Chile FC enfrenta desemprego 9,6% e crise econômica sob Kast
Desemprego de 9,6%, PIB em queda e combustíveis até 40% mais caros pressionam a economia chilena. Mineração despenca e governo restringe frango de Santa Catarina.

Economia Chilena
Alta no desemprego e aumento nos preços impactam negativamente o cenário econômico do Chile sob o governo Kast.
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O Chile enfrenta neste mês uma crise econômica com desemprego recorde de 9,6%, retração do PIB e explosão no preço dos combustíveis em Santiago e em outras regiões, enquanto a popularidade do presidente José Antonio Kast desaba e o país restringe a importação de produtos avícolas de Santa Catarina por causa da doença de Newcastle.
Qual é a situação atual da economia chilena sob o governo de Kast?
A economia chilena está em recessão técnica, com o PIB encolhendo 0,5% no primeiro trimestre e 0,2% no segundo, na maior queda desde a pandemia, e um mercado de trabalho pressionado pelo desemprego de 9,6%, o maior em mais de cinco anos.
A desaceleração atinge praticamente todos os setores. Os investimentos produtivos, públicos e privados, ficaram estagnados no segundo trimestre, em meio à fraqueza da construção civil e à incerteza gerada pelo plano de austeridade fiscal de Kast, que cortou 3% do orçamento de todos os ministérios, reduziu ou encerrou programas considerados “ineficientes” e freou investimentos públicos diretos.
O custo de vida também pesa no bolso. A inflação acumulada em 12 meses até julho é de 4,1%, puxada principalmente pelos combustíveis. A gasolina subiu cerca de 30% e o diesel mais de 40% desde o início da guerra no Irã, depois que o governo decidiu não intervir nos preços e repassar integralmente o choque do petróleo ao consumidor, no episódio apelidado de “bencinazo”.
A escolha de manter a política de preços atrelada ao mercado, em nome do equilíbrio das contas públicas, espalhou o aumento de custos por toda a economia, encarecendo transporte, alimentos e serviços. “A decisão afetou a confiança dos consumidores”, avalia Joan Domene, economista-chefe para América Latina de uma consultoria internacional.
Em tentativa de acalmar o setor privado, o ministro da Fazenda, Jaime Quiroz, ex-empresário, pediu moderação a empresários em Santiago. “Não percam a calma, nem se desesperem”, disse ele em encontro recente, ao comentar os indicadores negativos.
Mineração de cobre despenca e derruba projeções
A crise é agravada pela queda brusca da mineração, principal motor da economia chilena. A produção, especialmente de cobre, desabou 17,4% em agosto, na comparação anual, levando a atividade ao nível mais baixo em três décadas.
Interrupções operacionais em minas e condições climáticas adversas ao longo do inverno explicam parte da piora. O setor já vinha em tendência negativa e ainda enfrenta o desafio de menor concentração de cobre nas rochas, o que eleva custos e reduz margens.
Diante do tombo, o Banco Central chileno reduziu sua projeção de crescimento para este ano para um intervalo próximo de estabilidade, e organismos internacionais também enxergam o Chile entre as economias mais fracas da região em 2026.
Apesar do quadro adverso, analistas como Domene projetam uma possível recuperação da mineração e da economia a partir do primeiro trimestre do ano que vem, caso os preços globais de energia desacelerem, as operações sejam normalizadas e não surjam novos choques externos.
Entenda o contexto
José Antonio Kast assumiu o governo com discurso de choque liberal, prometendo reativar investimentos e geração de empregos por meio de forte ajuste fiscal e redução de impostos às empresas. A aposta central é a chamada “megarreforma”, pacote já aprovado pelo Congresso que prevê corte gradual da alíquota corporativa de 27% para cerca de 23% e garante estabilidade tributária de longo prazo a grandes projetos.
Ao mesmo tempo, o Executivo encaminhou ao Congresso uma Lei Orçamentária para 2027 com crescimento real de gastos de apenas 1,5%, patamar considerado austero até por padrões históricos do país. A oposição critica o impacto sobre programas sociais que atendem a população mais vulnerável, enquanto o governo argumenta que são políticas ineficientes.
A combinação de cortes, inflação de alimentos e energia e emprego fraco derruba o consumo das famílias. O índice de vendas de supermercados, por exemplo, registra queda em 12 meses, refletindo a perda de renda e a cautela do consumidor chileno médio.
Como a popularidade de Kast foi afetada pela crise econômica no Chile?
