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Gestão

Choques e guerra limitam crescimento das Filipinas a 3,7% em 2026

Presidindo a ASEAN em 2026, as Filipinas sofrem com energia cara, inflação em 7,2%, cortes em gastos públicos e juros em alta, e veem crescimento cair para 3,7%, abaixo dos vizinhos.

Choques e guerra limitam crescimento das Filipinas a 3,7% em 2026

Economia

Desafios econômicos e geopolíticos impactam o crescimento das Filipinas durante sua presidência na ASEAN em 2026.

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Presidindo a ASEAN em 2026 e cercadas de expectativas de um salto econômico, as Filipinas chegam ao fim do ano como exemplo de frustração: choques de energia ligados à guerra entre EUA e Irã, inflação em alta, cortes em gastos públicos após escândalos e juros mais elevados mantêm o país em um ciclo de subdesempenho, com previsão de crescimento de apenas 3,7% e perda de espaço para vizinhos como o Vietnã.

Qual é o principal desafio econômico que as Filipinas enfrentam em 2026?

O principal desafio das Filipinas em 2026 é romper um ciclo recorrente de subdesempenho econômico, em que choques externos expõem fraquezas internas, como energia cara, corrupção e instituições frágeis, impedindo que o país converta seu potencial em crescimento sustentável.

O conflito entre Estados Unidos e Irã, iniciado neste ano, elevou os preços globais do petróleo e de insumos como fertilizantes. Para um país fortemente dependente de combustíveis importados e já conhecido por ter alguns dos custos de eletricidade mais altos do Sudeste Asiático, o impacto foi imediato: pressão sobre a inflação, perda de competitividade industrial e encarecimento geral do custo de fazer negócios.

Em abril, a inflação voltou ao pico de 7,2%, puxada pelos combustíveis, fertilizantes e pela desvalorização do peso frente ao dólar. Para conter a escalada de preços, o Bangko Sentral ng Pilipinas vem elevando seguidamente as taxas de juros, num aperto monetário que freia o consumo das famílias e inibe o investimento privado, dois pilares centrais da economia filipina.

“Por décadas, as Filipinas foram descritas como um país de enorme promessa. Tem uma população jovem, um grande mercado doméstico, uma localização estratégica e uma força de trabalho altamente capacitada”, afirma Ruben Carlo Asuncion, economista-chefe do Union Bank of the Philippines. “A questão mais importante é se o país finalmente pode se libertar de seu ciclo recorrente de subdesempenho”, completa.

Choques externos expõem fragilidades internas

A presidência da ASEAN em 2026 chegou cercada pela expectativa de que o país usaria a vitrine regional para atrair investimentos, acelerar projetos de infraestrutura e se aproximar das economias mais dinâmicas do bloco. No início do ano, a combinação de inflação mais baixa, juros em queda, consumo doméstico resiliente e obras públicas alimentou previsões de que o PIB avançaria acima de 5%.

Esse cenário virou. O encarecimento do petróleo com a guerra no Oriente Médio e os novos choques de preços derrubaram as projeções. Peter L. U, decano de economia da University of Asia and the Pacific, relata que as estimativas da instituição “indicavam crescimento do PIB acima de 5%, mas cortes nos gastos públicos e alta do petróleo reduziram para 3,7%”. Os cortes vieram na esteira de um escândalo bilionário envolvendo infraestrutura de controle de enchentes, que travou desembolsos em áreas consideradas estratégicas.

Para além da conjuntura, economistas apontam que o problema central está na qualidade das instituições e da governança. Escândalos recorrentes, burocracia pesada e incerteza regulatória tornam mais difícil transformar o interesse dos investidores em projetos concretos. Ao mesmo tempo, a dependência de energia importada e a demora em diversificar a matriz elétrica deixam o país vulnerável a choques externos, como o atual conflito no Oriente Médio.

