Augusto Cury tenta ocupar vazio entre direita e esquerda em 2026
Ex-candidato do Avante à Presidência, Augusto Cury sai do primeiro turno com 2,9% dos votos e tenta transformar discurso antipolarização em capital político duradouro.
Política
Augusto Cury busca consolidar espaço político ao romper com a polarização tradicional nas eleições de 2026.
O escritor e psiquiatra Augusto Cury encerra a disputa presidencial de 2026 com 3.437.401 votos, o equivalente a 2,9% do total, e um recado em 4 de outubro: não apoia nenhum dos candidatos no segundo turno e segue apostando na bandeira da despolarização.
Um voto de protesto contra a polarização
A performance eleitoral é modesta em números, mas simbólica no contexto de um país dividido entre projetos rivais de poder. Cury tenta ocupar justamente esse espaço vazio, ao se apresentar como alternativa ao confronto entre direita e esquerda que domina a política brasileira na última década.
Ao longo da campanha, repete a imagem de um Brasil fraturado. “O Brasil está dramaticamente doente, polarizado, radicalizado. Venderam uma ideia mentirosa que estamos em dois barcos. Estamos em um barco só, nem de direita, nem de esquerda. O barco se chama família brasileira, mais de 200 milhões de brasileiros. E 90% das dores não têm cor partidária”, afirma em uma de suas falas mais citadas.
Nessa moldura, seus 2,9% funcionam como medidor de cansaço com o embate permanente. O eleitorado que o leva ao quarto lugar nacional envia também um recado aos dois campos que seguem na disputa: há espaço, ainda que minoritário, para quem rejeita a lógica do inimigo.
Campanha pautada por sabatinas e críticas ao clima hostil
A trajetória de Cury na eleição ganha forma nas sabatinas de setembro. Em 17, 28 e 29 daquele mês, diante de diferentes bancadas de jornalistas, ele se esforça para consolidar uma identidade política que não se encaixa nos rótulos tradicionais.
Na entrevista conduzida por Cesar Tralli e Renata Vasconcellos, em 29 de setembro, ele critica a ausência de nomes centrais da disputa em debates televisivos, entre eles o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Alega que o debate público perde quando líderes se recusam a confrontar ideias em ambientes abertos.
Também diante de O GLOBO, CBN e Valor, no dia 28, volta à tecla da polarização e tenta explicar onde se coloca no espectro ideológico. “Minha mente é capitalista, com todos os pressupostos do capitalismo: meritocracia, Estado enxuto, empreendedorismo, liberdade de expressão, preservação da família, mas meu coração é social”, diz, num esforço para se diferenciar tanto da direita quanto da esquerda.
Repete, quase como mantra, que problemas como violência contra mulheres, desemprego juvenil, crise na educação, autismo e os efeitos da inteligência artificial sobre o trabalho não têm “cor ideológica”. A mensagem é clara: temas sociais devem ser tratados como agenda comum, não como munição de guerra cultural.
Reformas estruturais no Executivo e no Judiciário
Além do discurso de conciliação, Cury tenta ancorar sua candidatura em propostas que mexem no desenho institucional do país. Em todas as oportunidades, defende o fim da reeleição presidencial e a adoção de mandatos de oito anos para ministros do Supremo Tribunal Federal.
No plano de governo, o eixo mais ambicioso é a transição para um modelo de semipresidencialismo, em que um primeiro-ministro compartilharia responsabilidades com o presidente. Na visão do ex-candidato, esse arranjo reduziria personalismos, baixaria a temperatura das disputas e obrigaria maior composição entre Executivo e Legislativo.
Na prática, essas mudanças alterariam o equilíbrio entre os Três Poderes e o modo como o país escolhe e controla seus governantes. A reeleição deixaria de ser incentivo à hiperexposição e ao conflito permanente, enquanto o STF ganharia uma renovação periódica previsível, hoje inexistente.
Setores tradicionais da política enxergam esse pacote com reserva. Líderes com forte capital eleitoral tendem a resistir ao fim da reeleição. Partes do Judiciário temem que mandatos fixos abram caminho para maior interferência política. O semipresidencialismo, por sua vez, esbarra em desconfianças históricas de que mudanças no sistema sirvam apenas para acomodar crises conjunturais.
