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Inteligência Artificial

Brasileiros ganham R$ 5 por vídeo para treinar robôs humanoides

Startup Hub usa celulares com sensor de profundidade para captar vídeos do cotidiano de mais de 1 milhão de brasileiros e treinar robôs humanoides, pagando por tarefas aprovadas.

Brasileiros ganham R$ 5 por vídeo para treinar robôs humanoides

Inteligência Artificial

Mais de um milhão de brasileiros participam de projeto inovador que remunera vídeos para aprimorar robôs humanoides.

Leia também: Pane em IA trava acesso a documentos e gera erro técnico hoje

A empresa de tecnologia Hub, sediada em San Francisco, transformou o Brasil em seu principal laboratório de dados para robôs humanoides: mais de 1 milhão de pessoas cadastradas no país gravam vídeos do próprio cotidiano, com o celular preso na cabeça, para alimentar sistemas de inteligência artificial em troca de pagamento por tarefa aprovada.

O que é o app de treinamento de IA defendido pela empresa?

O Minute Data é o aplicativo usado pela Hub para que os participantes registrem, em vídeo, atividades diárias sob a perspectiva do olho humano, incluindo informações de profundidade do ambiente captadas pelo sensor Lidar dos smartphones.

Na prática, o usuário coloca o celular em um suporte na cabeça, abre o app e grava cenas comuns do dia a dia — como cozinhar, arrumar a casa, caminhar na rua ou organizar objetos. O software sincroniza, em tempo real, as imagens em vídeo com os dados tridimensionais gerados pelo Lidar, o que permite que os robôs “enxerguem” não só cores e formas, mas também distâncias e volumes.

Esses arquivos são enviados para os servidores da Hub, onde passam por uma etapa de revisão e anotação técnica feita pela Flambra, braço operacional da empresa no Brasil. Só depois dessa validação o material é liberado para os clientes, que, segundo a companhia, incluem laboratórios de IA e fabricantes de robôs humanoides — nomes não são divulgados.

Como funciona o pagamento aos participantes

O modelo de remuneração é baseado em tarefa concluída e aprovada. Cada tipo de gravação tem um roteiro e um valor associado, que varia conforme a complexidade e a demanda. Sérgio Lourenço, CMO da Hub, afirma que “tarefas especializadas podem gerar pagamento de até R$ 100 por hora”.

Além do pagamento direto pelas gravações, a empresa incentiva a indicação de novos participantes. “A empresa diz que usuários chegam a faturar R$ 17 mil por semana com a indicação de novas pessoas”, afirma Lourenço. A Hub não detalha quantas das mais de 1 milhão de pessoas cadastradas estão, de fato, ativas, mas o executivo diz que a “grande maioria” grava tarefas com alguma frequência.

Todo o fluxo — cadastro, aceite de tarefas, gravação, envio e liberação do pagamento após aprovação — ocorre dentro do ecossistema operado por Hub e Flambra. Os valores são transferidos depois que o conteúdo passa pelo crivo técnico e atende aos requisitos combinados com os clientes.

Entenda o contexto

Ao contrário de modelos de IA baseados em texto, treinados com páginas da internet, robôs humanoides precisam aprender a agir em ambientes físicos imprevisíveis, como casas e ruas reais. Para isso, dependem de grandes volumes de gravações em primeira pessoa, em três dimensões, mostrando como humanos se movem, pegam objetos, desviam de obstáculos e interagem com o espaço.

Lourenço diz que países do Sudeste Asiático têm tradição em coleta de dados digitais, mas não suprem a necessidade específica da robótica. “Os países do Sudeste Asiático são muito experientes em coleta de dados, mas para a robótica precisamos de ambientes domésticos e urbanos variados. As gravações feitas no Brasil e nos EUA expõem os robôs a ambientes muito próximos do seu uso final. Por isso, viemos com força para o mercado brasileiro”, afirma.

