Guilherme Cortez vê eleição de 2026 como recado de renovação
Deputado do PSOL diz que esquerda saiu do papel de “bombeiro” após o segundo turno, ganhou otimismo e agora precisa falar de futuro, usar redes e disputar a juventude com pautas concretas.

Política
Deputado do PSOL destaca otimismo e a importância de pautas concretas para engajar a juventude nas eleições futuras.
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O deputado Guilherme Cortez, 28, eleito o nono mais votado em São Paulo com 275,5 mil votos e prestes a deixar a Assembleia Legislativa para assumir uma cadeira na Câmara, avalia que as eleições de 2026 deram um “recado claro” de renovação e cobraram da esquerda uma atuação mais otimista, concreta e conectada às redes sociais para enfrentar a extrema direita.
Esquerda sai do pessimismo e aposta em pautas concretas
Para Cortez, que será um dos 14 deputados federais do PSOL em 2027, a virada veio no segundo turno da disputa presidencial, quando a campanha de Lula mudou o tom. “A esquerda precisa apresentar uma saída melhor, animadora. Foi isso que a campanha do Lula conseguiu fazer no segundo turno”, afirma.
Ele conta que, após o primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro apareceu à frente, uma reunião em Brasília com Lula, influenciadores digitais como André Janones e Ana Elisa e jovens quadros da esquerda marcou um ponto de inflexão. O diagnóstico foi direto: “Concluímos naquela reunião que você não ganha da extrema direita na inércia”, diz o parlamentar.
Na avaliação de Cortez, a partir dali o comando da campanha passou a priorizar propostas palpáveis, como o fim da escala 6×1 no mercado de trabalho, e a comunicação em vídeo e ao vivo nas redes. Lula intensificou a presença digital e convocou a militância a ocupar as ruas, o que, segundo o psolista, tirou o campo progressista do papel de “bombeiro”, apenas reagindo aos movimentos da direita radical.
Renovação etária e força da comunicação digital
Os números da votação, diz Cortez, confirmam a mudança de ciclo. A idade média dos dez deputados federais mais votados do país foi de 31,6 anos, todos com forte atuação em redes sociais, seis deles à direita e quatro à esquerda. Ao mesmo tempo em que figuras tradicionais como José Dirceu ficaram fora do Congresso, nomes jovens, com linguagem direta e repertório digital, ganharam protagonismo.
“O eleitor acelerou o processo de renovação da esquerda”, avalia o deputado, para quem o progressismo “precisa dessa juventude para ser relevante e continuar falando com uma nova geração que não tem fidelidade obrigatória à esquerda”. Ele cita a necessidade de disputar no mesmo terreno de influenciadores e políticos de direita como Nikolas Ferreira e Felipe Pavanato, que construíram bases massivas de seguidores.
Cortez argumenta que a nova geração cresceu sob crises econômicas sucessivas, pandemia e emergência climática, em um ambiente de urgência permanente alimentado pelas redes. Muitos desses jovens foram beneficiados por políticas como o Bolsa Família e o sistema de cotas, mas não conheceram o Brasil anterior a esses programas. “A gente precisa falar mais de futuro do que de passado”, resume.
Trajetória de rua até o Congresso
A leitura que faz do momento político está ligada à própria trajetória. Filho de publicitários da zona sul de São Paulo, criado em um ambiente de centro-direita “engomadinha”, como define, Cortez começou a se aproximar da política progressista ainda adolescente. Foi a atos contra o aumento da tarifa em 2013, participou da ocupação de escola contra a reorganização da rede estadual e militou em protestos contra o impeachment de Dilma Rousseff, as reformas trabalhista e da Previdência, o governo Jair Bolsonaro e a privatização da Sabesp.
Formado em Direito pela Unesp, ele quase entrou na Câmara Municipal de Franca em 2020, mas ficou de fora pelo quociente eleitoral. Dois anos depois, ganhou projeção ao enfrentar o ex-ministro Ricardo Salles em audiência pública, chamando-o de “ecocida”, e acabou eleito deputado estadual. Na Assembleia, apresentou projeto para incluir educação climática no currículo estadual, vetado pelo governo Tarcísio de Freitas, e assumiu bandeiras como o combate ao cambismo digital e a tarifas abusivas de ingressos.
Ao mesmo tempo, construiu pontes com figuras que antes eram vistas como rivais. Chegou a gravar vídeos ao lado de Geraldo Alckmin, hoje vice de Lula. “A extrema direita deu um salto tão grande que fez todo mundo se juntar, e não me arrependo”, diz.
Redes sociais, juventude e disputa com a direita
O deputado considera que a extrema direita entendeu antes o poder das redes em falar diretamente com frustrações cotidianas, ainda que oferecendo, na visão dele, “soluções falsas para problemas reais”. Ele cita o avanço de discursos antifeministas e masculinistas voltados a jovens homens. “Você ganha eleição, ganha quatro anos. Agora, se tem uma geração que vai votar pelos próximos 40 anos com ideias de que mulher não deveria votar, de tradwives, machos alfas e red pills, isso é muito pior do que perder uma eleição, porque daí você perde a perspectiva de futuro”, alerta.
Cortez promete atuar na Câmara justamente nos temas de trabalho e renda, áreas que considera decisivas para furar a bolha progressista, inclusive entre jovens. Ele quer integrar a Comissão de Trabalho e lembra que a pauta do fim da escala 6×1 foi levantada por parlamentares LGBTs do PSOL. “Sou uma pessoa LGBT, e por isso acham que a gente só vai falar sobre os nossos temas. Não existe isso, porque LGBTs também trabalham, dependem de transporte público”, afirma.
O deputado diz estar disposto a ser um contraponto direto a Nikolas Ferreira na Câmara. Na sua visão, o segundo turno presidencial mostrou que figuras da direita digital não são imbatíveis. “Por muito tempo ele nadou sozinho ou com poucos adversários à altura. Realmente, está sentado numa montanha de seguidores e consegue fazer um estrago. Mas o segundo turno mostrou que ele pode ser derrotado”, afirma.
Entenda o contexto
Na avaliação de Cortez, a ideia de que a esquerda brasileira teria se desligado completamente do “povão” é exagerada, já que o campo progressista continua vencendo eleições nacionais relevantes. Ao mesmo tempo, ele reconhece que houve perda de laços cotidianos em sindicatos, comunidades religiosas e associações de bairro, espaços que hoje são ocupados com mais força por setores conservadores.
Ele critica a forma como parte da militância trata o eleitor de direita, rejeitando rótulos generalizantes como “pobre de direita” ou a ideia de que todo bolsonarista é fascista convicto. “É uma ideia meio moralista de que nós somos racionalmente superiores. A esquerda aprendeu várias maneiras de xingar quem achamos que têm a obrigação de concordar com a gente. Isso só deixa as pessoas mais bravas”, diz.
Nesse cenário, Cortez aponta a necessidade de uma comunicação que traduza projetos progressistas em problemas e soluções do dia a dia, com linguagem simples e foco em serviços públicos, renda, aluguel, transporte e creche. Ele cita como referência quadros da esquerda internacional que falam sem rodeios sobre temas concretos ao mesmo tempo em que não escondem sua identidade ideológica.
Para o deputado, o desafio após a vitória de Lula é transformar o otimismo recuperado no segundo turno em projeto de longo prazo. Isso passa por consolidar a reorganização digital da esquerda, abrir mais espaço para novas lideranças e manter o foco em pautas que falem ao futuro de uma geração conectada, precarizada e bombardeada por discursos de ódio. Na leitura de Cortez, é essa combinação que pode manter a extrema direita sob disputa real nas próximas eleições.