Entenda o contexto

Mesmo com as dificuldades de 2026, o Banco Mundial reclassificou as Filipinas como economia de renda média alta neste ano — um marco simbólico, mas longe de significar chegada ao “clube dos ricos”. Asuncion descreve a mudança de patamar como um “marco, não um destino”, e ressalta que muitos países atingem essa faixa de renda, mas poucos conseguem dar o salto seguinte e manter crescimento de qualidade ao longo do tempo.

O contraste mais citado por analistas é com o Vietnã, que também alcançou o status de renda média alta, mas com um dinamismo econômico bem maior. A projeção para o PIB vietnamita em 2026 é de 7,8%, mais do que o dobro da taxa esperada para as Filipinas. Nas exportações, a distância é ainda mais expressiva: nos primeiros oito meses do ano, o Vietnã somou US$ 375 bilhões em vendas externas, ante apenas US$ 64 bilhões das Filipinas.

Internamente, as Filipinas contam com uma população de mais de 115 milhões de pessoas, majoritariamente jovem, o que cria um amplo mercado consumidor e uma força de trabalho numerosa. O país está em um “bônus demográfico” desde meados da década passada, com a maior parte da população em idade ativa. Mas especialistas alertam que essa janela de oportunidade não é eterna e já começa a se estreitar com a queda das taxas de natalidade e sinais de deterioração na qualidade da educação.

Inflação alta, moeda fraca e juros em subida

O choque de energia agravou pressões que já vinham da desvalorização do peso frente ao dólar. Combustíveis, fertilizantes e diversos itens importados ficaram mais caros, alimentando a inflação em cadeia, dos preços ao produtor até o varejo. Em abril, o índice de inflação atingiu 7,2%, e voltou a rondar esse nível após uma nova alta do petróleo associada à escalada recente dos combates no Oriente Médio.

Michael Ricafort, economista-chefe do Rizal Commercial Banking Corporation, alerta para os chamados “efeitos de segunda ordem”, quando a alta inicial de preços se espalha por toda a economia. Segundo ele, o encarecimento do transporte, o repasse de custos por empresas, a piora das expectativas e os reajustes salariais podem empurrar a inflação ainda mais para cima.

Um ponto de atenção é o aumento do salário mínimo diário em Manila, de 695 para 755 pesos filipinos em setembro, o equivalente a uma alta de US$ 10,91 para US$ 11,85 em dólar. “O aumento do salário mínimo em Manila pode levar a reajustes salariais em outras regiões”, diz Ricafort. Isso alivia parcialmente a perda de poder de compra, mas pressiona a folha de pagamento das empresas e pode alimentar novas rodadas de reajustes de preços.

Para tentar domar a inflação, o Bangko Sentral ng Pilipinas vem subindo os juros de referência desde o começo do ano, em uma política monetária mais dura. “O Banco Central tem aumentado as taxas de juros para conter a inflação, o que vai frear o consumo”, afirma Ricafort. Como o gasto das famílias é tradicionalmente o motor do PIB filipino, o aperto de crédito ameaça esfriar ainda mais a atividade econômica nos próximos meses.

Investimento travado e energia cara pesam sobre a indústria

Além da perda de poder de compra da população, os setores produtivos sofrem com o custo elevado de energia. As tarifas de eletricidade nas Filipinas estão entre as mais altas do Sudeste Asiático, o que impacta diretamente a competitividade de indústrias intensivas em consumo elétrico, como manufatura, siderurgia e setores ligados a tecnologia.

Segundo analistas, investidores estrangeiros continuam encontrando dificuldades para localizar projetos com retorno atraente diante de tantos entraves. A burocracia complexa, a exigência de múltiplas licenças e a percepção de corrupção elevam o risco e o custo de cada investimento, enquanto os gargalos em infraestrutura — de portos a sistemas de transporte urbano e logística — ameaçam cronogramas e margens de lucro.

