TSE define até 24/8 se Pablo Marçal será candidato à Presidência
Influenciador registra candidatura à Presidência pelo PRTB graças a liminar, desafia Lula em tom bíblico, promete não atrapalhar Flávio Bolsonaro e depende agora do crivo do TSE.
Eleições 2024
TSE analisará até 24 de agosto a candidatura de Pablo Marçal ao Planalto pelo PRTB, após liminar que autoriza registro.
Pablo Marçal, influenciador e empresário, entra oficialmente na disputa pela Presidência da República pelo PRTB após uma liminar permitir sua filiação retroativa ao partido. A candidatura, porém, nasce sob a sombra de condenações que o tornam, em tese, inelegível até 2032 e dependerá da palavra final do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Liminar no limite e candidatura sob risco
A engrenagem política que leva Marçal ao centro da disputa presidencial começa em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo. Uma decisão provisória do juiz eleitoral Gustavo Nardi autoriza que sua filiação ao PRTB seja reconhecida como se tivesse ocorrido dentro do prazo legal, que se encerrava em abril. Com esse atalho jurídico, o influenciador corre ao cartório eleitoral e registra a candidatura na noite de 15 de agosto, na beira do prazo final.
A liminar não resolve, porém, o maior obstáculo da empreitada. Marçal acumula condenações na Justiça Eleitoral por práticas consideradas ilegais, como concursos que premiavam apoiadores que propagassem seus conteúdos, o que, segundo decisões anteriores, configura vantagem indevida em período eleitoral. As sentenças o declaram inelegível até 2032. Ele minimiza o problema e afirma confiar em uma revisão: “Em matéria de direito, não tem como manter a minha inelegibilidade”, diz, apostando em uma reviravolta no TSE.
O tribunal ainda vai analisar o pedido de registro. Sem o aval da corte, a candidatura desidrata antes de chegar às urnas. A própria liminar de filiação é frágil: o juiz deixa registrado que a solução definitiva exige “completa elucidação dos fatos” e pode ser revista por instâncias superiores. Até lá, Marçal atua como candidato de fato, mas não de direito consolidado.
Debates, Band e o jogo de cena com Flávio Bolsonaro
Em sabatina no canal Brasil Paralelo nesta segunda-feira, Marçal tenta ocupar o vácuo deixado pelos grandes nomes que ensaiam ausência do primeiro grande confronto televisivo da campanha. “Eu vou participar dos debates, a próxima pesquisa vai mudar o rumo das coisas”, promete, em referência ao encontro organizado pela TV Bandeirantes, previsto para domingo, dia 23.
A emissora, porém, é mais cautelosa. A Band informa que, por ora, confirma apenas a presença de candidatos com situação já consolidada, o que não é o caso de Marçal, pendurado em uma liminar e à espera do TSE. Para complicar o cenário, a campanha do presidente Lula decide não participar do encontro. Sem o petista, principal alvo da oposição, aliados avaliam que Flávio Bolsonaro, candidato do PL, também tende a ficar fora do estúdio. O risco é que o primeiro embate televisivo termine esvaziado justamente quando o influenciador tenta uma vitrine nacional.
Enquanto busca um púlpito, Marçal costura uma relação de não agressão com o senador. Conta que ligou para Flávio assim que o registro foi feito. “Segue seu caminho em paz, que você não vai ter problema comigo”, relata ter dito. A frase explicita a estratégia: disputar espaço no campo da direita sem se apresentar como ameaça frontal ao herdeiro político do bolsonarismo. “A maior preocupação dele e de todo mundo é achar que o ‘Marçal vai vir e pôr pra derreter’, mas eu quero é quebrar o ciclo do PT”, afirma.
Antissistema, Bíblia e o alvo no PT
Marçal se apresenta como um outsider em miniatura, repetindo a fórmula que atribui à ascensão de Jair Bolsonaro. Lembra que o ex-presidente chegou ao Planalto por um partido pequeno e tenta emular o roteiro. Diz que um “partido anão” pode, de novo, abrigar uma candidatura “antissistema” capaz de surpreender as pesquisas. Reforça que entrou na corrida “para responder um chamado do coração” e afirma: “Vocês não precisam ficar preocupados comigo. Quem decidiu seu voto, siga seu voto. Eu entrei nesse negócio para responder um chamado do meu coração. Que eu serei o presidente do país, é uma absoluta certeza da minha alma”.
