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Inteligência Artificial

Influenciadores de IA faturam R$ 1 bi e geram alerta global

Personagens hiper-realistas como Jean Phil e Marisa Maiô conquistam milhões de visualizações, assinam campanhas e levantam dúvidas sobre ética, transparência e risco de fraude.

Influenciadores de IA faturam R$ 1 bi e geram alerta global

Inteligência Artificial

Personagens virtuais ganham destaque e provocam debates sobre ética e segurança no mercado digital.

Leia também: Investimento bilionário em IA pressiona crédito e dívida global

Influenciadores digitais criados por inteligência artificial, como o francês Jean Philanthrope (Jean Phil) e a brasileira Marisa Maiô, deixam o campo da curiosidade tecnológica e disputam hoje espaço real com criadores humanos em campanhas publicitárias, contratos com grandes marcas e milhões de visualizações nas redes sociais — enquanto crescem as suspeitas de fraudes e a pressão por regras de transparência.

Como funcionam os influenciadores digitais de IA

Esses influenciadores de inteligência artificial são personagens digitais desenhados para ocupar nas redes sociais o mesmo lugar de um criador humano: publicam fotos e vídeos, mantêm uma personalidade consistente, respondem a comentários e fecham acordos comerciais.

No caso de Jean Phil, o personagem de cabelo loiro, bigode e terno aparece dançando e fazendo movimentos de boxe em ruas movimentadas de Paris e Bruxelas. Um dos primeiros vídeos do influenciador Jean Phil ultrapassou 36 milhões de visualizações no Instagram em poucos dias, impulsionando o perfil a um público global.

O criador do personagem confirmou à imprensa belga que a IA é parte importante da produção, mas disse que os vídeos não são inteiramente gerados artificialmente. A técnica mais usada hoje não cria tudo do zero: primeiro se grava uma pessoa real em um cenário físico; depois, softwares de IA substituem digitalmente rosto, corpo, cabelo e roupas pela aparência do personagem virtual, preservando movimentos e ambiente originais.

Para manter o visual consistente entre diferentes posts, os criadores trabalham com imagens de referência do personagem. O sistema lê essas referências e, a cada novo vídeo, reconstrói o mesmo rosto, o mesmo corte de cabelo e as mesmas proporções de corpo, o que reduz a sensação de “boneco genérico” que marcava a primeira geração de influenciadores artificiais.

Ainda assim, o efeito não é perfeito. Mudanças bruscas de luz, ângulos pouco comuns, objetos cruzando a frente da pessoa ou movimentos muito rápidos ainda geram pequenas falhas: distorções em mãos, contornos borrados ou sombras estranhas que entregam a interferência da IA.

Entenda o contexto

Os casos de Jean Phil, na Europa, e de Marisa Maiô, no Brasil, ajudam a ilustrar o salto recente dessa tecnologia. Marisa foi uma das primeiras personagens a ganhar popularidade nacional e a ser contratada para campanhas publicitárias com grandes empresas de varejo, serviços online e bebidas. Depois de ganhar público nas redes, a personagem fechou publicidades com marcas como Magazine Luiza, OLX e Amstel.

Naquela fase, ainda era relativamente simples para o usuário comum perceber que se tratava de um vídeo gerado por IA. Hoje, com modelos mais avançados, muitos desses perfis passam por pessoas reais, especialmente em telas pequenas, como as do celular, e em vídeos curtos, otimizados para consumo rápido.

Esse avanço alimenta discussões sobre a chamada “internet morta”, teoria segundo a qual uma fatia crescente do conteúdo online — de notícias a vídeos virais — é produzida por sistemas automáticos e bots, não por pessoas. A explosão dos influenciadores artificiais é vista como um capítulo concreto dessa transformação.

Como esses personagens ganham dinheiro

Mesmo sem existir fisicamente, os influenciadores de IA já movimentam dinheiro de gente grande. O modelo de monetização replica o dos criadores humanos: publicações patrocinadas, participação em campanhas, presença em ações de marca e licenciamento da imagem do personagem para uso em peças publicitárias ou produtos.

Como não têm agenda própria, limitações físicas ou demandas pessoais, esses avatares podem ser produzidos em escala, em qualquer cenário e idioma, em teoria durante 24 horas por dia. Para anunciantes, isso significa controle total da mensagem, ausência de “escândalos pessoais” e facilidade para testar versões diferentes de campanhas com o mesmo rosto digital.

Para influenciadores humanos, por outro lado, a chegada desses concorrentes sintéticos aumenta a pressão por desempenho e diferenciação. Personagens virtuais podem ser ajustados de acordo com dados de audiência, envelhecer ou rejuvenescer sob medida, mudar de estilo em segundos e aparecer simultaneamente em ações para públicos distintos, algo impossível para uma pessoa real.

Riscos de fraude e crise de confiança

O sucesso de Jean Phil evidenciou também o lado mais nebuloso desse mercado. Enquanto os vídeos viralizavam, o perfil promovia uma criptomoeda associada ao personagem, batizada de JEANPHIL. Nas redes sociais, o projeto foi acusado de participar de um esquema de “pump and dump” — quando o preço de um ativo é inflado artificialmente para atrair compradores e depois despenca, deixando prejuízo para quem entrou por último.

Até agora, análises disponíveis não encontraram evidências que confirmem a acusação, mas o caso foi suficiente para acender o alerta entre especialistas em finanças digitais e direito do consumidor. A combinação de personagens hiper-realistas, audiência massiva e produtos financeiros de alto risco é vista como explosiva em um ambiente em que muitos seguidores confundem simpatia com credibilidade.

Depois que Jean Phil alcançou popularidade mundial, o criador retirou da conta a divulgação da criptomoeda, em um movimento interpretado como tentativa de reduzir o desgaste em torno do personagem.

No centro do debate está a noção de autenticidade. Quando parte do público sequer percebe que acompanha um influenciador de IA, fica mais difícil entender quem se responsabiliza por recomendações de investimento, dicas de saúde ou indicações de produtos. Sem regras específicas, a linha entre publicidade, entretenimento e promoção enganosa tende a ficar ainda mais borrada.

Pressão por transparência e nova regulação

A ascensão dos influenciadores artificiais empurra reguladores, marcas e plataformas para uma zona cinzenta. Há quem defenda rótulos obrigatórios, deixando claro quando se trata de um personagem gerado por IA e quando há ofertas comerciais atreladas, especialmente em áreas sensíveis, como investimentos e serviços financeiros.

Entidades de defesa do consumidor argumentam que o mínimo exigido deveria ser transparência sobre quem controla o personagem, quem lucra com cada ação publicitária e quais critérios são usados para selecionar produtos anunciados. Nos bastidores, agências de publicidade e empresas de tecnologia discutem códigos de conduta próprios, numa tentativa de evitar restrições mais duras impostas por lei.

A tendência é que novos casos como os de Jean Phil e Marisa Maiô se multipliquem, com personagens cada vez mais realistas, maior participação em campanhas globais e mais pressão para que plataformas e governos definam limites claros para monetização, uso da imagem e responsabilidade em casos de fraude.