Pronunciamento após o primeiro turno e recusa em apoiar rivais
No pronunciamento divulgado em 4 de outubro, após a apuração do primeiro turno, Cury mantém o roteiro. Cumprimenta os adversários que seguem na disputa, evita citá-los nominalmente e recusa pedidos de alinhamento imediato a qualquer campanha.
“Quem ganhar, torço para que governe pensando em um Brasil de esperança”, afirma. Pede que o próximo presidente governe “com inteligência e senso de justiça”, colocando no centro “as necessidades da população brasileira”.
Reafirma, ali, uma de suas frases mais repetidas na corrida: “Democracia não é concordar; é aprender a caminhar juntos, mesmo discordando”. O recado mira os dois polos: é preciso que direita, centro e esquerda sejam capazes de sentar à mesma mesa sem transformar divergência em inimizade.
A recusa em declarar apoio a qualquer um dos finalistas o deixa fora da barganha por cargos e espaços em futuros governos, rotina para legendas médias e pequenas na transição entre turnos. Em troca, preserva a coerência do discurso antipolarização, que seria abalado se optasse por um lado.
Também envia um sinal ao próprio eleitorado, que se vê livre para decidir no segundo turno sem indicação explícita. Esse contingente, de pouco mais de 3,4 milhões de pessoas, pode se tornar fiel da balança em disputas apertadas, embora não haja garantia de voto em bloco.
Quem ganha com o discurso de pacificação
Cury se apresenta como candidato outsider, mas não anti-política. Propõe diálogo constante entre campos ideológicos e insiste em tratar adversários como interlocutores legítimos, não como inimigos. “Quero pacificar este país”, resume.
Na prática, sua plataforma beneficia grupos cansados da escalada verbal que domina redes sociais e parlamentos. Profissionais da educação, mulheres vítimas de violência, jovens desempregados e famílias diretamente afetadas por mudanças no mercado de trabalho são convocados por ele como prova de que as dores do cotidiano não obedecem a legendas.
Para partidos estruturados em torno da polarização, contudo, esse discurso soa como ameaça. Ao esvaziar a narrativa do “nós contra eles”, Cury tenta deslocar o eixo da eleição para um terreno em que projetos de reforma institucional, educação emocional e proteção social dividem o protagonismo com temas clássicos da economia.
No encerramento do pronunciamento pós-primeiro turno, ele se afasta do imediatismo eleitoral e mira o longo prazo: “Presidentes passam. Partidos passam. Gerações passam. Mas uma nação precisa continuar sonhando”. A frase sintetiza a aposta de que sua influência poderá ultrapassar os 2,9% conquistados nas urnas.
O futuro dirá se esse capital simbólico se consolidará em movimentos cívicos, em uma reorganização interna do Avante ou em novas articulações partidárias. Para prosperar, suas propostas de fim da reeleição, semipresidencialismo e mandatos limitados no Supremo terão de vencer a resistência de um Congresso composto, em grande parte, pelos mesmos atores que se beneficiam do sistema atual.
Ao sair do primeiro turno sem se alinhar a vencedores ou derrotados, Augusto Cury tenta se firmar como voz crítica permanente, mais próxima de um articulador de debates do que de um líder de bancada tradicional. O tamanho desse espaço, no Brasil pós-2026, ainda é uma questão em aberto.
Augusto Cury é de direita ou de esquerda?
Ele rejeita os dois rótulos. Diz ter “mente capitalista” — favorável a Estado enxuto, meritocracia e empreendedorismo — e “coração social”, defendendo pautas sociais amplas.
O que acontece com os votos de Cury no segundo turno?
Como ele não declara apoio, seus 3.437.401 eleitores ficam livres para escolher qualquer candidato, anular ou votar em branco. Não há transferência automática de votos.
As propostas de Cury podem ser adotadas sem ele no poder?
Sim. Fim da reeleição, semipresidencialismo e mandatos de oito anos no STF dependem de emendas constitucionais, que podem ser apresentadas por parlamentares e aprovadas pelo Congresso.