O discurso mira o PT, mas poupa adjetivos ao próprio presidente. Marçal chama Lula de “o maior político da história do Brasil”, para em seguida prometer aposentá-lo nas urnas. O vocabulário é quase sempre religioso. “Sou Davi e vou derrubar o Golias”, proclama, num paralelismo em que o petista assume o papel do gigante bíblico. “Nós vamos ser a geração que derrubou o Golias, deixa comigo, eu levo a pedra”, insiste, ao dizer que pretende encerrar a sequência de vitórias eleitorais do petista.
O influenciador fala em “quebrar o ciclo do PT” e diz querer transformar o partido em um novo PSDB “por ostracismo”. A imagem aponta para um projeto de longo prazo: empurrar os petistas para uma posição secundária do sistema político, esvaziando o antagonismo clássico com a direita bolsonarista.
Alegações de perseguição e crítica de adversários
Cercado por processos, Marçal diz temer represálias judiciais caso fale abertamente sobre suas ações na Justiça. Afirma esperar por “homens e mulheres justos com canetas judiciais”, mas evita citar nomes ou apresentar provas de perseguição. “No dia que eu aposentar, vou contar tudo que está acontecendo. Mas eu não posso falar agora, senão não consigo ajudar vocês”, afirma, cultivando uma narrativa de bastidor obscuro que só viria à tona no futuro.
O estilo provoca desconfiança entre rivais. Renan Santos, também candidato à Presidência, classifica Marçal como “personagem folclórico” da política. “Era até esperado que ele fosse aparecer agora e fazer algum tipo de bagunça e eu acho que esse tipo de coisa é para beneficiar o Flávio Bolsonaro”, acusa. A crítica se apoia em um passado de proximidade: Marçal já atuou como consultor de marketing para o hoje candidato do PL, o que alimenta a suspeita de que sua presença na urna sirva mais para recompor o tabuleiro da direita do que para brigar pelo primeiro lugar.
Na sabatina, Marçal tenta afastar a imagem de linha auxiliar, mas faz questão de elogiar Flávio e exaltar o apoio internacional ao senador. Cita o premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, e o ex-presidente americano Donald Trump como aliados do projeto bolsonarista, e afirma que Bolsonaro deverá ser solto “muito em breve”. A leitura reforça o eixo ideológico em que pretende se movimentar.
Impacto no tabuleiro eleitoral e o que vem pela frente
A entrada de Marçal embaralha o campo da direita em um momento em que as campanhas ainda medem forças. O PRTB não dispõe de estrutura comparável à do PL ou do PT, mas a presença de um influenciador com milhões de seguidores nas redes altera a dinâmica do debate público, especialmente entre eleitores descontentes com a polarização tradicional.
Em cenário de pesquisas ainda iniciais, a candidatura pode fragmentar o voto antipetista ou, como apontam críticos, funcionar como anteparo para Flávio Bolsonaro, absorvendo desgastes e ruídos. O próprio Marçal sugere que sua trajetória não se esgota nesta eleição, ao admitir que a “certeza” de ser presidente pode se concretizar em outro pleito. O cálculo é de longo prazo, mas o calendário jurídico é imediato.
O TSE terá de decidir se a liminar que viabilizou a filiação retroativa se sustenta e, principalmente, se as condenações que o empurram para a inelegibilidade até 2032 podem ser revertidas ou suspensas. Sem isso, a candidatura morre no berço, e todo o movimento se resumirá a um ensaio de protagonismo digital sem tradução nas urnas. Com o registro validado, o jogo muda: Marçal ganha direito de aparecer nos programas de TV, pode reivindicar lugar nos debates e testa, na prática, o apelo do discurso antissistema em mais uma eleição polarizada.
Nas próximas semanas, a atenção se concentra no tribunal. O desfecho dirá se o influenciador se torna de fato candidato competitivo ou apenas mais um personagem de passagem em uma campanha já marcada por incertezas jurídicas e rearranjos no campo da direita.
Marçal pode ser candidato mesmo estando inelegível até 2032?
Marçal só consegue disputar a Presidência se o TSE aceitar o registro de candidatura e suspender, reverter ou afastar os efeitos das condenações que hoje o deixam inelegível até 2032; enquanto isso não acontece, ele atua como candidato em campanha, mas sua situação jurídica permanece provisória e arriscada.
O que acontece se o TSE rejeitar o registro de Pablo Marçal?
Se o TSE rejeitar o registro, Pablo Marçal fica impedido de concorrer, seu nome não aparece na urna eletrônica e os votos eventualmente recebidos são anulados; nesse cenário, o PRTB pode ficar sem candidato próprio à Presidência e o impacto eleitoral se concentra em como esse eleitorado órfão se redistribuirá entre Lula, Flávio Bolsonaro e outras candidaturas.