Segundo o executivo, o Brasil foi escolhido como principal base latino-americana porque reúne grande população, diversidade de casas e cidades e hábitos domésticos considerados próximos aos de mercados prioritários para a Hub, como Estados Unidos, Canadá e países europeus.

Por que a empresa afirma que o app de IA ‘não é golpe nem tigrinho’?

A Hub tenta se diferenciar de esquemas financeiros suspeitos ao insistir que sua operação está ligada a uma cadeia produtiva real de tecnologia, com clientes corporativos e uso industrial dos dados coletados.

“Não se trata de ‘jogo do tigrinho’ ou golpe; é uma indústria real, de alta tecnologia, que está oferecendo uma alternativa de renda honesta e útil diretamente de dentro de casa”, diz Sérgio Lourenço. A fala responde à desconfiança de parte do público diante de promessas de ganho rápido via celular — um cenário marcado, nos últimos anos, por fraudes e aplicativos que misturam jogos, apostas e pirâmides financeiras.

Na versão da empresa, a diferença central está no produto vendido: não é aposta ou jogo, mas a venda de dados complexos para treinar robôs. Os vídeos, depois de revisados e anotados pela Flambra, são repassados a laboratórios de IA e fabricantes de robôs humanoides, que pagam pelos conjuntos de dados. É essa receita, argumenta a Hub, que sustenta os pagamentos feitos aos usuários.

Lourenço reconhece que, à distância, a atividade pode ser vista como precária, mas afirma que enxerga um caminho de qualificação. “Não estamos no país apenas para coletar dados, lucrar e ir embora. Temos uma visão profunda de responsabilidade social. Temos planos de fornecer treinamento em robótica e teleoperação, onde o profissional usa luvas e hardwares especiais para ensinar movimentos finos ao robô. Isso vai desbloquear um novo segmento de emprego”, diz.

Impactos para o trabalho e para a indústria

Ao transformar cenas comuns do cotidiano brasileiro em insumo para robôs humanoides, a Hub se coloca no centro de um debate maior sobre o futuro do trabalho. De um lado, o avanço da automação pode pressionar empregos tradicionais em setores de serviços e indústria. De outro, a empresa aposta na criação de novas funções ligadas à própria robótica, como teleoperadores que controlam ou ensinam máquinas à distância.

Os ganhos atuais para os participantes são apresentados como renda extra — com tarefas pontuais e missões especializadas mais bem pagas —, num arranjo que se encaixa na economia informal e digital. A empresa sustenta que, no médio prazo, a qualificação em teleoperação e treinamento de robôs pode se tornar um segmento de trabalho próprio, com demanda contínua por profissionais.

Para o setor de tecnologia, a iniciativa promete resolver um gargalo: a falta de dados realistas em três dimensões, em escala, para treinar robôs que precisem circular em casas, apartamentos, supermercados ou ruas de cidades grandes. Já segmentos como telecomunicações e fabricantes de smartphones também se beneficiam indiretamente, por dependerem do uso intensivo de aparelhos com sensores avançados, como o Lidar.

Planos de expansão e próximos passos

A Hub mantém operações em países como Estados Unidos e Emirados Árabes Unidos e mira uma expansão estruturada na América Latina, com foco em México e Argentina, mantendo o Brasil como principal base na região. A companhia prepara uma nova rodada de captação de recursos para acelerar o desenvolvimento da tecnologia e a escala da coleta nos próximos dois anos.

O futuro da operação no país, porém, depende de alguns fatores: manter o engajamento dos usuários, garantir a qualidade dos dados entregues aos clientes corporativos e se adaptar a eventuais mudanças nas regras de privacidade e uso de dados pessoais. À medida que robôs humanoides se aproximam da operação em larga escala em casas e empresas, os vídeos filmados hoje por brasileiros com o celular preso na cabeça tendem a ganhar peso nos bastidores dessa nova indústria.