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Inteligência Artificial

Como a IA funciona e impulsiona 47% do comércio global em 2026

Bens ligados à inteligência artificial puxam 47% do crescimento do comércio global em 2026 e expõem a urgência de modernizar a infraestrutura portuária e logística do Brasil.

Como a IA funciona e impulsiona 47% do comércio global em 2026

Inteligência Artificial

Entenda o papel da IA no crescimento do comércio global e a necessidade de modernização logística no Brasil.

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Bens associados à inteligência artificial já respondem por 47% do crescimento, em valor, do comércio mundial de mercadorias no primeiro semestre de 2026 e ajudam a levar a projeção de expansão global deste ano para 3,9%, segundo a Organização Mundial do Comércio. O avanço, sustentado por semicondutores, servidores e equipamentos para data centers, reforça a urgência de o Brasil modernizar sua infraestrutura portuária e logística para não ficar à margem das novas cadeias produtivas de alta tecnologia.

Como a ia funciona na nova rota do comércio global

Na prática, o boom da inteligência artificial começa muito antes dos algoritmos: passa pela fabricação de processadores, produção de equipamentos, instalação de servidores e construção de data centers, quase sempre com componentes vindos de vários países. Cada etapa depende de transporte internacional, armazenagem, desembaraço aduaneiro e coordenação logística de alto nível.

É essa engrenagem física que sustenta a economia digital. As transações de produtos associados à IA cresceram 67% no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior, mostrando que a transformação tecnológica já altera de forma concreta os fluxos de carga em portos, aeroportos e fronteiras terrestres ao redor do mundo.

Ao revisar para 3,9% a estimativa de expansão do volume do comércio de mercadorias em 2026, a OMC ressaltou o papel da tecnologia para amortecer choques. “A resiliência do comércio mundial em 2026 esteve associada à capacidade de adaptação das cadeias globais diante das interrupções provocadas pelo conflito no Oriente Médio”, afirma a entidade em nota, destacando que os investimentos em IA ajudaram a reorganizar rotas e fornecedores.

Entenda o contexto

O salto dos bens tecnológicos ligados à IA ocorre em um ambiente de incerteza: tensões geopolíticas, mudanças em rotas marítimas e oscilações nos fretes elevam o risco para importadores e exportadores. Cadeias mais longas e complexas, alimentadas por componentes críticos, exigem sistemas logísticos capazes de reagir rápido a imprevistos sem paralisar fábricas ou atrasar a entrada em operação de data centers.

Nesse cenário, a discussão sobre competitividade deixa de ser apenas uma corrida por menor custo de frete. A previsibilidade das entregas, a segurança da carga e a capacidade de manter o abastecimento passam a pesar tanto quanto o preço no fechamento de contratos internacionais, especialmente em setores que dependem de sincronizar a chegada de dezenas de peças e módulos de alta tecnologia.

O desafio específico do Brasil

O Brasil entra nessa nova fase do comércio global com peso relevante em commodities agrícolas e minerais, mas pouca participação nas cadeias de bens intensivos em tecnologia. A janela aberta pela IA não exige que o país se torne fabricante de semicondutores, e sim que construa condições para importar equipamentos, instalar infraestrutura digital e se conectar a cadeias produtivas mais sofisticadas.

A infraestrutura portuária é o ponto nevrálgico. A maior parte do que o Brasil vende e compra no exterior passa pelos portos, que agora precisam lidar com cargas mais diversificadas, sensíveis e de maior valor agregado. Não basta ter píeres maiores ou mais navios atracando: terminais especializados, integração com rodovias e ferrovias, eficiência aduaneira e previsibilidade operacional tornam-se tão estratégicos quanto a capacidade bruta de movimentação.

Do lado das empresas, a exigência é dupla. Exportadores e importadores brasileiros precisam ganhar agilidade para aproveitar oportunidades em cadeias tecnológicas globais, enquanto transportadoras, terminais, agentes de carga e operadores logísticos são pressionados a oferecer níveis de serviço compatíveis com padrões internacionais — inclusive em rastreabilidade, informação em tempo real e gestão de risco.

