Senado projeta 54 votos pró-impeachment e pressiona STF
Com 54 senadores declarando apoio ao impeachment de ministros do STF, Senado passa a ter poder real para abrir processos e eleva tensão com Judiciário e governo Lula.
Política
Senado intensifica pressão ao STF com maioria favorável ao impeachment, aumentando tensão entre os poderes.
Um dia após as eleições de 4 de outubro de 2026, um dado domina as conversas em Brasília: 54 dos 81 senadores manifestam apoio ao impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. A conta, levantada pelo Ranking dos Políticos, atinge o quórum de dois terços exigido hoje para a abertura de processos contra magistrados da Corte.
Maioria inédita e regra criada pelo próprio STF
O número não é apenas simbólico. Em decisão liminar no fim de 2025, o ministro Gilmar Mendes determinou que pedidos de impeachment de ministros do Supremo só avancem no Senado com apoio de dois terços da Casa. A lei de 1950 falava em maioria simples. A exigência mais dura parecia, então, uma blindagem quase intransponível.
Com o resultado das urnas, essa barreira deixa de ser teórica. Na prática, o Senado passa a ter votos suficientes para iniciar processos de afastamento de ministros, inclusive do próprio Gilmar. O movimento redesenha o equilíbrio entre Legislativo e Judiciário e abre espaço para uma crise institucional duradoura.
O diretor-geral do Ranking dos Políticos, Juan Carlos Arruda, resume o salto de poder da Casa legislativa. “O resultado da eleição muda bastante a relação de forças no Senado quando o assunto é impeachment dos ministros do STF”, afirma. Ele pondera, porém, que apoio ao instrumento não se converte automaticamente em votos para derrubar nomes específicos.
Gilmar reage com sangue-frio e mira estabilidade
No centro da tempestade, o decano do Supremo adota um discurso de autocontenção. Em conversas com interlocutores políticos, Gilmar Mendes evita dramatizar a votação recorde de bolsonaristas e aliados no Senado.
“Sou um enfermeiro que já viu muito sangue. Não me afobo”, diz o ministro, ao ser questionado sobre o futuro da relação entre STF e Congresso. A frase, compartilhada por participantes das conversas, ecoa em gabinetes de Brasília como sinal de que o decano aposta em resistência e negociação, não em confronto aberto.
Gilmar é hoje a principal liderança interna do Supremo. Foi a ele que a campanha de Flávio Bolsonaro, recém-eleito senador pelo PL, recorreu nos bastidores em busca de pontes com a Corte. O gesto revela um paradoxo: o campo político que mais fala em impeachment também procura o ministro que mais encarna o STF que pretende enquadrar.
PL domina Senado e antipetismo ganha canal institucional
O Partido Liberal sai das urnas com 19 senadores eleitos neste domingo, mais de um terço das 81 cadeiras da Casa. Somados parlamentares de siglas como PP e Republicanos e nomes já em exercício, o bloco pró-impeachment chega a 54 cadeiras para o mandato 2027-2031.
A nova correlação de forças atinge diretamente o governo Luiz Inácio Lula da Silva. O Planalto passa a lidar com um Senado não apenas conservador, mas explicitamente hostil ao Supremo visto como aliado do petismo. A aprovação de projetos estratégicos tende a enfrentar bloqueios e chantagens permanentes.
Para o jornalista e analista político Fabiano Lana, não é apenas uma vitória da direita tradicional, mas do voto antissistema. Ele atribui o resultado a uma combinação de desgaste do governo e rejeição à postura de parte do Judiciário. “Ações truculentas comandadas por ministros como Gilmar Mendes e Flávio Dino assustaram eleitores moderados, que passaram a vê-los como ameaça”, escreve.
Entre as frases que circularam em grupos de WhatsApp, Lana destaca um raciocínio simples, repetido em campanhas pelo país: “Olha, se Lula for eleito, serão mais quatro Dinos no Planalto”. O medo de uma ampliação da influência do Supremo dentro do Executivo teria impulsionado candidaturas ao Senado comprometidas em “dar o troco” no Judiciário.
