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Economia

Joesley tenta vender mina à Vale por até US$ 4 bi e acirra crise

Proposta de até US$ 4 bilhões pela mina de Corumbá, comprada por US$ 1,2 bilhão em 2022, é rejeitada pela Vale e expõe tensão na governança da mineradora.

18/07/2026 07:36 8 min de leitura

Economia

Oferta bilionária por mina de Corumbá intensifica conflitos internos na Vale.

O empresário Joesley Batista tenta, em 2026, vender à Vale uma mina de minério de ferro em Corumbá (MS) por até US$ 4 bilhões. A mineradora rejeita a operação e enfrenta uma crise de governança às vésperas da assembleia de acionistas marcada para 22 de julho de 2026.

Negócio bilionário que não saiu do papel

A mina no Mato Grosso do Sul pertenceu à Vale até 2022, quando foi vendida ao grupo J&F por US$ 1,2 bilhão. Quatro anos depois, Joesley tenta repassar o ativo por um valor mais de três vezes maior. Segundo uma fonte da própria mineradora, “Joesley queria repassar à Vale a mina que custou US$ 1,2 bilhão em 2022 por US$ 4 bilhões”.

As conversas incluíam dois modelos. Num cenário, a venda integral da mina por US$ 4 bilhões. No outro, uma participação menor, via joint venture, avaliada em US$ 2 bilhões. Para estruturar a operação, a J&F contrata o banco Citi, com a missão de atrair interessados na mina e, em especial, testar o apetite da antiga dona do ativo.

A direção da Vale, porém, considera a proposta financeiramente desvantajosa. “O negócio acabou não indo adiante porque foi considerado ruim pela Vale”, resume uma fonte ligada ao alto comando da mineradora. Em linguagem de executivos, a taxa de retorno projetada para o investimento não compensa o desembolso exigido pelo grupo de Joesley.

Visita reservada, e-mail vazado, crise aberta

O que poderia ser apenas mais uma aproximação comercial se torna um problema político interno para a Vale. Em maio, um grupo de conselheiros e executivos da companhia participa de um jantar com Joesley e seus irmãos, em um restaurante no Rio, e no dia seguinte embarca em jato particular rumo à região de Corumbá para conhecer de perto as operações da J&F.

A programação é articulada pelo então presidente do conselho, Daniel Stieler. Participam conselheiros influentes, como Manoel Lino Oliveira, conhecido como Ollie, e integrantes da diretoria, entre eles o diretor-presidente Gustavo Pimenta, o mesmo executivo que, em 2022, assina como diretor financeiro a venda da mina para o grupo J&F.

As visitas, porém, não são comunicadas com clareza ao restante do conselho. Dias depois, um e-mail interno em que Ollie relata a viagem e elogia o “empreendedorismo fora do normal” e o “apetite para riscos muito além de nós” dos irmãos Batista acaba vazando para a imprensa. O texto também menciona licenças ambientais para produzir até 26 milhões de toneladas de minério de ferro e destaca investimentos em logística fluvial.

O vazamento do e-mail causa constrangimento e alimenta suspeitas entre conselheiros que se dizem surpreendidos com a aproximação silenciosa com o grupo J&F. Em pouco tempo, o episódio migra dos bastidores para o centro da disputa de poder na mineradora, que já atravessa um processo de troca de comando no conselho.

Comunicados desencontrados e desgaste de imagem

Com a repercussão das mensagens, a Vale divulga uma nota tentando conter a crise. “A Vale divulgou um comunicado negando que vá comprar a mina de volta”, afirma o texto. A companhia admite a visita da comitiva à mina de Corumbá e a interlocução com o Citi, mas insiste que não há negociação em curso para recomprar o ativo.

Do lado da J&F, a reação tenta afastar a imagem de que a mina está oficialmente no balcão. A holding afirma que a controladora do Sistema Centro-Oeste, a LHG Mining, “não está à venda” e diz ter recorrido ao Citi para organizar um processo competitivo em busca de um sócio minoritário, destinado a financiar a expansão da empresa.

Nos bastidores, porém, fontes próximas às conversas confirmam a intenção de Joesley de testar a disposição da Vale de voltar ao ativo. Executivos da mineradora reforçam que a reconstrução pública dos fatos não altera o ponto central: a direção rejeita o negócio. Para eles, o episódio compromete mais a imagem de governança da empresa do que seu caixa.

Governança pressionada às vésperas da assembleia

A tensão interna na Vale já é alta quando o caso vem à tona. O principal fundo de pensão acionista, a Previ, destitui Daniel Stieler da presidência do conselho e lança Ollie como candidato a substituí-lo. A disputa está marcada para ser resolvida em 22 de julho de 2026, na assembleia de acionistas.

O vazamento dos e-mails e a revelação do jantar com os irmãos Batista adicionam um novo elemento à briga. A oposição a Stieler vê na aproximação com Joesley um símbolo de falhas de transparência. Aliados reagem dizendo que se trata de agenda normal de negócios, inflada por disputas políticas internas.

