com apreensão. A possibilidade de que recursos públicos tenham sido usados de forma irregular em um projeto de alta visibilidade pode endurecer regras de fomento, atrasar liberações de verbas e reforçar a desconfiança sobre produções com forte recorte ideológico.
O Instituto Conhecer Brasil, de Karina, já enfrenta outra frente de apuração em São Paulo. A entidade mantém contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura paulistana para instalar pontos de wi-fi gratuito na periferia. A Promotoria e a Polícia Civil investigam se houve falta de concorrência e descumprimento de metas nesse acordo.
Enquanto isso, “Dark Horse” segue inédito. O longa, estrelado pelo ator norte-americano Jim Caviezel no papel de Bolsonaro, ainda não tem data oficial de lançamento. A incerteza judicial pressiona cronogramas de filmagem, pós-produção e distribuição, e levanta dúvidas sobre onde e quando o público poderá ver a obra.
Próximos passos e cenário aberto para novas fases da operação
As buscas de hoje inauguram uma fase mais ostensiva da investigação, depois de meses de quebras de sigilo, cooperação internacional e coleta de depoimentos em sigilo. A PF agora cruza o material apreendido com relatórios da CGU, dados bancários e detalhes das delações premiadas homologadas pelo STF.
O próximo movimento deve incluir pedidos de bloqueio de bens, novas oitiva de investigados e eventual solicitação de medidas mais duras, como prisões temporárias, se aparecerem provas de destruição de evidências ou continuidade dos crimes. O Supremo terá papel central ao arbitrar o alcance dessas ações em meio a um calendário eleitoral já tensionado.
Caso os investigadores comprovem que parte dos US$ 12,3 milhões de Vorcaro ou da emenda de R$ 2 milhões foi desviada para fins eleitorais, o caso tende a respingar em campanhas e partidos, reabrindo o debate sobre caixa dois, abuso de poder econômico e uso de estruturas culturais para propaganda política velada.
A operação “Make Up” se desenha, assim, como um processo de longo curso. O desfecho ainda é aberto, mas os primeiros passos já produzem efeito imediato: colocam sob holofotes a fronteira difusa entre arte, poder e dinheiro público no Brasil contemporâneo.
O que é o caso Dark Horse investigado pela PF?
O caso Dark Horse é a investigação da Polícia Federal e do Supremo sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, envolvendo suspeitas de desvio de emendas parlamentares, lavagem de dinheiro, contratos públicos e repasses privados milionários em reais e dólares ligados a políticos e empresários próximos ao ex-presidente.
Quais são as suspeitas de desvio de emendas no filme Dark Horse?
As suspeitas de desvio envolvem uma emenda parlamentar de R$ 2 milhões indicada pelo deputado Mario Frias para entidades ligadas à produtora Karina Gama, com gastos considerados não comprovados pela Controladoria-Geral da União, levantando a hipótese de que parte do dinheiro público possa ter irrigado estruturas relacionadas à produção ou ao entorno do filme.
Quem são os envolvidos na investigação sobre o financiamento do filme Dark Horse?
Os principais envolvidos são o deputado Mario Frias, a produtora Karina Gama, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o senador Flávio Bolsonaro, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, o advogado Paulo Calixto e o empresário delator Antonio Carlos Freixo Junior, todos citados em apurações que miram emendas, contratos públicos, repasses em dólares e fundos no exterior.
Qual a relação do filme Dark Horse com Jair Bolsonaro?
O filme “Dark Horse” é uma cinebiografia de Jair Bolsonaro, estrelada pelo ator norte-americano Jim Caviezel, que reconstitui a trajetória política do ex-presidente e o apresenta como protagonista; o projeto se torna peça simbólica para seu grupo político e, por isso, qualquer irregularidade no financiamento tem impacto direto na imagem do bolsonarismo.
O que a produtora do filme Dark Horse declarou sobre as ameaças recebidas?
A produtora Karina Gama declarou que está “apavorada”, afirma sentir-se ameaçada e chantageada, relata abordagens noturnas de pessoas que se dizem oficiais de Justiça sem identificação, diz ser pressionada a delatar, mas sustenta que apenas prestou serviços de produção ao filme, sem captar recursos, e que coopera formalmente com a Polícia Federal.
Quais são os desdobramentos recentes da operação da PF sobre o Dark Horse?
Os desdobramentos recentes incluem 49 mandados de busca e apreensão em quatro estados, apreensão de celulares e documentos de Mario Frias e Karina Gama, análise de uma emenda de R$ 2 milhões, rastreamento de US$ 12,3 milhões enviados ao exterior, homologação de delação premiada e a possibilidade de bloqueio de bens e novas medidas judiciais nas próximas semanas.


