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Economia

Dívida externa do Brasil supera reservas em US$ 5 bi após 19 anos

Dívida externa do Brasil supera reservas e país perde posição de credor internacional após 19 anos. Economistas veem menor margem de manobra, mas descartam crise imediata.

Dívida externa do Brasil supera reservas em US$ 5 bi após 19 anos

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Após quase duas décadas, o país enfrenta saldo negativo entre dívida externa e reservas internacionais.

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A dívida externa do Brasil voltou a superar as reservas internacionais e o país deixou, depois de 19 anos, a condição de credor internacional líquido. Dados do Banco Central mostram uma dívida externa bruta de US$ 407,1 bilhões em junho, acima das reservas de US$ 402 bilhões, num cenário de déficit crescente nas contas externas e de menor folga no ingresso de dólares.

Qual é o valor atual da dívida externa do Brasil?

A dívida externa do Brasil está em US$ 407,1 bilhões, de acordo com o balanço de junho do Banco Central. O montante, que soma compromissos do setor público, bancos e empresas com o exterior, é o maior em décadas e já supera o total das reservas internacionais, hoje em US$ 402 bilhões quando se incluem créditos brasileiros lá fora.

Com isso, a dívida externa líquida — diferença entre ativos e passivos externos — passou a ser positiva em US$ 5,1 bilhões, encerrando quase duas décadas em terreno negativo, quando o país era credor líquido do resto do mundo. No atual governo, a dívida externa avançou 27,4%, ritmo bem acima da alta de 15,8% das reservas no mesmo período.

A mudança ocorre num quadro de desequilíbrio crescente nas contas com o exterior. Nos 12 meses encerrados em agosto, o déficit em transações correntes somou US$ 63 bilhões, o equivalente a 2,47% do PIB, mais que o dobro do saldo negativo observado dois anos atrás.

Por que o Brasil voltou a ser devedor internacional após 19 anos?

O Brasil voltou a ser devedor internacional líquido porque a dívida externa cresceu mais rápido que as reservas, num ambiente de déficit maior nas contas externas e de saídas de dólares. A combinação reduziu e, depois, inverteu a folga que o país tinha como credor do resto do mundo.

Pelo lado da dívida, o principal motor foi o aumento das captações em títulos e empréstimos, grande parte em papéis emitidos em reais e comprados por estrangeiros. Cerca de 70% da dívida externa hoje está em ativos em moeda local detidos por não residentes, o que infla o passivo externo sem exigir, necessariamente, ingresso direto de dólares.

Do outro lado, as reservas cresceram menos. Intervenções do Banco Central no mercado de câmbio, sobretudo em momentos de estresse com a política fiscal, e a valorização do real limitaram a recomposição do colchão de dólares. Em paralelo, o déficit em transações correntes passou a exigir mais financiamento, num contexto em que o investimento direto segue forte, mas com menos sobra do que no passado.

No ano passado, o rombo em transações correntes chegou a US$ 67,4 bilhões. Embora o investimento estrangeiro direto ainda tenha sido suficiente para cobrir essa conta sem consumir reservas, a folga encolheu para menos de US$ 9 bilhões em determinado momento, bem abaixo da margem superior a US$ 38 bilhões registrada em anos anteriores.

Entenda o contexto

Ser credor internacional líquido significa ter mais ativos no exterior — como reservas internacionais e investimentos de brasileiros lá fora — do que dívidas com estrangeiros. O Brasil conquistou essa posição em meados dos anos 2000 e a manteve por 19 anos, usando o dado como argumento de solidez em diálogos com agências de rating e investidores.

Essa vantagem se inverteu com o avanço da dívida e a desaceleração das reservas. “Acabou o argumento retórico e técnico de ‘país credor líquido’, usado há quase duas décadas junto a agências de rating e investidores estrangeiros”, diz Felipe Tavares, economista-chefe da Monte Bravo. Para ele, o país “perdeu margem de manobra para absorver choques prolongados” sem pressão sobre o câmbio ou sobre os prêmios de risco.

A economista-chefe da KAT Investimentos, Elisa Machado, avalia que o descompasso entre dívida e reservas reforça a necessidade de reconstruir o colchão de dólares em momentos de tranquilidade. “Comprar na calma é mais barato”, afirma, defendendo que o governo aproveite janelas de forte ingresso de investimento direto e de câmbio mais estável para reforçar as reservas.

Como está o déficit externo e o fluxo de dólares?

O quadro mais recente das contas externas mostra piora. Em agosto, o resultado global foi deficitário em US$ 5,1 bilhões. O número reflete o saldo de todas as trocas do Brasil com o resto do mundo, incluindo comércio de bens, serviços, viagens, remessas de lucros e juros.

Na balança comercial de bens, houve superávit de US$ 6,6 bilhões no mês, sustentado por exportações de US$ 33,3 bilhões — alta de 12,1% na comparação anual — e importações de US$ 26,7 bilhões, com aumento de 9,4%. Esse ganho, porém, foi consumido por outros itens do balanço de pagamentos.

O déficit na conta de serviços chegou a US$ 5,3 bilhões em agosto, puxado por gastos maiores com transporte, propriedade intelectual, telecomunicações e aluguel de equipamentos. Na conta de renda primária, que inclui remessas de lucros e pagamentos de juros, o saldo também ficou amplamente negativo, pressionando o resultado final.

