Mercados
S&P 5007.659▼ 1,09%Nasdaq26.140▼ 2,14%Dow Jones52.002▼ 0,34%Ibovespa205.430▲ 0,54%FTSE 10010.882▲ 0,38%DAX25.623▲ 0,95%Nikkei65.324▲ 1,39%DólarR$ 5,07– 0,00%EuroR$ 5,69▼ 0,46%BitcoinR$ 412.655▼ 0,04%Powered by WIREDESK OSS&P 5007.659▼ 1,09%Nasdaq26.140▼ 2,14%Dow Jones52.002▼ 0,34%Ibovespa205.430▲ 0,54%FTSE 10010.882▲ 0,38%DAX25.623▲ 0,95%Nikkei65.324▲ 1,39%DólarR$ 5,07– 0,00%EuroR$ 5,69▼ 0,46%BitcoinR$ 412.655▼ 0,04%Powered by WIREDESK OS
Powered by WIREDESK OS
Inteligência Artificial

Trump quer trocar ‘inteligência artificial’ por ‘superinteligência’

Trump propõe aposentar o termo 'inteligência artificial' em documentos oficiais dos EUA e adotar 'superinteligência'. Especialistas veem jogada política, sem base técnica, e temem mais medo da tecnologia.

Trump quer trocar ‘inteligência artificial’ por ‘superinteligência’

Inteligência Artificial

Ex-presidente sugere mudança terminológica que pode impactar a percepção pública e política da tecnologia nos EUA.

Leia também: Flávio Bolsonaro paga R$ 731,9 mil à Elytron, alvo de denúncia

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que pretende aposentar o termo “inteligência artificial” em documentos oficiais do governo e substituí-lo por “superinteligência”, numa tentativa de rebatizar uma tecnologia já consolidada há 70 anos e reforçar a liderança americana na área.

Por que Trump quer mudar o termo ‘inteligência artificial’?

Trump diz que a expressão “inteligência artificial” passa a impressão de algo falso e quer vincular o avanço tecnológico dos EUA a uma ideia de poder e superioridade, num movimento que mistura marketing político e disputa geopolítica pela liderança em tecnologias avançadas.

Em discurso na Assembleia Geral da ONU, no mês passado, ele afirmou que “o nome inteligência artificial faz soar como se ela fosse falsa” e declarou que, “de agora em diante, todos os documentos dos EUA e, espero, de todo o mundo, vão utilizar o nome Superinteligência”. A fala veio após uma série de encontros com líderes da indústria de tecnologia e reforça a narrativa de soberania tecnológica americana.

Para o professor e pesquisador em IA Allan Pscheidt, a ofensiva de linguagem de Trump funciona como recado estratégico. “Quando Trump vem com a ideia de cunhar o termo ‘superinteligência’, ele está avisando ao mundo que os EUA vão atingir a AGI muito em breve e que, com isso, vão mostrar sua soberania tecnológica”, afirma, comparando o momento à corrida espacial.

O que Trump propõe como substituto para o termo ‘inteligência artificial’?

Trump quer que “superinteligência” passe a ser o novo rótulo oficial da tecnologia em todo o aparato estatal americano, com potencial pressão para que empresas e outros países sigam o mesmo caminho.

Antes de bater o martelo, o presidente recorreu à sua rede social, a Truth Social, e fez três enquetes para testar nomes. Primeiro, apresentou opções como “Inteligência Superior”, “Inteligência Extrema” e “Inteligência Suprema”. Depois, colocou em disputa “Superinteligência” e “Inteligência Superior”, até escolher a versão que vem repetindo em discursos.

Na ONU, ele saudou chefes de Estado com um “bem-vindos ao novo mundo da superinteligência” e emendou: “vamos ver se isso vai dar certo”. Para o professor Cleber Zanchettin, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o gesto revela o caráter de espetáculo da proposta. “Primeiro, ele disse ‘bem-vindos ao novo mundo da superinteligência’ e completou com ‘vamos ver se isso vai dar certo’. Isso revela uma jogada de marketing para chamar atenção, sem efeito prático”, avalia.

Trump também elevou o tom ao afirmar que passaria a tratar como “inimigo” quem insistisse em usar o termo antigo, “inteligência artificial”, em vez de “superinteligência”. A ameaça é vista como retórica política, mas tende a acirrar a polarização em torno da tecnologia.

Há quanto tempo o termo ‘inteligência artificial’ é usado?

O termo “inteligência artificial” é usado há cerca de 70 anos pela comunidade científica, em universidades, empresas e organismos internacionais, e se tornou padrão global para designar sistemas capazes de executar tarefas associadas ao raciocínio humano.

A expressão nasceu em um contexto de pesquisa que misturava matemática, engenharia e estatística para criar máquinas que pudessem aprender, tomar decisões e resolver problemas. Desde então, acompanha várias ondas tecnológicas, dos primeiros programas de xadrez e sistemas especialistas até a atual geração de modelos generativos, como os chatbots capazes de produzir textos, imagens e vídeos.

