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Inteligência Artificial

IA elimina 3 mi empregos e fortalece 5 big techs, revela estudo

Inteligência artificial substitui tarefas em profissões qualificadas, barateia serviços, amplia demanda e concentra ganhos em poucas empresas, enquanto criadores humanos veem renda encolher.

IA elimina 3 mi empregos e fortalece 5 big techs, revela estudo

Inteligência Artificial

Estudo mostra impacto da IA na redução de empregos e na concentração de mercado em grandes empresas de tecnologia.

Leia também: Investimento bilionário em IA pressiona crédito e dívida global

A inteligência artificial já altera o mercado de trabalho em todo o mundo ao automatizar tarefas antes restritas a médicos, advogados, engenheiros, jornalistas, pesquisadores e artistas, ao mesmo tempo em que barateia serviços, amplia a oferta de bens e concentra o controle da tecnologia em poucas grandes empresas.

Quais empregos estão sendo mais afetados pela inteligência artificial?

As profissões mais impactadas pela IA hoje são as que dependem de atividades intelectuais estruturadas, como análise de dados, produção de texto, criação de imagens e elaboração de diagnósticos. Isso atinge diretamente áreas como medicina, direito, engenharia, jornalismo, pesquisa acadêmica e setores criativos, do mercado editorial à fotografia.

Segundo o engenheiro e professor Allan Kardec Duailibe Barros Filho, doutor em engenharia da informação e professor titular da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), sistemas de IA não pensam como humanos, mas já operam em escala suficiente para redesenhar a economia de vários segmentos. “Sistemas que geram textos, imagens e diagnósticos operam por probabilidades e possuem limitações matemáticas intrínsecas”, afirma. A limitação, porém, não impede o efeito econômico: com custo marginal muito baixo, essas ferramentas produzem em volume quase ilimitado.

Na prática, isso significa que tarefas antes executadas por equipes inteiras podem ser parcialmente automatizadas. Em redações, softwares geram textos preliminares; em escritórios de advocacia, rascunhos de petições e pesquisas de jurisprudência são feitos por IA; em consultórios e hospitais, diagnósticos por imagem e elaboração de laudos ganham apoio de algoritmos. Nem sempre há substituição direta de profissionais, mas a demanda por horas humanas se reduz ou muda de perfil.

Um dos efeitos mais visíveis aparece nas atividades criativas. Estudo publicado na revista científica Science mostra que a entrada massiva de conteúdo gerado por IA provoca o que os autores chamam de “diluição de mercado”. “A inundação de bens gerados por IA reduz a remuneração de criadores humanos, mesmo quando não há violação explícita de direitos autorais”, concluem Pamela Samuelson, Abhishek Nagaraj e Christopher Jon Sprigman.

Os números citados pela pesquisa ajudam a dimensionar a mudança. Em uma plataforma de fotografias, a oferta de imagens produzidas com IA aumentou 136%, enquanto as vendas dessas imagens cresceram 82%. No mesmo período, o número de artistas que publicavam fotografias sem uso de IA caiu 29%. No mercado editorial, a quantidade de livros disponíveis na Amazon quase triplicou entre 2022 e 2025, em boa parte impulsionada por ferramentas que aceleram a escrita e a diagramação.

Os estudos ainda divergem sobre a extensão do impacto sobre autores humanos. Um levantamento não encontrou evidência de deslocamento generalizado; outro identificou perdas relativas em segmentos específicos. Em comum, as análises apontam que, mesmo quando o trabalho humano não desaparece, sua fatia relativa na renda do setor tende a diminuir.

Como a IA está substituindo funções no mercado de trabalho?

A substituição ocorre função por função, mais do que profissão por profissão. Em vez de “acabar” com médicos ou jornalistas, a IA assume etapas do fluxo de trabalho, reduzindo o tempo – e o custo – necessário para cada tarefa.

Na medicina, algoritmos auxiliam na leitura de exames de imagem e na identificação de padrões em grandes bases de dados clínicos. Em escritórios de advocacia, plataformas geram rascunhos de contratos e organizam documentos. Na engenharia, softwares apoiados em IA sugerem soluções de projeto e simulam cenários complexos. Em redações e assessorias de imprensa, robôs produzem releases, resumos e até reportagens estruturadas a partir de bases públicas.

