Vorcaro diz ter pago R$ 30 mi ao Instituto Lula e revela motivo
Ex-banqueiro afirma ter entregue R$ 30 milhões em dinheiro vivo ao Instituto Lula para documentário de Oliver Stone e relata cobrança de 10% para acesso a fundos de pensão.
Política Internacional
Ex-banqueiro detalha pagamento milionário ao Instituto Lula para produção de documentário e comenta sobre negociações financeiras.
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirma ter negociado pagamentos em espécie de R$ 30 milhões ao Instituto Lula para financiar um documentário sobre o presidente dirigido por Oliver Stone, em troca de apoio político para acessar fundos de pensão federais. As revelações aparecem em relatos entregues à Procuradoria-Geral da República e agora alimentam uma disputa que mistura mundo financeiro, política e eleição presidencial.
Pagamentos em espécie e o filme sobre Lula
Vorcaro, ex-dono do Banco Master e preso preventivamente desde março em Brasília por suspeita de fraude bancária, coloca o Instituto Lula no centro de um arranjo que, segundo ele, buscava abrir caminho aos cofres de fundos de pensão como Previ, Petros e Postalis. Nos anexos enviados às autoridades, ele descreve uma engrenagem que uniria captação bilionária, propinas e financiamento de produção audiovisual ligada à figura de Lula.
Em um de seus relatos, o banqueiro diz que a aproximação com o PT foi costurada pelo então CEO do Master, Augusto Lima, com ajuda de dirigentes petistas da Bahia e do senador Jaques Wagner, à época líder do governo no Senado. Esse eixo teria levado ao ex-tesoureiro do partido João Vaccari Neto, apontado como o operador da cobrança.
“O meu então sócio, Augusto Lima, através dos caciques do PT da Bahia, se reuniu com João Vaccari Neto. Nesse primeiro encontro ficou aventado que, para que houvessem votos suficientes para o nosso credenciamento junto aos fundos de pensão do Banco do Brasil, Caixa Asset e Previ, deveríamos fazer os seguintes adiantamentos: um pagamento por fora, ou seja, por espécie, na ordem de aproximadamente 30 milhões de reais para cobrir despesas de um documentário no exterior que estava sendo gravado sobre o Lula, e pagamento de valores ao Instituto Lula”, afirma Vorcaro em anexo enviado à PGR.
O filme mencionado é o documentário “Lula”, dirigido por Oliver Stone, que reúne depoimentos de aliados do presidente, como o advogado Walfrido Warde. Vorcaro sustenta ter bancado o projeto com dinheiro vivo, sem registro oficial, o que hoje dificulta a comprovação do caminho do dinheiro.
Em áudio atribuído ao ex-banqueiro, ele vincula explicitamente o arranjo ao Banco do Brasil e ao Instituto: “Banco do Brasil a gente estruturou isso com ele. É… O Augusto adianta ali para o Okamotto do Instituto Lula… E aí tem o negócio do filme também. O cara pede para colocar dinheiro no filme do Lula”.
Taxa de 10% e planos bilionários com fundos de pensão
Os anexos de colaboração descrevem ainda uma “taxa” fixada, segundo Vorcaro, por Vaccari. “Só haveria um jeito de entrar na Previ, Petros e Postalis: mediante pagamento de propina também na ordem de 10% de tudo o que o banco captasse”, relata o ex-banqueiro. A meta projetada seria agressiva: R$ 10 bilhões em captações, dos quais R$ 1 bilhão ficaria com o PT e R$ 9 bilhões alimentariam os negócios do Master.
Em conversa gravada, Vorcaro compara o dinheiro destinado ao documentário de Lula com os recursos aportados em outra obra política, desta vez sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Questionado sobre o paralelo com os mais de R$ 60 milhões destinados ao filme “Dark Horse”, ele reage: “O filme do Lula eu coloquei acho que até mais [que o filme de Bolsonaro]. Eu acho que dá até mais. Só que o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi porque foi patrocínio, foi patrocínio normal”.
“Dark Horse”, longa sobre o senador Flávio Bolsonaro, tem ao menos R$ 61 milhões rastreados da estrutura do Banco Master. As tratativas, segundo quem acompanha o caso, previam até US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões) em contratos relacionados à produção. Flávio admite ter solicitado recursos ao banco, mas nega qualquer irregularidade.
A PGR, diante dos relatos de Vorcaro, não homologou até agora um acordo formal de delação. Integrantes do Ministério Público e da Polícia Federal atribuem a cautela à falta de provas materiais robustas, já que grande parte dos pagamentos teria ocorrido “no dinheiro”, em malas e mochilas, fora do sistema bancário.
Planato, operadores e as rotas até os fundos estatais
Os relatos do ex-banqueiro não se limitam ao PT e ao Instituto Lula. Ele insere no enredo o então ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, seu secretário-executivo Olavo Noleto e operadores que, segundo ele, atuariam como pontes com os fundos das estatais. Vorcaro diz ter montado, no fim de 2023 e início de 2024, uma equipe específica para captar recursos junto aos fundos de previdência do governo federal.
Nessa etapa, surge a figura de um operador identificado como “Júlio”, descrito como presença constante no gabinete de Padilha no Planalto. Mensagens apreendidas no celular de Vorcaro indicam que Júlio o apresentou a Olavo Noleto, personagem que, por sua vez, foi elogiado em mensagens pelo empresário Walfrido dos Mares Guia, ex-ministro e sócio do banqueiro em outros negócios. “Olavo me enviou mensagem falando que gostou muito de você”, teria escrito Mares Guia a Vorcaro.