Para o professor Anderson Soares, fundador do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA) da Universidade Federal de Goiás (UFG), trocar essa nomenclatura consolidada por outra mais chamativa tende a gerar ruído. Ele lembra que nem o próprio conceito de “inteligência” é consenso entre cientistas, o que torna qualquer rebatismo ainda mais sensível.

Como especialistas reagem à tentativa de Trump de mudar o nome da IA?

Pesquisadores brasileiros em IA ouvidos veem a proposta como uma jogada política e de comunicação, com pouca ou nenhuma sustentação técnica, e alertam para o risco de paralisar debates importantes e aumentar o medo em torno da tecnologia.

Anderson Soares considera a iniciativa um movimento mais destrutivo do que construtivo. “O objetivo de mudar o nome me parece muito mais um contragolpe na questão de paralisar o desenvolvimento da IA. Parece mais um ato político do que efetivamente algo construtivo”, diz. Para ele, o foco deveria estar em governança, transparência e regulação, não em trocar rótulos.

Cleber Zanchettin segue na mesma linha ao classificar o gesto como puro marketing. Na avaliação dele, o discurso de “superinteligência” ajuda a manter Trump no centro da atenção pública, mas não altera o que as empresas e centros de pesquisa fazem hoje. “Isso revela uma jogada de marketing para chamar atenção, sem efeito prático”, reforça.

Allan Pscheidt enxerga, por outro lado, um forte componente geopolítico. Ele compara o momento à disputa entre potências na corrida para a Lua. “A gente está vivendo algo parecido com o que aconteceu na corrida para a Lua e na corrida espacial. Estamos passando agora para a corrida pela AGI (Inteligência Artificial Geral)”, afirma. Na visão dele, ao inflar o termo “superinteligência”, Trump tenta sinalizar que os EUA estão na frente nessa nova corrida tecnológica.

Entenda o contexto

A proposta de Trump surge num momento em que a inteligência artificial está no centro de debates sobre emprego, privacidade, segurança e poder militar. A tecnologia embute desde recursos cotidianos, como filtros de fotos e sistemas de recomendação, até aplicações de alto impacto, como drones militares e ferramentas de vigilância.

Pesquisas de opinião mostram que boa parte da população reage com mais preocupação do que entusiasmo ao avanço da IA, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Termos associados a ameaça ou superioridade das máquinas tendem a amplificar esse receio.

“Introduzir um termo como ‘superinteligência’ ou ‘inteligência suprema’ pode soar como uma ameaça aos humanos e aumentar a rejeição do público”, adverte Zanchettin. Ele lembra que muitas pessoas ainda não entendem bem nem o que é a IA “básica”, usada hoje em larga escala, e podem interpretar a nova palavra como um salto repentino rumo a máquinas fora de controle.

Quais são os impactos da mudança do termo ‘inteligência artificial’ no setor tecnológico?

Na prática, especialistas avaliam que a eventual adoção de “superinteligência” em documentos oficiais dos EUA teria impacto técnico limitado sobre o desenvolvimento da tecnologia, mas poderia gerar confusão conceitual e atritos diplomáticos.

Do ponto de vista científico, nada mudaria no funcionamento dos algoritmos ou na forma como pesquisadores modelam sistemas de IA. “Superinteligência” é, hoje, um conceito mais teórico do que empírico, associado à hipótese de uma inteligência de máquina superior à humana — algo que, como lembra Allan Pscheidt, ainda não tem qualquer comprovação. A mudança de nome, portanto, não reflete um salto real de capacidade.

O problema, dizem os pesquisadores, é que a inteligência artificial é discutida globalmente com esse nome há décadas, em normas internacionais, legislações, acordos comerciais e documentos de governança ética. Uma revisão terminológica unilateral pelo governo americano tende a criar desencontros com outros países e organismos multilaterais.

No setor privado, empresas que atuam em vários mercados teriam de escolher entre seguir a nomenclatura tradicional ou alinhar sua comunicação ao novo discurso da Casa Branca, o que pode fragmentar ainda mais o debate sobre segurança, responsabilidade e regulação. Universidades e órgãos reguladores também teriam de decidir se incorporam ou não o termo “superinteligência” em cursos, pareceres e resoluções.

Para Anderson Soares, insistir na troca de rótulo desvia a atenção de discussões mais urgentes. Ele lembra que novas tecnologias costumam atravessar fases previsíveis: primeiro despertam medo, depois encantamento e, por fim, se tornam parte do cotidiano. Forçar uma palavra carregada de exagero, como “superinteligência”, pode prolongar justamente a etapa do medo e da desinformação, em vez de ajudar a sociedade a compreender melhor o que essa tecnologia já é hoje.

Fonte: matéria original