Essa automação intelectual aproxima profissionais qualificados do tipo de transformação que operários industriais já viveram em outras revoluções tecnológicas. A diferença é que, agora, não se trata só de força física ou tarefas repetitivas, mas de atividades que exigem formação longa e conhecimento especializado.

Allan Kardec resume essa ambiguidade: “A inteligência artificial certamente substituirá determinadas atividades e criará outras, mas ainda não sabemos seu efeito líquido sobre o emprego.” A redução de custos viabilizada pela IA tende a baratear produtos e serviços, o que aumenta a demanda e pode abrir novas frentes de trabalho – por exemplo, em personalização de atendimento, curadoria de conteúdo, supervisão de sistemas e desenvolvimento de aplicações específicas.

Essa lógica já aparece na fotografia e no mercado editorial. Com a avalanche de imagens e livros gerados com apoio de IA, cresce a necessidade de filtros, recomendações, revisão e edição humana para selecionar o que realmente interessa ao público. Ao mesmo tempo, muitos profissionais que não conseguem se reposicionar em atividades complementares perdem espaço.

Entenda o contexto

A discussão sobre IA e emprego se insere em uma relação histórica contraditória da sociedade com suas próprias tecnologias. A humanidade protesta contra combustíveis fósseis, mas segue consumindo petróleo, gás natural e carvão em volumes recordes: em 2025, essas fontes responderam por 86% da oferta mundial de energia, de acordo com o Energy Institute. No campo digital, algo semelhante ocorre: cresce o desconforto com os riscos da IA, enquanto empresas e usuários aceleram sua adoção.

Essa tensão não é nova. No início da industrialização, os luditas destruíam máquinas têxteis em defesa de seus empregos. Hoje, parte da resistência parte dos próprios protagonistas da revolução tecnológica. Empresários como Elon Musk e outros executivos chegaram a defender uma pausa no desenvolvimento de sistemas avançados, em manifesto público, antes de retomarem a corrida por modelos cada vez mais potentes.

A IA atual se diferencia de ondas anteriores de inovação por atacar diretamente o trabalho intelectual. A mecanização tirou peso do esforço físico; os computadores assumiram tarefas de cálculo e processamento. Agora, a automação invade camadas de criação, interpretação e decisão que pareciam exclusivas de humanos.

Ao mesmo tempo, o controle da infraestrutura que sustenta esses sistemas – semicondutores de ponta, energia em grande escala, centros de dados e investimentos bilionários – está concentrado em poucas empresas globais. Milhões de pessoas usam ferramentas de IA em celulares e computadores, mas a capacidade de treinar e operar os modelos mais avançados continua nas mãos de gigantes de tecnologia.

Essa assimetria levanta uma questão central: quem se apropria dos ganhos de produtividade gerados pela IA? Mesmo que a produção de conteúdo, diagnósticos e serviços se torne mais acessível, a captura do valor tende a se concentrar onde estão os data centers, os chips e o capital. A distribuição dos benefícios dependerá da concorrência entre empresas, da difusão da tecnologia e das regras definidas por governos e instituições econômicas.

Para Allan Kardec, a grande dificuldade não é apenas lidar com a potência das novas ferramentas, mas encarar as consequências. “Queremos produzir mais, consumir mais e viver melhor, sem aceitar as transformações que tornam tudo isso possível”, escreve o professor. Na visão dele, a IA funciona como um espelho: não cria a contradição entre desejo de progresso e rejeição aos custos sociais, apenas a torna mais visível.

Regulações sobre uso de dados, direitos autorais, transparência algorítmica e responsabilidade por danos começam a ser discutidas em vários países. O estudo publicado na Science projeta que a “diluição de mercado” deve alimentar pressões por novas regras para proteger criadores humanos, não só em casos de cópia direta, mas diante da simples inundação de produtos artificiais.

Enquanto o efeito líquido da IA sobre o emprego permanece em aberto, especialistas convergem em dois pontos: resistir à tecnologia não a impede de avançar, e ignorar os prejuízos de curto prazo sobre grupos específicos apenas aumenta a desigualdade. No centro do debate estão políticas de requalificação profissional, proteção social para trabalhadores afetados e formas de repartir melhor os ganhos de produtividade que a inteligência artificial promete gerar.