Em qualquer cenário, o episódio se converte em munição para cobrar regras mais rígidas de comunicação entre conselho e diretoria, além de protocolos claros para viagens e encontros com potenciais parceiros em negócios bilionários. A discussão ultrapassa a Vale e entra no radar de investidores institucionais preocupados com padrões de governança no mercado brasileiro.

Estratégia de Joesley vai além do minério

O movimento em torno da mina de Corumbá se encaixa em uma estratégia mais ampla de Joesley de valorizar ativos adquiridos a preços menores. Comprar por US$ 1,2 bilhão em 2022 e oferecer por até US$ 4 bilhões em 2026 revela a ambição de capturar um ganho bilionário em poucos anos, combinando ciclo de commodities, aumento de capacidade e estrutura logística.

Enquanto tenta monetizar o ativo mineral, o empresário avança em outra frente. Em maio de 2026, Joesley injeta R$ 300 milhões na Avibras Aeroco, empresa criada a partir da reestruturação da tradicional Avibras Indústria Aeroespacial. A antiga companhia, carregada de dívidas, fica sob administração da Martinelli Gestora, no âmbito da recuperação judicial. A nova Aeroco reúne os principais ativos industriais e tecnológicos, sem o passivo histórico.

A aposta no setor aeroespacial sinaliza diversificação de portfólio em um momento de reconfiguração da indústria de defesa e tecnologia no país. A combinação de investimentos em mineração, logística e equipamentos militares posiciona o grupo J&F em áreas estratégicas da economia, com forte interface com o Estado e com financiadores públicos e privados.

Impactos locais e próximos capítulos

Embora a Vale recuse a recompra, a simples perspectiva de um negócio de até US$ 4 bilhões mexe com o ambiente empresarial em Mato Grosso do Sul. A mina integra o chamado Sistema Centro-Oeste e influencia a cadeia logística regional, baseada em transporte fluvial, além de fornecedores locais de serviços e equipamentos.

A continuidade da J&F no controle da mina mantém em aberto dúvidas sobre novos sócios e investimentos na região. Uma eventual entrada de parceiro estrangeiro ou de outro grande grupo nacional pode redefinir rotas de escoamento, contratos de transporte e empregos nos municípios ligados à operação.

No curto prazo, porém, o foco do mercado recai sobre a governança da Vale. A assembleia de 22 de julho tende a transformar o caso Corumbá em palco de disputa entre grupos de acionistas com visões diferentes sobre o papel da companhia em aquisições de alto risco. A diretoria tenta mostrar que, ao barrar a proposta, protegeu o balanço e a disciplina de capital.

A forma como a mineradora atravessar essa crise deve influenciar o apetite de investidores por seus papéis e a confiança em futuras decisões estratégicas. Para Joesley, o episódio expõe sua busca por lucros rápidos com ativos comprados a desconto, mas também testa a receptividade do mercado a novos movimentos bilionários do grupo J&F.

A história da mina de Corumbá continua em aberto. A disputa de poder na Vale, as definições sobre eventuais novos sócios da J&F e a reação de reguladores e investidores nos próximos meses vão dizer se o ativo seguirá como aposta de longo prazo de Joesley ou se voltará, por outras mãos, ao radar da mineradora.

Qual o valor que Joesley Batista pede para vender a mina à Vale?

Fontes ligadas às negociações afirmam que Joesley pede até US$ 4 bilhões pela venda integral da mina de Corumbá, comprada por US$ 1,2 bilhão em 2022.

Por que a Vale descartou investir nas minas dos irmãos Batista?

A diretoria concluiu que a taxa de retorno do investimento não compensava o valor pedido. Segundo fonte interna, o negócio foi considerado ruim e não avançou.

Qual é a relação de Joesley Batista com a empresa Avibras?

Em maio de 2026, Joesley investiu R$ 300 milhões na Avibras Aeroco, nova empresa formada na reestruturação da Avibras Indústria Aeroespacial, hoje em recuperação judicial.

Como os e-mails expuseram a tentativa de negócio bilionário entre Joesley Batista e a Vale?

Um e-mail interno de conselheiro da Vale relatando jantar com os irmãos Batista e visita à mina em Corumbá vazou para a imprensa, revelando as conversas sobre a venda.

Quem são os irmãos Batista envolvidos na venda da mina?

Os irmãos Batista, controladores do grupo J&F, lideram o negócio. Joesley é o principal articulador da tentativa de venda da mina de Corumbá para a Vale.

Qual o impacto da negociação da mina para o patrimônio de Joesley Batista?

Se concluída nos termos desejados, a venda por até US$ 4 bilhões geraria ganho bilionário em relação aos US$ 1,2 bilhão pagos em 2022, ampliando o patrimônio do empresário.


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