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Política

Flávio Bolsonaro nos EUA enfrenta campanha intensa por deportação

Chegada de Flávio Bolsonaro aos EUA às vésperas das midterms aciona campanha nas redes por sua deportação. Especialistas dizem que decisão cabe ao governo Trump, não ao Congresso.

Flávio Bolsonaro nos EUA enfrenta campanha intensa por deportação

Política Internacional

Flávio Bolsonaro enfrenta pressão nos EUA com campanha por sua deportação antes das eleições de meio de mandato.

Leia também: Edição especial da Folha sobre reeleição de Lula esgota em 24h

O desembarque do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nos Estados Unidos, na semana que antecede as eleições de meio de mandato, desencadeia uma campanha nas redes sociais pela sua deportação e expõe o limite de atuação do Congresso americano diante de decisões migratórias, que seguem sob controle do governo Donald Trump.

Campanha por deportação e disputa política

Desde que Flávio chegou ao território norte-americano, brasileiros passaram a acionar candidatos democratas com pedidos públicos para que o senador seja expulso do país. A hashtag #DeportTheBolsonaros esteve entre as mais compartilhadas no X no Brasil em 30 de outubro, impulsionada por opositores do bolsonarismo e críticos de Trump.

Nesse ambiente, o comentarista político e membro do Partido Democrata Isaiah Martin vem defendendo nas redes a deportação do senador brasileiro caso a oposição conquiste maioria no Congresso nas midterms, que renovam toda a Câmara dos Deputados e cerca de um terço do Senado.

Ao mesmo tempo, a imprensa americana relata suspeitas de que assessores de Trump e do presidente argentino Javier Milei teriam ajudado na fuga de Flávio do Brasil até sua entrada nos EUA, o que alimenta pedidos para que o episódio seja alvo de apurações no Legislativo norte-americano.

O Congresso pode deportar Flávio Bolsonaro?

Especialistas em relações internacionais são unânimes em afirmar que o Congresso dos EUA não tem competência para ordenar deportações. “Não se pode pensar que o Congresso tem o poder de deportar alguém. Isso não está na sua incumbência, não está na sua jurisdição”, afirma Roberto Uebel, coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM) e professor da ESPM.

As decisões sobre entrada, permanência, revogação de vistos e deportação de estrangeiros são atribuição do Poder Executivo. “A concessão ou a revogação de vistos é uma atribuição do Departamento de Estado, chefiado por Marco Rubio”, explica Vitelio Brustolin, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF). Também participa do processo o Departamento de Segurança Interna (DHS), responsável pela política migratória no dia a dia.

Brustolin lembra ainda que há diferenças importantes entre revogação de visto, deportação e expulsão. A retirada do visto não significa saída imediata do país; a deportação exige um procedimento legal que pode incluir audiências e recursos; já a expulsão, quando prevista, leva à saída obrigatória conforme as regras migratórias aplicáveis.

O que uma maioria democrata poderia fazer

Mesmo sem poder assinar uma ordem de deportação, um Congresso de maioria democrata teria instrumentos para aumentar o custo político da permanência de Flávio nos EUA. “Um Congresso com maioria democrata poderia pressionar o governo Trump a prestar esclarecimentos sobre a entrada e permanência do senador brasileiro”, avalia Uebel.

Segundo Brustolin, bastaria maioria na Câmara para abrir uma investigação parlamentar. Uma comissão poderia examinar se houve favorecimento na concessão de vistos para Flávio Bolsonaro e sua família, na autorização de entrada nos EUA ou na manutenção de seu status migratório. O secretário de Estado, Marco Rubio, poderia ser convocado a depor.

Essas apurações, porém, esbarrariam em limites de acesso a documentos sigilosos e em possíveis alegações de privilégio do Executivo. A Casa Branca pode tentar restringir a liberação de comunicações internas, o que costuma gerar disputas jurídicas e políticas, mas não impede totalmente a fiscalização parlamentar.

Para o professor Tomaz Paoliello, coordenador do mestrado em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais da PUC-SP, mesmo um Congresso “poderoso” tende a usar sua capacidade de pressão com parcimônia nesse caso. “Particularmente, no caso do Flávio Bolsonaro, não é uma coisa tão importante – ou pelo menos eles não têm dado muita importância”, diz.

Entenda o contexto

As eleições de meio de mandato nos EUA, marcadas para esta semana, definem a nova composição de toda a Câmara dos Deputados e de cerca de um terço do Senado. Projeções indicam possibilidade de o Partido Democrata, hoje na oposição a Trump, reconquistar a maioria em pelo menos uma das Casas.

Esse cenário alimenta expectativas entre brasileiros engajados na campanha pela deportação de Flávio Bolsonaro, que enxergam em uma maioria democrata a chance de reverter o suposto favorecimento ao senador, aliado de Trump. Desde a fuga do Brasil, Flávio é associado a articulações com setores próximos ao ex-presidente americano e a Milei.

A avaliação dominante entre analistas, contudo, é que, mesmo com mais poder no Congresso, os democratas miram objetivos mais amplos. “A situação de Flávio dificilmente ocupará um lugar central na agenda dos democratas”, afirma Uebel. Segundo especialistas, “o caso de Flávio não deve estar entre as prioridades dos democratas”.

A tendência, apontam, é que a oposição concentre esforços em limitar as ações de Trump na política econômica, no controle de gastos e em temas internos como custo de vida, além de se posicionar para a disputa presidencial de 2028. “A tendência é que a oposição concentre esforços em limitar as ações de Trump, especialmente na política econômica e nas eleições presidenciais de 2028”, dizem.

Pressão nas redes e efeitos no Brasil

Enquanto nos EUA a batalha se trava em torno de prerrogativas institucionais, no Brasil o caso alimenta a polarização política e debates sobre migração. A campanha virtual pela saída de Flávio dos EUA corre em paralelo à chegada de um avião com 85 brasileiros deportados em Belo Horizonte, evidenciando a dureza da política migratória americana para quem não tem apoio político no topo.

Em São Paulo, a União Nacional dos Estudantes (UNE) realizou um ato que celebrou a reeleição de Lula e, ao mesmo tempo, pediu a deportação de Flávio Bolsonaro, aproximando a situação do senador da discussão mais ampla sobre relações Brasil–EUA e o tratamento dado a imigrantes brasileiros.

Na prática, Flávio enfrenta um cenário de incerteza moderada: a campanha nas redes e eventuais comissões no Congresso podem aumentar o desgaste de Trump e motivar investigações sobre sua entrada e permanência, mas a palavra final sobre vistos e deportação permanece com o Executivo americano, que hoje é politicamente alinhado ao senador.