Crises do STF e do governo pavimentam reação no Congresso
A virada no Senado não ocorre no vazio. Vem na esteira de uma série de episódios que desgastam o Supremo e o governo Lula perante o eleitorado. A crise envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, negócios de R$ 130 milhões e o ministro Alexandre de Moraes se transforma em novela política. Mesmo sob fogo cruzado, o Planalto escolhe defender o magistrado, o que cola ainda mais a imagem de um “Supremo governista” ao PT.
Setores conservadores exploram as penas consideradas excessivas aplicadas contra Jair Bolsonaro, pela tentativa de golpe de Estado, e contra responsáveis pelos ataques às sedes dos Três Poderes. No imaginário de parte do eleitorado, consolida-se a ideia de um tribunal que pune com rigor apenas um lado da disputa.
Nesse ambiente, a campanha de Flávio Bolsonaro, carregada por denúncias antigas de “rachadinha” e suspeitas de enriquecimento ilícito, ganha fôlego. O sobrenome pesa mais que o histórico. Lana descreve o fenômeno como um “habeas corpus popular” concedido ao bolsonarismo, alimentado por antipetismo persistente e desalento com as instituições.
Judiciário sob cerco e governabilidade em xeque
A entrada em cena de um Senado com 54 votos pró-impeachment coloca o STF em posição defensiva. A simples possibilidade real de abertura de processos contra ministros já altera o tom interno da Corte e amplia a margem de pressão de partidos e lideranças.
O risco imediato é de instabilidade institucional. Qualquer decisão polêmica do Supremo, em temas como eleições, investigações criminais ou políticas de segurança, pode virar estopim para a apresentação de pedidos de impeachment. Mesmo que não prosperem até o afastamento de ministros, esses processos funcionam como arma de intimidação permanente.
Para o governo Lula, o quadro é ainda mais delicado. Um Congresso hostil tende a travar pautas econômicas, sabotar indicações e transformar CPIs em instrumentos de desgaste diário. A disputa presidencial em segundo turno, já difícil, fica mais complexa com a perspectiva de, em caso de vitória, enfrentar de saída um Legislativo voltado a enquadrar o Executivo e o Judiciário.
Arruda, do Ranking dos Políticos, ressalta que há distância entre discurso e voto secreto, mas reconhece a mudança de patamar. A pauta do impeachment de ministros do Supremo, antes vista como bandeira de nicho, entra definitivamente no centro do jogo de poder em Brasília.
Próximo mandato e a disputa pelo sentido da democracia
Os senadores eleitos agora tomam posse em 2027, com mandatos até 2031. Carregam consigo um recado claro do eleitor: a exigência de freios ao que parte da sociedade enxerga como ativismo excessivo do Supremo e arrogância do sistema político.
Gilmar Mendes, com sua metáfora do “enfermeiro”, sabe que o desafio passa por preservar a autoridade do tribunal sem aprofundar a percepção de distanciamento em relação às ruas. O STF terá de calibrar decisões, comunicação e relações com o Congresso num ambiente em que cada gesto pode ser interpretado como provocação.
O futuro imediato aponta para três frentes simultâneas: tentativas da oposição de abrir processos de impeachment contra ministros, negociações duras entre Planalto e Senado para garantir governabilidade mínima e um debate mais áspero sobre os limites de atuação do Judiciário em temas políticos. A resposta dessas instituições definirá se o país atravessará um ciclo de ajuste de freios e contrapesos ou entrará numa espiral de retaliações que colocará à prova, de novo, a resiliência da democracia brasileira.
Quem indicou Gilmar Mendes para o STF?
Gilmar Mendes é indicado ao Supremo Tribunal Federal em 2002 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, no fim de seu segundo mandato.
Quando Gilmar Mendes sai do STF?
Pela regra atual, ministros do STF aposentam-se compulsoriamente aos 75 anos. Gilmar Mendes nasce em 1955 e, em condições normais, deixa a Corte em 2030.
Qual foi a reação de Gilmar Mendes à votação recorde pelo impeachment de ministros do STF?
Ele adota tom de cautela. Em conversas reservadas, afirma: “Sou um enfermeiro que já viu muito sangue. Não me afobo”, sinalizando que não pretende reagir no grito.


