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Economia

Tentativa bilionária de Joesley com mina da Vale expõe racha

Tentativa de Joesley Batista de vender fatia da mina de Corumbá à Vale por até R$ 4 bilhões fracassa e desencadeia crise de governança às vésperas de assembleia.

18/07/2026 06:33 7 min de leitura

Economia

Fracasso na venda bilionária de participação em mina gera crise de governança antes da assembleia da Vale.

Joesley Batista tenta vender uma fatia bilionária da mina de Corumbá (MS) para a Vale em 2026. A diretoria da mineradora barra o negócio e detona uma crise de governança às vésperas da assembleia de acionistas marcada para 22 de julho.

A operação, avaliada entre R$ 2 bilhões e R$ 4 bilhões, prometia rearrumar o tabuleiro da mineração no Centro-Oeste e reforçar o caixa do grupo J&F. Em vez disso, expõe divergências na cúpula da Vale, envolve fundos de pensão como a Previ e reacende o debate sobre a estratégia da companhia.

Negócio bilionário que morre na praia

No centro da disputa está a mina de minério de ferro de Corumbá, integrada ao chamado Sistema Centro-Oeste. O ativo é comprado pela J&F em 2022 por US$ 1,2 bilhão e se torna peça-chave do plano de Joesley para reduzir risco mineral e levantar recursos para novos investimentos.

Em 2026, o empresário decide monetizar parte desse patrimônio. Contrata o banco Citi para sondar interessados e testa um desenho em que venderia 45% da mina por R$ 4 bilhões, mantendo o controle da operação. Também avalia uma alternativa de cerca de 30% por R$ 2 bilhões. “O desenho agradaria à J&F, que levantaria caixa bilionário e manteria o comando da operação”, relatam fontes da Vale.

Executivos da mineradora confirmam nos bastidores a ofensiva de Joesley. “De acordo com essas informações, Joesley queria repassar à Vale 45% da mina que custou US$ 1,2 bilhão em 2022 por R$ 4 bilhões”, diz uma fonte à colunista Malu Gaspar. Oficialmente, tanto a Vale quanto a J&F negam que haja negociação de recompra, embora admitam a visita técnica e o mandato do Citi para buscar sócios minoritários.

Visita, e-mail vazado e constrangimento público

O plano começa a ganhar corpo no início de maio. O então chairman da Vale, Daniel Stieler, articula um jantar no restaurante Nido, na Zona Sul do Rio, com Joesley e seu irmão. À mesa, além dos Batista, sentam os conselheiros Manoel Lino Oliveira, conhecido como Ollie, Wilfred Theodoor Bruijn, Reinaldo Castanheira e Heloisa Bedicks, além do CEO Gustavo Pimenta e do diretor Fabio Ferraz.

No dia seguinte, parte do grupo embarca em um jato particular rumo a Corumbá, em viagem organizada por Stieler. A comitiva visita as instalações do Sistema Centro-Oeste e conhece de perto os planos da J&F para a região. Ollie chega cético, mas sai impressionado. Em e-mail enviado a Stieler e Pimenta, ele descreve o “empreendedorismo fora do normal” dos irmãos e o “apetite para riscos muito além de nós”. Destaca ainda licenças para produção de até 26 milhões de toneladas de minério de ferro e investimentos pesados em transporte fluvial.

O relato, confidencial, acaba vazando. “Depois que a visita foi revelada aos outros conselheiros num e-mail confidencial cujo teor foi publicado pelo colunista Lauro Jardim”, a operação deixa o bastidor e ganha as páginas de política e economia. A exposição pública causa constrangimento dentro da Vale, inflama minoritários e acende alertas em fundos de pensão, entre eles a Previ, um dos principais acionistas.

Cálculo frio barra a operação

O vazamento acelera a análise interna. O comitê executivo da Vale, liderado por Gustavo Pimenta, examina o potencial de Corumbá. A mina oferece escala relevante e sinergias logísticas na fronteira Oeste, mas o preço pedido e as condições propostas pesam contra.

