Anthropic IPO hoje enquanto ações de IA caem forte na NYSE
Quedas fortes em Intel, Alphabet e Amazon expõem ajuste na euforia com IA, enquanto Anthropic protocola IPO e ICE leva futuros perpétuos de cripto ao mercado dos EUA.

Mercado Financeiro
Ajustes no mercado de ações de tecnologia refletem mudanças na percepção sobre inteligência artificial.
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Após uma sexta-feira de forte queda nas ações de gigantes de tecnologia na Bolsa de Nova York, investidores iniciam a semana reavaliando a euforia em torno da inteligência artificial enquanto a Anthropic PBC protocola seu IPO e a Intercontinental Exchange (ICE) anuncia uma parceria para levar futuros perpétuos de criptomoedas ao mercado dos Estados Unidos.
Bolha de IA ou correção saudável?
Os recuos atingiram em cheio empresas que simbolizam a corrida pela infraestrutura de IA. As ações da Intel despencaram quase 30% depois do balanço trimestral, enquanto a Alphabet perdeu mais de 12% após um trimestre fraco em receita de anúncios e buscas, e a Amazon caiu 7% em meio a investimentos pesados em infraestrutura de IA.
O movimento acendeu de novo o debate sobre uma possível bolha no setor, mas analistas veem mais um ajuste do que um estouro. Dave Vellante, chief analyst da theCUBE Research, avalia que o mercado está apenas “deixando escapar um pouco de ar”. “Pense nas bolhas das tulipas no século XVII, na bolha imobiliária japonesa dos anos 1980 e na bolha ponto-com. A bolha ponto-com foi diferente, pois superou as expectativas”, afirmou.
O desempenho da Alphabet é emblemático: a companhia chegou a ver cerca de US$ 500 bilhões em valor de mercado evaporarem em um único dia após o resultado decepcionante. Além da desaceleração na publicidade e nas buscas tradicionais, pesa a percepção de que parte dos usuários migra para chatbots e assistentes baseados em IA.
Na Amazon, a percepção é de um esforço de longo prazo. A queda de 7% na sexta-feira reflete o incômodo de investidores com o volume de capital direcionado a data centers e chips voltados a IA generativa, investimentos que ainda não se traduzem plenamente em lucro.
Entenda o contexto
Os analistas John Furrier e Dave Vellante, da theCUBE Research, discutiram o cenário no podcast theCUBE Pod, gravado com o burburinho da Bolsa de Nova York ao fundo. Para eles, o que está em curso é uma fase de transição, em que a lógica de “crescer a qualquer custo” dá lugar a mais racionalidade.
“Racionalidade está entrando, senso comum. Wall Street ainda está tentando entender, mas os IPOs querem durabilidade”, disse Furrier, ao apontar que investidores começam a exigir modelos de negócio sustentáveis, não apenas crescimento de receita impulsionado por narrativas em torno da IA.
Vellante lembra que, historicamente, bolhas especulativas são marcadas por exageros de preço, mas nem sempre terminam em destruição absoluta de valor. No caso da internet, lembra, muitas empresas desapareceram, mas a tecnologia transformou a economia. Para ele, a IA caminha em trajetória semelhante, com o diferencial de ser, segundo sua avaliação, estruturalmente “deflacionária”, ao permitir trocar investimentos fixos por trabalho automatizado. “Estamos trocando CapEx por trabalho, e isso ainda não apareceu totalmente nas empresas. Essas coisas levam tempo”, afirmou.
Anthropic entra na vitrine em busca de ‘durabilidade’
Em meio à volatilidade, a Anthropic PBC, uma das principais desenvolvedoras de modelos de IA, protocolou seu pedido de oferta pública inicial junto à SEC, o regulador do mercado de capitais dos EUA. A empresa ainda não é lucrativa, mas aposta que a vitrine da bolsa pode garantir o fôlego necessário para disputar espaço com rivais de peso em um setor de capital intensivo.
A decisão ocorre justamente quando investidores questionam quanto vale, na prática, a infraestrutura de IA que está sendo construída a toque de caixa. Ainda assim, Furrier vê o movimento como parte de uma mudança estrutural. “A ideia de exchange está mudando. Isso me lembra a computação em nuvem, que reequilibrou os data centers. A NYSE é a catedral do capitalismo”, afirmou. Para ele, há uma migração da lógica de plataformas de tecnologia do Vale do Silício para o coração dos mercados.
