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Inteligência Artificial

Campanha em Israel cria 1.800 conteúdos com IA até 27/10

Campanha em Israel usa avalanche de vídeos com IA, deepfakes e ligações automatizadas para influenciar eleitores. Likud concentra 1,8 mil posts e acirra debate ético às vésperas do pleito.

Campanha em Israel cria 1.800 conteúdos com IA até 27/10

Inteligência Artificial

Uso intensivo de IA e deepfakes em campanha israelense levanta questões éticas antes das eleições.

Leia também: Jornada de Fisioterapia da Unit discute IA e carreira em 3 dias

A reta final da campanha eleitoral em Israel é marcada por um uso sem precedentes de inteligência artificial: vídeos hiper-realistas, deepfakes, conteúdos híbridos e até ligações telefônicas automatizadas tentam moldar a opinião de milhões de eleitores às vésperas da votação marcada para 27 de outubro.

No centro dessa estratégia está o Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que já publicou mais de 1.800 posts com conteúdo gerado por IA desde o fim de julho, em meio à disputa acirrada com Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior e candidato a primeiro-ministro.

Vídeo com filho de Eisenkot gera indignação

Um dos casos mais controversos é um clipe de 19 segundos publicado no X na conta de Netanyahu. No vídeo, gerado por IA, Gadi Eisenkot aparece correndo em câmera lenta em direção a uma figura que se assemelha ao seu filho, usando uma camiseta com a frase “Unidade Israelense”. Nos segundos finais, em vez de abraçá-lo, o candidato passa reto e cai nos braços de Mansour Abbas, líder do partido árabe Ra’am.

O clipe, assistido mais de 1 milhão de vezes, é apontado por analistas como uma tentativa de explorar sentimentos antiárabes e reacender tensões identitárias, num ponto sensível da trajetória de Eisenkot: seu filho foi morto em combate em 2023, durante a guerra entre Israel e o Hamas. O uso dessa tragédia pessoal em um vídeo artificial ampliou a revolta de apoiadores e abriu novo flanco ético na campanha.

O material faz parte de um arsenal digital que, segundo pesquisadores, busca produzir choques rápidos e altamente compartilháveis, com potencial para reorientar o debate público em poucos dias.

Projeto acadêmico mapeia avalanche de IA

O cenário vem sendo monitorado pelo projeto Ze Be AI, da Universidade Aberta de Israel, que acompanha publicações de políticos no Facebook, Instagram, X e TikTok desde o fim de julho. Até meados de outubro, a equipe havia coletado mais de 44 mil postagens e constatado que mais de 14% do material eleitoral utilizava algum tipo de inteligência artificial.

A forma mais comum é o uso híbrido, em que apenas partes dos anúncios são geradas ou manipuladas por IA: imagens, trilhas sonoras, legendas, logotipos ou elementos de deepfake inseridos sobre vídeos reais. Em números absolutos, o Likud lidera com folga. Atrás aparecem os Democratas, liderados por Yair Golan, e o partido Yashar, de Eisenkot, ainda que com volume bem menor.

“Há um cenário em que, em um momento estratégico pouco antes da eleição, a IA poderia ser usada de maneiras que alimentassem controvérsias capazes de influenciar o resultado eleitoral”, alerta Anat Ben-David, pesquisadora de mídia que coordena o projeto.

Entenda o contexto

As eleições legislativas de 27 de outubro podem encerrar o longo domínio de Netanyahu ou consolidá-lo por mais alguns anos. Com o país polarizado e o voto fragmentado entre legendas de direita, centro, esquerda e partidos árabes, cada ponto percentual de intenção de voto ganhou peso.

Esse ambiente tornou as redes sociais e as ferramentas de IA o principal campo de batalha. Além da disputa direta entre Netanyahu e Eisenkot, nomes como Mansour Abbas, Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir se tornam personagens centrais na guerra de narrativas digitais, em meio a tensões étnicas, securitárias e institucionais.

Como os partidos estão usando inteligência artificial?

Mais de 1.800 posts com IA foram publicados pelo Likud até meados de outubro, o que representa cerca de um quarto de todo o conteúdo do partido analisado pelo Ze Be AI. No total, mais de 14% do material eleitoral nas redes sociais monitoradas utiliza IA de alguma forma.

O uso vai de peças de propaganda clássicas a experimentos mais agressivos:

Nos Democratas, Yair Golan apareceu em um vídeo marcado como gerado por IA em que suas roupas mudam a cada volta de um ventilador de teto: de uniforme militar para uma camiseta com o slogan “Tragam-nos para casa agora”, em referência aos reféns israelenses em Gaza, e depois para terno e gravata. A peça explora de forma simbólica sua trajetória e tenta conectar credenciais militares, empatia com famílias de reféns e imagem de liderança institucional.

No campo ultradireitista, o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, divulgou um vídeo hiper-realista em que a procuradora-geral Gali Baharav-Miara e juízes da Suprema Corte aparecem sendo detidos durante um protesto contra o governo. A cena fictícia, produzida por IA, intensifica o embate entre a coalizão de Netanyahu e o sistema de Justiça, sugerindo um cenário de confronto direto com a cúpula jurídica.