O escândalo bilionário envolvendo obras de controle de enchentes, que levou a cortes em gastos públicos, é visto por economistas como um símbolo dessa disfunção institucional. Para eles, a interrupção de investimentos em infraestrutura por causa de suspeitas de corrupção não apenas prejudica projetos específicos, mas alimenta a desconfiança geral na capacidade do Estado de planejar e executar políticas de longo prazo.

População jovem, mas janela demográfica se estreita

Apesar do quadro difícil, especialistas insistem que as bases para um crescimento mais robusto existem. As Filipinas seguem com um dos perfis demográficos mais favoráveis da região, com idade média abaixo de 25 anos e grande parte da população em idade de trabalho. Esse “bônus demográfico” é um dos trunfos do país em setores como serviços e terceirização de processos de negócios, área em que o país se consolidou como polo global.

Mas há sinais de que essa vantagem pode não durar sem reformas. Com a queda gradual da taxa de natalidade e preocupações crescentes com a qualidade da educação, acadêmicos alertam para o risco de a economia entrar na fase de envelhecimento populacional antes de ter se tornado realmente rica. A expansão da inteligência artificial, por sua vez, ameaça justamente segmentos que se apoiam em mão de obra jovem e dominam tarefas repetitivas e de média qualificação.

Para o decano Peter L. U, a mudança de classificação de renda é importante, mas deve ser lida com cautela. “É como uma criança que fez 13 anos, mas continua a mesma pessoa com a mesma maturidade de ontem”, diz. “Esse adolescente vai precisar continuar trabalhando muito para aprender mais, adquirir mais habilidades e virtudes para se tornar adulto.”

O que especialistas dizem sobre as perspectivas de crescimento das Filipinas após 2026?

A projeção central de analistas e organismos internacionais é de que as Filipinas voltem a crescer em torno de 5,2% em 2027, apoiadas em maior gasto público e em uma inflação mais controlada, mas há ceticismo sobre a capacidade do país de manter esse ritmo sem enfrentar suas fragilidades estruturais.

As estimativas indicam que parte das pressões sobre os preços globais de energia pode diminuir no próximo ano, caso a guerra entre EUA e Irã perca intensidade ou seja contida diplomaticamente. Nesse cenário, o alívio nos custos de combustíveis ajudaria a derrubar a inflação interna e abriria espaço para o Banco Central reduzir gradualmente os juros, destravando consumo e investimento.

O governo também promete ampliar o investimento em infraestrutura e acelerar projetos parados, aproveitando a visibilidade da presidência da ASEAN. A expectativa é que iniciativas regionais em discussão, como acordos de economia digital, facilitem o fluxo de comércio e serviços e reforcem o papel das Filipinas como hub de tecnologia e de serviços no Sudeste Asiático.

Ainda assim, economistas como Asuncion insistem que o verdadeiro teste está na governança doméstica. “Economias inevitavelmente enfrentam choques externos. O que diferencia economias bem-sucedidas das que lutam é a força das suas instituições e a capacidade de responder de forma eficaz”, afirma. Para ele, o episódio da crise de energia evidenciou a dependência do país de combustíveis importados, enquanto o escândalo nas obras de enchentes reforçou preocupações com transparência, responsabilização e uso eficiente de recursos públicos.

Peter L. U faz diagnóstico semelhante ao recordar que conflitos no Oriente Médio e escândalos de corrupção “são quase recorrentes” na história recente do país. Sem reformas consistentes em governança, ambiente de negócios e educação, a tendência é que choques externos voltem a encontrar uma economia vulnerável, presa a um padrão de crescimento aquém do potencial.

Para 2027 e além, o consenso entre especialistas é que não há saída fácil. Romper o ciclo de promessas não cumpridas exige enfrentar interesses estabelecidos, reduzir a burocracia, fortalecer instituições de controle e planejar uma transição energética que reduza a exposição a crises internacionais. Sem isso, dizem, as Filipinas correm o risco de continuar sendo, por mais algum tempo, o país “sempre promissor” do Sudeste Asiático.