“O negócio acabou não indo adiante porque foi considerado ruim pela diretoria da mineradora”, relatam fontes internas. A conta principal recai sobre a rentabilidade. “A avaliação interna é que a taxa de retorno da mina, mesmo com potencial de expansão, não compensa o desembolso nas condições atuais”, afirma outra fonte. O fato de Pimenta ter sido o executivo que vendeu o ativo em 2022, quando era diretor financeiro, adiciona uma camada política ao cálculo: recomprar agora, e mais caro, poderia ser lido como correção de rota da gestão.

Para Joesley, a frustração vem no momento em que ele reorganiza o grupo J&F. Em maio, o empresário injeta R$ 300 milhões na Avibras Aeroco, nova companhia criada a partir da reestruturação da Avibras Indústria Aeroespacial, que concentra as dívidas em recuperação judicial. A venda parcial de Corumbá ajudaria a reduzir exposição ao risco mineral e abrir espaço para novas apostas industriais.

Racha no conselho e pressão de fundos

A recusa da Vale não encerra a crise. A forma como a negociação é conduzida, entre jantares discretos, visitas em jato privado e comunicação desigual entre conselheiros, alimenta queixas sobre transparência. A reação da Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, torna visível a insatisfação.

“A crise interna se agrava após a Previ decidir destituir Daniel Stieler da presidência do conselho e indicar Ollie para o posto”, relatam fontes próximas ao colegiado. O movimento é interpretado como um recado direto à condução das negociações e ao alinhamento da estratégia da Vale com os interesses de acionistas institucionais.

Investidores minoritários também elevam o tom. Questionam o acesso desigual a informações relevantes, o risco de operações bilionárias com grupos com forte peso político, como a J&F, e o critério usado para aprovar ou vetar grandes transações. A assembleia de 22 de julho ganha contornos de plebiscito sobre a atual gestão e seus vínculos com Joesley.

O que está em jogo na assembleia de julho

O caso Corumbá se torna símbolo de uma disputa mais ampla sobre a Vale. De um lado, a pressão por expansão e diversificação geográfica, num momento em que o minério de ferro segue central para o balanço. De outro, a cobrança por disciplina de capital, governança mais rígida e proteção contra riscos reputacionais.

Na prática, a recusa da proposta de Joesley preserva o caixa da mineradora, mas adia uma decisão sobre presença mais agressiva no Centro-Oeste. Deixa também o grupo J&F com um ativo relevante para o qual ainda busca sócios ou alternativas de financiamento, num ambiente político e econômico volátil.

A assembleia do dia 22 deve cristalizar os efeitos desse episódio. Acionistas prometem cobrar explicações detalhadas sobre o roteiro das negociações, o papel da Previ na troca de comando do conselho e os critérios que levaram a diretoria a rejeitar o investimento. A resposta da Vale indicará se o caso Corumbá será um ponto fora da curva ou o novo padrão de escrutínio sobre negócios bilionários da companhia.

O que aconteceu com Joesley Batista na tentativa de vender mina à Vale?

Ele tentou vender uma fatia da mina de Corumbá para a Vale por até R$ 4 bilhões, mas a diretoria considerou o negócio pouco atrativo e rejeitou a operação.

Qual o valor que Joesley Batista quer para vender a mina à Vale?

Fontes da Vale afirmam que Joesley pediu R$ 4 bilhões por 45% da mina e avaliou também vender cerca de 30% por R$ 2 bilhões, mantendo o controle.

Por que a Vale descartou investir nas minas dos irmãos Batista?

A avaliação interna é que a taxa de retorno não compensa o investimento nas condições propostas e que o preço pedido pela J&F é considerado elevado pela diretoria.

Quem são os irmãos Batista envolvidos na venda da mina à Vale?

Os irmãos são Joesley Batista e seus sócios na J&F, grupo que controla empresas como a JBS. Eles comandam o ativo de mineração comprado em 2022.

Quais são as empresas controladas por Joesley Batista relacionadas à mina?

A mina de Corumbá integra o Sistema Centro-Oeste, controlado pela LHG Mining, ligada ao grupo J&F, conglomerado que também é dono da JBS e outros negócios.

Como a polêmica no conselho da Vale afetou o negócio com Joesley Batista?

O vazamento do e-mail de um conselheiro, a exposição pública da visita e a reação da Previ, que derrubou o chairman, aumentaram a pressão e reforçaram a decisão de barrar o acordo.


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