No podcast, Furrier afirmou que IPOs como o da Anthropic estão sendo desenhados para atravessar ciclos de mercado, e não apenas aproveitar janelas de valorização rápida. “Racionalidade está entrando, senso comum. Wall Street ainda está tentando entender, mas os IPOs querem durabilidade”, reforçou.
Como o IPO da Anthropic pode impactar o mercado de ações de IA?
O IPO da Anthropic tende a se tornar um teste de fogo para o apetite dos investidores por ativos ligados à IA após a correção recente. Se a empresa estrear com forte demanda, o recado será de que o mercado segue disposto a pagar caro por crescimento no setor, mesmo diante de lucros ainda distantes. Uma recepção morna, por outro lado, pode acelerar a migração de capital para players já consolidados e lucrativos.
Na prática, a abertura de capital de uma desenvolvedora de IA pura cria uma referência de preço para todo o ecossistema, de startups a grandes grupos listados. Gestores podem usar o múltiplo da Anthropic como parâmetro para reavaliar apostas em empresas de nuvem, chips e software embarcado em IA. Um valor de mercado robusto fortaleceria a tese de que modelos de linguagem e plataformas de agentes inteligentes serão a próxima grande camada de infraestrutura digital.
O movimento também pressiona empresas que permanecem privadas a mostrarem tração em receita e eficiência de custos se quiserem seguir o mesmo caminho. Em um ambiente de juros mais altos e maior seletividade, promessas genéricas de “disrupção por IA” já não bastam para sustentar avaliações bilionárias.
Quais são os riscos para o mercado de ações com a instabilidade atual mencionada no TheCUBE Pod?
O principal risco apontado pelos analistas é uma correção desordenada em empresas mais frágeis, caso a reavaliação dos investimentos em IA se transforme em aversão generalizada ao setor. A queda de quase 30% da Intel, por exemplo, expôs como apostas estratégicas mal calibradas — no caso, foco maior em CPUs do que em GPUs e plataformas completas de IA — podem ser punidas de forma aguda.
“Lip-Bu Tan e a Intel têm uma oportunidade. Eles perderam o mercado hyperscaler, mas ainda rodam x86 em alguns clusters. É uma jornada de vários anos”, disse Furrier, ao sugerir que o mercado ainda concede tempo para ajustes, mas não sem volatilidade. Se empresas não conseguirem provar que seus investimentos em IA geram retorno tangível, novas ondas de venda podem atingir o setor.
Outro risco é o contágio para outros segmentos da tecnologia, como computação em nuvem, publicidade digital e hardware, que hoje são vistos como alavancas da IA. Investidores podem reduzir exposição a todo o conjunto de forma preventiva, derrubando índices e dificultando captações para projetos de longo prazo. Ainda assim, Vellante reforça que o momento atual parece mais um “alívio saudável” do que o gatilho de uma crise sistêmica, e que os ganhos de produtividade da IA devem aparecer de forma gradual nas próximas décadas.
Cripto entra no jogo: ICE aposta em futuros perpétuos
Enquanto o mercado de ações vive seu ajuste, a ICE, controladora da Bolsa de Nova York, amplia a aposta em inovação financeira com uma parceria com a TradeXYZ para lançar mercados de futuros perpétuos baseados na plataforma de negociação de criptomoedas Hyperliquid nos EUA.
O produto, popular em corretoras de cripto, permite operar com contratos sem data de vencimento, atrelados ao preço de ativos digitais por mecanismos de ajuste contínuo. A iniciativa aproxima o universo cripto da infraestrutura tradicional de mercados regulados e pode atrair um novo perfil de investidor para a “catedral do capitalismo”, nas palavras de Furrier.
Para os analistas, a entrada de instrumentos como futuros perpétuos em bolsas estabelecidas reforça a tese de que a própria ideia de “exchange” passa por reinvenção, em um movimento comparável à chegada da computação em nuvem nos data centers. Nesse cenário, a disputa entre NYSE e Nasdaq por listagens de empresas de IA e por novos produtos derivados tende a se intensificar, influenciando o rumo do setor nos próximos anos.