A crise minou rapidamente o apoio ao presidente. Pesquisas recentes indicam desaprovação em torno de 65%, o pior patamar desde o início do mandato, impulsionada pela percepção de piora nas condições de vida e pela sensação de que as promessas de campanha não se concretizaram.
O “bencinazo” virou símbolo desse desgaste. Ao optar por não amortecer o choque do petróleo para proteger o ajuste fiscal, Kast enfrentou protestos em Santiago e em outras cidades, com motoristas, pequenos empresários e trabalhadores reclamando da disparada do custo do transporte. Para o economista Nicolás Saldías, “o custo político para o governo foi muito elevado, pois a popularidade de Kast caiu rapidamente e não se recuperou”.
O desemprego em 9,6% e a inflação ainda acima do conforto da população reforçam a sensação de estagnação. Nas pesquisas qualitativas, eleitores que viram em Kast uma promessa de retomada econômica agora relatam frustração com a lentidão dos resultados e o foco quase exclusivo no equilíbrio das contas públicas.
Diante da pressão, o governo começou a ajustar o discurso. Medidas de estímulo pontuais, como um plano de emprego estimado em cerca de US$ 1,3 trilhão para criar mais de 100 mil postos entre 2026 e 2027 por meio de obras públicas e subsídios à contratação, sinalizam uma flexibilização da austeridade inicial, na tentativa de responder ao sentimento das ruas sem abandonar o compromisso com o déficit.
Por que as medidas do novo presidente do Chile levaram a uma crise com desemprego recorde?
O desemprego chegou a 9,6% em meio a uma política de forte austeridade fiscal, que reduziu gastos públicos e investimentos ao mesmo tempo em que aumentos de custos, sobretudo nos combustíveis, eram transferidos integralmente para a economia.
Logo no começo do governo, Kast cortou o orçamento de todos os ministérios, enxugou programas e desacelerou obras públicas, o que derrubou a demanda agregada. A construção civil, altamente dependente de investimento público e crédito barato, foi uma das mais atingidas, travando contratações e alimentando o fechamento de vagas.
Em paralelo, a decisão de não intervir na alta do petróleo após a guerra no Irã encareceu o transporte e a energia, pressionando empresas já fragilizadas. Muitas passaram a adiar planos de expansão e a reduzir quadro de funcionários, o que manteve os investimentos produtivos em terreno próximo de zero no segundo trimestre.
Economistas como Saldías ressaltam que, embora a disciplina fiscal tenha ajudado a reduzir o déficit, o aperto simultâneo em gasto e investimento públicos “também está reduzindo o crescimento econômico”, o que limita a criação de empregos no curto prazo.
Quais foram as razões para o Chile restringir importações de frango brasileiro?
A restrição às importações chilenas de produtos avícolas de Santa Catarina foi motivada pela confirmação de um foco da doença de Newcastle no estado, uma infecção viral altamente contagiosa que atinge aves domésticas e silvestres.
Para evitar a entrada e a disseminação da enfermidade no território chileno, as autoridades sanitárias decidiram suspender temporariamente a compra de produtos específicos originários da área afetada. A medida vale para ovos férteis, pintinhos, aves ornamentais, carne fresca de aves e produtos cárneos que contenham carne de aves produzidas em Santa Catarina.
O Ministério da Agricultura e da Pecuária (Mapa), no Brasil, atuou em conjunto com o governo chileno para delimitar a restrição apenas à região atingida, evitando um bloqueio mais amplo a toda a produção avícola brasileira. O objetivo é permitir o controle sanitário da doença sem interromper totalmente o fluxo comercial entre os dois países.
Como a suspensão da compra de produtos avícolas de Santa Catarina impacta o Chile?
O impacto imediato recai sobre a cadeia de proteína de frango no Chile, que terá de redirecionar compras para outros estados brasileiros ou para fornecedores de terceiros países enquanto durar a restrição a Santa Catarina.
Como a medida é localizada e foi negociada para não atingir o Brasil inteiro, o governo chileno espera minimizar efeitos sobre oferta e preços internos. Ainda assim, importadores e redes de supermercados podem enfrentar ajustes logísticos temporários, sobretudo em itens de maior valor agregado que tinham Santa Catarina como principal origem.
Para o agronegócio catarinense, a suspensão representa perda de um mercado relevante num momento em que o Chile, apesar da crise, segue sendo destino importante para carnes e processados. Do lado chileno, a prioridade declarada é proteger o status sanitário do rebanho e evitar que um eventual surto encareça ainda mais o custo de vida de uma população já pressionada pela inflação e pelo desemprego.
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