Fragmentação de dados trava a logística

O principal gargalo hoje não está apenas em pistas, trilhos e berços de atracação, mas na informação. Importadores, exportadores, transportadoras, terminais, agentes de carga e operadores logísticos costumam trabalhar com sistemas próprios, que não conversam entre si. O resultado são dados dispersos, falta de visão integrada da operação e decisões tomadas com base em informações desatualizadas ou incompletas.

Na prática, cada elo da cadeia funciona de forma razoável isoladamente, mas o conjunto é vulnerável a atrasos, retrabalho e custos extras de armazenagem e transporte. Em cadeias de alta tecnologia, em que a falta de um único componente pode atrasar a montagem de equipamentos inteiros, esse modelo reativo deixa o Brasil em desvantagem.

É justamente nesse ponto que a IA aparece como parte da solução. Modelos de análise preditiva podem cruzar dados de múltiplos sistemas, identificar riscos de atraso antes que eles se concretizem, comparar rotas e modais alternativos e antecipar variações de demanda. “O objetivo não é simplesmente automatizar atividades, mas ampliar a capacidade de planejamento das empresas”, resume um especialista em logística e IA ouvido pela reportagem.

Do apagar-incêndio ao planejamento inteligente

Tradicionalmente, a gestão logística brasileira se organiza em torno da solução de problemas depois que eles acontecem: carga parada, navio que não atraca, caminhão que não chega, documentação barrada na aduana. Em um comércio internacional mais rápido e interdependente, esse padrão de “apagar incêndio” encarece operações e afasta investimentos.

Com IA, a lógica pode se inverter. Algoritmos treinados com dados históricos de fluxo, clima, ocupação de terminais, performance de transportadoras e históricos de fiscalização conseguem apontar, com antecedência, quais operações têm maior chance de enfrentar atrasos ou custos extras. A partir daí, empresas e operadores públicos podem redesenhar escalas, redistribuir cargas, reservar janelas em terminais alternativos ou renegociar contratos.

Essa inteligência também muda a forma de avaliar preço. Um frete aparentemente mais barato pode esconder riscos de congestionamento, excesso de manuseio ou baixa confiabilidade de prazos — fatores que, em cadeias tecnológicas, geram custos muito maiores do que a economia inicial. Com modelos de IA bem alimentados, comparações passam a incluir variáveis como risco de ruptura, custos indiretos de atraso e impactos em contratos com clientes.

Próximos passos para o Brasil

A leitura comum entre especialistas e agentes do setor logístico é que o país precisa de uma ofensiva coordenada para acompanhar o ritmo imposto pelo comércio puxado pela IA. De um lado, investimentos clássicos em infraestrutura — ampliação e modernização de portos, melhoria de acessos rodoviários e ferroviários, expansão da capacidade de armazenagem. De outro, um salto em conectividade, integração de sistemas e padronização de dados.

Isso passa por incentivar plataformas que permitam o compartilhamento seguro de informações entre importadores, exportadores, terminais e autoridades públicas; revisar procedimentos aduaneiros para reduzir redundâncias; e apoiar empresas brasileiras de tecnologia que desenvolvem soluções específicas para logística, de torres de controle digitais a sistemas de previsão de demanda.

A OMC alerta que o crescimento de 3,9% no comércio global em 2026 não beneficiará todos os países na mesma proporção. A expansão das trocas de bens relacionados à IA tende a favorecer economias já inseridas nessas cadeias. Para o Brasil, a diferença estará menos no volume total de carga e mais na capacidade de movimentar tecnologia com eficiência, oferecendo ao investidor internacional uma combinação de infraestrutura física robusta com inteligência operacional de ponta.

Se conseguir integrar portos, transportes e dados em um sistema mais fluido e previsível, o país pode transformar o atual momento em oportunidade: atrair data centers, centros de distribuição regional, bases de manutenção de equipamentos e novas linhas de produção ligadas à IA. Caso contrário, corre o risco de seguir concentrado em commodities tradicionais enquanto a parte mais dinâmica do comércio mundial trafega por outras rotas.

Fonte: matéria original