Pelo lado do financiamento, os investimentos diretos líquidos no país somaram US$ 7,4 bilhões em agosto, abaixo do observado um ano antes, mas ainda suficientes para cobrir o déficit do mês. Já os investimentos em carteira — aplicações em ações e títulos — tiveram saídas líquidas de US$ 5,2 bilhões, evidenciando um ambiente menos favorável ao capital de curto prazo.

Relação entre dívida externa e reservas internacionais

Embora as reservas de junho, de US$ 402 bilhões, não cubram mais toda a dívida externa bruta de US$ 407,1 bilhões, analistas ressaltam que o colchão de liquidez ainda é robusto. Levando em conta apenas a dívida de curto prazo, as reservas seguem superiores em mais de três vezes, um nível considerado confortável por parâmetros internacionais.

Parte da diferença entre as duas posições aparece nas estatísticas mais recentes de reservas operacionais. Em agosto, o estoque estava em US$ 372,6 bilhões, alta de US$ 2,9 bilhões em relação ao mês anterior, impulsionada por variações cambiais e receitas de juros sobre os ativos em dólar.

Para Felipe Kotinda, economista do Santander, o fato de a dívida bruta superar as reservas não configura, por si só, um quadro de fragilidade. “A preocupação surgiria se observássemos uma tendência persistente de aumento da dívida externa líquida acompanhada de redução de reservas, ampliação do déficit em conta corrente ou maior dependência de financiamento externo”, afirma. Segundo ele, “em termos históricos, o País continua muito distante dos níveis de vulnerabilidade observados há duas décadas”.

Mesmo com a virada para devedor líquido na conta consolidada, o Tesouro Nacional e as agências de rating ainda veem o governo federal como credor externo, já que as reservas superam com folga a dívida pública em moeda estrangeira. Pela conta do Tesouro, a diferença positiva entre reservas e dívida externa do setor público equivale a cerca de 6% do PIB.

O que significa para o Brasil perder a posição de credor internacional?

Perder a posição de credor internacional significa que, no agregado de governo, bancos e empresas, o Brasil voltou a ter mais obrigações do que ativos com o exterior. Na prática, isso aumenta a sensibilidade do país a choques externos prolongados, como ciclos de alta de juros globais, fuga de capitais ou queda mais forte nos preços de exportações.

O impacto imediato, porém, é mais de percepção e de margem de segurança do que de risco de crise. A dívida externa líquida ainda representa menos de 0,3% do PIB, e o país mantém câmbio flutuante, reservas volumosas e pouca exposição a dívida em moeda estrangeira, fatores que reduzem a chance de um aperto clássico de balanço de pagamentos.

Na visão das grandes agências de classificação de risco, a posição externa continua sendo um ponto de força, embora menor do que já foi. “O Brasil se destaca como um soberano com colchões externos muito robustos e também com dependência muito baixa dos mercados externos em moeda estrangeira”, diz Martinez, economista da Fitch. Ele afirma que “o fato de o Brasil ter forte liquidez externa, apesar de contar com uma moeda flexível, torna seu arcabouço macroeconômico particularmente robusto”.

William Foster, vice-presidente sênior da Moody’s, faz avaliação semelhante. “A posição externa é, hoje, uma força, e não uma fragilidade”, afirma. Segundo ele, a baixa dependência de endividamento em moeda estrangeira, o câmbio flexível, o volume de ativos externos, a base exportadora diversificada e a persistência do investimento direto estrangeiro “continuam sustentando a resiliência externa do País”.

Risco fiscal e próximos passos da política econômica

Se o balanço externo ainda funciona como amortecedor, o principal ponto de atenção permanece na área fiscal. Para Martinez, da Fitch, “o episódio ressalta a necessidade de um plano fiscal crível no próximo governo, a fim de mitigar riscos à estabilidade macroeconômica”. A avaliação é compartilhada por investidores, que associam a trajetória da dívida pública em reais ao apetite por financiar o país em moeda local.

Com juros internacionais elevados e maior competição global por capital — inclusive por investimentos ligados à inteligência artificial —, o custo do financiamento externo tende a subir, especialmente para emergentes. Elisa Machado avalia que esse ambiente pode reduzir o apetite por títulos brasileiros. “O efeito mais provável é encarecer e encurtar o financiamento em carteira”, diz.

O Tesouro Nacional, por sua vez, afirma ver como “bastante confortável” a cobertura da dívida externa e mantém a estratégia de aproveitar janelas de mercado para emitir títulos no exterior, diversificando moedas e prazos. A meta oficial é elevar gradualmente a fatia da dívida pública em moeda estrangeira para 7% do total, partindo de um patamar hoje abaixo de 4%, sem comprometer o equilíbrio entre custo, risco e exposição cambial.

Do lado do Banco Central e da equipe econômica, o desafio é conter o avanço do déficit em transações correntes e preservar o ingresso de investimento direto, ao mesmo tempo em que se reconstrói alguma folga nas reservas. Se o rombo externo permanecer elevado e o investimento direto desacelerar por incertezas fiscais ou regulatórias, o país pode entrar em uma zona mais delicada, com menos escudo para enfrentar choques.

Fontes: matéria original 1 · matéria original 2 · matéria original 3