Alta dos planos de saúde nos EUA freia salários e aperta gastos
Contribuições de empresas para planos de saúde sobem 6,4% e limitam reajustes salariais, enquanto prêmios do ACA disparam, adesão cai e seguradoras deixam o mercado.

Economia
Impactos do aumento dos custos dos planos de saúde nos EUA afetam salários e consumo das famílias.
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O avanço dos custos dos planos de saúde nos Estados Unidos está freando os aumentos de salários e empurrando mais despesas para os trabalhadores, justamente no início da nova temporada de renovação de coberturas, que define quanto empregados e consumidores independentes pagarão em 2026 e 2027.
Planos mais caros, salários menores
Dados recentes do índice de custo do emprego mostram que salários e ordenados subiram 3,1% no terceiro trimestre em relação ao mesmo período do ano passado. No mesmo intervalo, porém, as contribuições das empresas para planos de saúde deram um salto de 6,4%, ritmo mais que o dobro da alta de 3% registrada em anos anteriores.
Segundo o economista Guy Berger, senior fellow no Burning Glass Institute, essa mudança aparentemente pequena tem peso real no bolso. “Se as contribuições dos empregadores tivessem crescido a 3%, o crescimento salarial seria cerca de 0,2 a 0,3 pontos percentuais mais rápido hoje”, afirma. Em um cenário em que muitos americanos recorrem a planos de pagamento parcelado para despesas básicas, essa diferença pode significar fôlego ou aperto adicional no orçamento.
Berger aponta ainda que o número oficial tende a subestimar a pressão sobre os trabalhadores. Como os custos dos planos disparam acima do que as empresas estão dispostas a absorver, a fatia paga diretamente pelos funcionários aumenta. “Os empregados estão pagando uma parcela maior dos prêmios”, diz o economista.
Ao mesmo tempo, os planos corporativos oferecem menos cobertura, com franquias e coparticipações mais altas. Isso eleva os gastos diretos com consultas, exames e medicamentos, reduzindo ainda mais o ganho efetivo que o trabalhador enxerga no fim do mês.
Mercado do ACA enfrenta alta dupla e fuga de usuários
Entre quem compra planos individuais no mercado do Affordable Care Act (ACA), a situação é ainda mais dura. Estimativas da organização de pesquisa em saúde KFF indicam que os prêmios médios de um plano intermediário para uma pessoa de 40 anos vão subir 13% em 2027, após uma disparada de 26% neste ano.
Na prática, o valor médio mensal para esse tipo de plano deve alcançar US$ 704 em 2027, ante US$ 624 em 2026 e US$ 497 em 2025. A sequência de aumentos é impulsionada tanto pelo encarecimento de hospitalizações e medicamentos quanto por uma mudança estrutural no mercado: o fim dos subsídios ampliados criados na pandemia.
Com a redução desses incentivos, mais pessoas passaram a considerar os prêmios altos demais e deixaram o sistema. Até fevereiro, a adesão ao ACA já tinha caído 12% em relação ao ano anterior, para cerca de 19,2 milhões de inscritos, e o setor indica que a saída continua desde então.
A retirada ocorre, em grande parte, entre usuários mais jovens e saudáveis, o que desequilibra o risco das carteiras. Com uma base de clientes mais doente e que usa mais serviços, as seguradoras repassam custos extras aos prêmios, alimentando um ciclo de alta.
Menos seguradoras, menos opções
O encarecimento e a incerteza afastam também as próprias empresas de seguro. Levantamento da KFF aponta que, até o fim de outubro, houve 31 saídas de seguradoras de mercados estaduais do ACA, contra apenas oito entradas. Em algumas regiões, isso significa uma redução drástica da oferta de planos, com consumidores limitados a uma ou duas opções.
Para a KFF, o movimento é um sinal de deterioração do mercado. A entidade alerta que, se nada mudar, a tendência é de mais pressão adiante. “Alguns inscritos que conseguiram manter a cobertura em 2026 podem não conseguir mais arcar com os custos em 2027”, avaliou a organização em nota recente.
Menos concorrência tende a alimentar aumentos adicionais de preço, enquanto a saída de usuários saudáveis mantém o ciclo de prêmios mais caros, afetando especialmente autônomos e trabalhadores com empregos informais, que dependem do ACA para ter qualquer tipo de proteção.
Entenda o contexto
O impacto do avanço dos custos de saúde vai além dos holerites. Ao direcionar uma fatia maior de seus orçamentos para pagar planos de funcionários, as empresas perdem espaço para conceder reajustes salariais mais robustos ou investir em novas contratações.
Para as famílias, a combinação de prêmios mais altos, coberturas mais enxutas e maior participação direta em despesas médicas corrói o poder de compra, mesmo com um mercado de trabalho próximo do pleno emprego. A percepção de que o salário “não acompanha” o custo de vida ajuda a explicar a queda da confiança do consumidor, apesar de indicadores positivos de emprego.
Economistas e organizações de pesquisa em saúde alertam que, sem mudanças estruturais ou intervenção política, a escalada dos custos dos planos de saúde tende a continuar pressionando salários, ampliando a ansiedade financeira dos trabalhadores e mantendo o tema no centro do debate econômico e eleitoral nos Estados Unidos.
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