Já o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, compartilhou um vídeo gerado por IA que mostra palestinos sendo transportados por uma esteira rolante para algo que lembra um campo de concentração. A peça, criticada como desumanizante, provocou forte reação internacional. Em nota, o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha classificou o conteúdo como “completamente inaceitável” e “abominável”.

Além dos vídeos, campanhas recorrem a robôs para inflar alcance e moldar percepções de popularidade. Empresas especializadas em monitoramento digital identificam redes de contas recém-criadas que seguem Netanyahu em massa e replicam suas postagens, muitas delas com sinais de automatização e localizadas fora de Israel. Grupos de fiscalização também já ligaram o entorno de Ben-Gvir a redes de perfis que usam imagens geradas por IA para atacar adversários.

Ligações automáticas mais “humanas”

A disputa tecnológica também chegou ao telefone. Eleitores israelenses relatam ter recebido chamadas de voz que se apresentam como pesquisas eleitorais, conduzidas por supostos institutos. A diferença para as antigas “robocalls” é o nível de sofisticação.

Uma ligação registrada por um pesquisador de desinformação tem quatro minutos. Nela, uma voz feminina se identifica como pesquisadora chamada Danielle, pergunta sobre preferências de voto e reage às respostas com naturalidade. Ao ser pressionada, admite que “não há nenhum agente humano na linha”, mas segue insistindo nas questões eleitorais sem revelar quem financiou a pesquisa.

Para especialistas, a tecnologia permite escalar esse tipo de contato a um custo muito menor que o de centrais de telemarketing tradicionais, abrindo espaço para sondagens opacas, microdirecionadas e difíceis de rastrear.

Leis desatualizadas e selo obrigatório de IA

Diante da escalada, o Comitê Central de Eleições de Israel aprovou, em julho, uma norma obrigando que todo conteúdo eleitoral gerado ou manipulado por IA seja identificado de forma clara. Em pelo menos um caso, o órgão determinou que Smotrich removesse um vídeo não rotulado por considerá-lo enganoso.

Pesquisadores, porém, veem o mecanismo como insuficiente. “Não existe uma Lei de IA, nem uma Lei de Serviços Digitais, e a legislação sobre privacidade está muito desatualizada”, afirma Anat Ben-David. “Por isso vemos novos usos da IA que seriam impossíveis de ocorrer na Europa.”

Na prática, a identificação acaba dependendo da boa-fé de campanhas que justamente buscam tirar proveito das brechas regulatórias. Conteúdos híbridos, com manipulações sutis, ainda escapam facilmente do radar oficial.

Quais são os riscos do uso de IA nas eleições israelenses?

Os principais riscos são a manipulação da opinião pública em larga escala, o acirramento de tensões políticas e étnicas e a erosão da confiança nas próprias eleições.

Ao permitir a produção rápida e barata de vídeos hiper-realistas e deepfakes, a IA reduz drasticamente o custo de criar boatos visuais convincentes. No caso israelense, isso se traduz em conteúdos que exploram feridas abertas – como a morte do filho de Eisenkot – e retratam adversários como traidores, inimigos internos ou ameaça à segurança nacional.

Pesquisadores também alertam para o fenômeno da “otimização para mecanismos generativos” (GEO, na sigla em inglês): a criação de sites e textos pensados para alimentar grandes modelos de linguagem e influenciar respostas de chatbots. O próprio governo israelense já contratou, em outro contexto, empresas para abastecer sistemas de IA com conteúdo favorável à gestão Netanyahu. A avaliação de especialistas é que as mesmas táticas podem ser adaptadas para o jogo eleitoral interno.

A isso se soma a operação de redes de bots que ampliam artificialmente a visibilidade de determinadas narrativas. Mesmo que parte dos eleitores identifique a natureza automatizada desses perfis, o volume de engajamento ajuda a impulsionar posts nos algoritmos das plataformas, moldando o que aparece primeiro no feed.

No limite, esse ecossistema cria um ambiente em que o eleitor já não sabe o que é real, quem é humano e quem é máquina. A fronteira borrada abre espaço para teorias conspiratórias de todos os lados, favorece campanhas que dominam melhor essas ferramentas e deixa instituições eleitorais e a imprensa constantemente em posição reativa.

Pressão interna e externa por regras mais duras

Internamente, cresce a cobrança para que o Parlamento israelense avance em uma legislação específica sobre IA, serviços digitais e proteção de dados, com regras para campanhas, sanções claras para abusos e exigências técnicas às plataformas. Pesquisadores como Anat Ben-David insistem que, sem isso, a norma eleitoral aprovada pelo comitê é só um paliativo.

No plano externo, o vídeo de Ben-Gvir com palestinos em cenário semelhante a campo de concentração evidenciou o potencial internacional de dano reputacional. A condenação pública da Alemanha colocou pressão adicional sobre o governo Netanyahu e reforçou alertas de que o uso interno da IA pode transbordar rapidamente para crises diplomáticas.

Com a votação de 27 de outubro se aproximando, a expectativa é de que o uso agressivo de inteligência artificial se intensifique. A forma como autoridades, justiça eleitoral, partidos e plataformas irão reagir nesses próximos dias pode definir não apenas o resultado imediato nas urnas, mas o padrão das campanhas digitais em Israel — e servir de modelo, ou alerta, para outras democracias.

Fonte: matéria original