O ex-banqueiro relata ter ido pessoalmente ao Palácio do Planalto para conhecer Padilha e afirma ter participado de ao menos dois jantares com o ministro enquanto buscava viabilizar operações com os fundos estatais. “Nesse dia, estavam também o assessor Olavo, Fernando, o primo desse Olavo, e o próprio Júlio. Nessa conversa, Padilha mais ouviu do que falou, mas afirmou que ‘o que eu tratasse com Olavo seria como se eu estivesse tratando com o próprio Padilha’”, diz Vorcaro em um de seus anexos.
Depois desses encontros, ele conta ter recebido Júlio, Olavo e o primo em sua casa para uma conversa “aberta” sobre as condições de acesso às carteiras de investimentos das estatais. “Júlio, Olavo e seu primo Fernando foram em minha casa para uma conversa aberta: ‘só haveria um jeito de entrar na Previ, Petros e Postalis: mediante pagamento de propina também na ordem de 10% de tudo o que o banco captasse’”, afirma.
Reação do governo, disputa eleitoral e suspeita de jogo duplo
As menções diretas ao Instituto Lula e a personagens próximos ao presidente mudam o eixo político do escândalo. Até aqui, Lula vinha usando o caso Vorcaro para pressionar adversários, principalmente Flávio Bolsonaro. Em declaração recente, o presidente classificou o ex-banqueiro como um personagem capaz de iludir diferentes campos políticos. “Vorcaro não era apenas um ladrão, era um mágico”, disse Lula, defendendo que a investigação prossiga “doa a quem doer”.
As novas acusações, porém, abalam essa posição confortável. A defesa de Vorcaro sustenta haver mensagens de WhatsApp, registros de quem sacou os recursos e até rotas das entregas em espécie capazes de dar lastro à narrativa, embora essa documentação ainda não tenha resultado em ações penais. O Instituto Lula, Vaccari e demais citados negam irregularidades e falam em tentativa de uso político de um réu preso sob acusações graves.
No campo eleitoral, o caso ganha contornos ainda mais delicados. Advogados ligados ao grupo Prerrogativas — entre eles Marco Aurélio de Carvalho e Reinaldo Santos de Almeida — protocolaram nesta semana uma notícia de fato na Polícia Federal pedindo investigação urgente sobre uma possível articulação entre Vorcaro e aliados de Flávio Bolsonaro para interferir no segundo turno da eleição presidencial, marcado para 25 de outubro.
A suspeita é que o ex-banqueiro negocie entrevistas exclusivas e vazamentos seletivos de seus relatos para atingir Lula e integrantes do governo na reta final da campanha, desviando ao mesmo tempo o foco das investigações sobre o Banco Master e sobre o financiamento do filme de Flávio. Segundo os advogados, essa manobra poderia deformar a disputa eleitoral ao lançar acusações de difícil checagem às vésperas da votação.
Instituições pressionadas e próximos passos da crise
O inquérito em curso coloca sob pressão a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República e o Supremo Tribunal Federal, que autorizou parte das apurações envolvendo o entorno de Flávio Bolsonaro. A linha de frente das investigações tenta, de um lado, checar a consistência das denúncias de Vorcaro sobre o Instituto Lula e, de outro, apurar se há uso eleitoral calculado desses relatos por aliados do senador.
A dificuldade central reside na natureza dos pagamentos narrados. Grande parte das operações teria ocorrido em espécie, sem registros bancários formais. Esse formato, típico de esquemas de lavagem de dinheiro, encarece a prova e abre espaço para narrativas concorrentes. A promessa da defesa de Vorcaro de apresentar extratos de mensagens, planilhas internas e dados logísticos ainda não se converte em denúncia robusta na Justiça.
Ao mesmo tempo, a revelação do suposto pagamento de R$ 30 milhões ao Instituto Lula para custear o documentário com Oliver Stone reorganiza o debate sobre o financiamento da produção cultural com dinheiro de origem suspeita. O setor audiovisual, já dependente de patrocínios privados e incentivos públicos, passa a enfrentar questionamentos sobre a independência editorial de obras que orbitam figuras políticas centrais.
No curto prazo, a tendência é que novos trechos de áudios e anexos de Vorcaro venham à tona, ampliando a circulação de acusações antes de qualquer veredicto judicial. O desfecho da eventual delação do ex-banqueiro, somado à reação da PF e da PGR à notícia-crime sobre interferência eleitoral, deve definir se o caso resultará em ações penais contra políticos de diferentes campos ou se ficará registrado como mais um episódio de guerra de narrativas em meio a uma eleição polarizada.
O que exatamente Daniel Vorcaro acusa o Instituto Lula de ter recebido?
Daniel Vorcaro acusa o Instituto Lula de ter recebido aproximadamente R$ 30 milhões em espécie, entregues “por fora”, para cobrir despesas de um documentário sobre Lula dirigido por Oliver Stone e outros compromissos do Instituto, em troca de apoio político para que o Banco Master acessasse recursos de fundos de pensão federais como Previ, Petros e Postalis.
Como o caso Vorcaro pode interferir na eleição presidencial?
O caso Vorcaro pode interferir na eleição presidencial porque envolve denúncias simultâneas contra o entorno de Lula e de Flávio Bolsonaro, suspeita de uso calculado das revelações às vésperas do segundo turno de 25 de outubro e risco de divulgação seletiva de áudios e anexos, sem tempo hábil para apuração plena e direito de resposta equilibrado.


