IA domina abertura da COP31 e pressiona por energia limpa
Na abertura da COP31 em Antália, IA entra no centro da agenda climática. Banqueiros discutem como destravar investimentos trilionários em redes elétricas e energia limpa até 2035.

Inteligência Artificial
Na COP31, a IA assume papel central nas discussões sobre investimentos em energia limpa e redes elétricas sustentáveis.
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A abertura da COP31 em Antália, na costa mediterrânea da Turquia, coloca a inteligência artificial no coração da agenda climática global e empurra governos e bancos a discutir, ao mesmo tempo, a explosão do consumo de energia dos data centers e a necessidade de destravar investimentos trilionários em eletrificação e infraestrutura.
Com a meta turca de elevar a participação da eletricidade no consumo final global de energia de 23% para 35% até 2035, executivos de gigantes financeiros como Barclays, Standard Chartered e JPMorgan Chase chegam à conferência com a missão de definir como financiar a expansão da IA sem agravar o aquecimento global.
IA vira tema central e controverso na agenda climática
Daniel Hanna, diretor global de finanças sustentáveis e de transição do Barclays, resume o clima nos corredores de Antália: “Ela estará em todas as conversas”, diz, sobre a inteligência artificial. Para ele, a tecnologia pode criar “a demanda comercial de longo prazo” necessária para acelerar a energia limpa e escalar soluções climáticas.
A promessa, porém, vem acompanhada de alerta. A IA é vista como peça-chave para tornar sistemas energéticos mais eficientes e resilientes, mas também é acusada de empurrar para cima o consumo de eletricidade, água e terrenos. O avanço de grandes centros de dados gera resistência em comunidades locais e entre ambientalistas, preocupados com novas emissões de carbono.
Simon Stiell, secretário-executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, reforça o tom de urgência ao classificar a IA como tecnologia “devoradora de energia” e avisar que “os líderes da IA estão em terreno instival”. O recado na abertura da COP31 é direto: sem regras claras e investimentos em energia limpa, o avanço da IA pode desestabilizar a transição energética em vez de acelerá-la.
Entenda o contexto
Estudos apresentados na conferência indicam que o impacto ambiental da IA ainda não é plenamente mensurável, mas o movimento da curva de demanda por energia já é evidente. A Agência Internacional de Energia projeta que o consumo de eletricidade dos data centers voltados à IA deve triplicar até o fim da década e, somados aos demais centros de dados, pode chegar a cerca de 3% da demanda global de eletricidade.
É nesse cenário que a Turquia, como país anfitrião, tenta usar a COP31 para amarrar um compromisso global de eletrificação: elevar a fatia da eletricidade no consumo final de energia mundial de 23% para 35% até 2035, ancorando a explosão da IA em uma base de energia mais limpa.
Investimentos trilionários e disputa regulatória
Do lado financeiro, o consenso é que a conta será alta — e, ao mesmo tempo, vista como oportunidade de negócios. Marisa Drew, diretora de sustentabilidade do Standard Chartered, estima que a infraestrutura necessária para sustentar a IA exigirá “trilhões de dólares em investimentos”.
Ela chama atenção para o papel crescente da regulação, especialmente nos Estados Unidos, após as últimas eleições legislativas, que abriram caminho para normas mais rígidas em energia e meio ambiente para data centers. “O que se vê nos mercados americanos neste momento é uma reação à perspectiva de muito mais regulação”, afirma Drew.
Segundo a executiva, regras que aumentem a transparência vão ajudar financiadores a direcionar capital para empresas “que sejam bons administradores das questões ambientais e sociais” e penalizar modelos de negócio considerados insustentáveis.
Relatório recente do Standard Chartered classifica o avanço dos data centers como algo nem automaticamente danoso nem automaticamente verde. O impacto climático, diz o documento, depende das decisões de projeto e da matriz energética local. “Os data centers podem ser extremamente eficientes em suas operações”, reforça Drew. “Mas isso depende das escolhas de projeto e das decisões tecnológicas adotadas.”
Essas escolhas, ressalta ela, exigem um consenso mínimo sobre o que é considerado prática adequada, o que torna a formulação de políticas públicas tema central da COP31.
Eletrificação no centro da estratégia turca
A presidência turca da COP31 aposta na eletrificação ampliada como fio condutor para conciliar o apetite da IA com as metas de redução de emissões. A proposta a ser negociada em Antália é que os países se comprometam a elevar a participação da eletricidade no consumo final global de energia para 35% até 2035, partindo do patamar atual de 23%.
Na prática, isso significa destravar grandes pacotes de financiamento para geração renovável, redes de transmissão, armazenamento de energia, subestações, modernização de edifícios, transporte elétrico e infraestrutura industrial. A visão é que a IA, se alimentada por uma rede mais limpa, ajude a otimizar consumo, prever picos, reduzir perdas e tornar o sistema mais resiliente.
Hanna, do Barclays, diz ver na tecnologia uma chance de construir um sistema energético “mais limpo e resiliente”, mas admite que o desfecho ainda está em aberto, dependendo de como governos e empresas vão desenhar incentivos, normas e investimentos.
Bancos alinham trilhões à agenda da COP31
Entre os grandes bancos, o JPMorgan Chase chega à cúpula com uma iniciativa de US$ 1,5 trilhão voltada a segurança e resiliência energética, apresentada como perfeitamente alinhada às ambições de eletrificação da COP31. O banco enviou a Antália uma equipe de banqueiros de investimento e executivos de sustentabilidade com a missão de identificar projetos e costurar negócios.
“A ambição de eletrificação nos dá ainda mais pontos de apoio e coincide exatamente com aquilo em que já estamos focados”, afirma Luke Nelson, diretor internacional de sustentabilidade do centro de energia e meio ambiente do JPMorgan. Para ele, não há transição possível sem rede elétrica robusta: “Não é possível eletrificar a economia sem uma rede elétrica funcional”.
Nelson avalia que discutir segurança energética continua essencial, num momento em que guerras mantêm volátil o preço de petróleo e gás. Na visão do banco, essa segurança pode ser entregue com a expansão das renováveis, combinadas a redes e sistemas de armazenamento mais modernos.
Gestores de recursos também veem na agenda de Antália um gatilho para novos fluxos de capital. Para casas como Aegon Asset Management e First Sentier MUFG Sustainable Investment Institute, a meta de eletrificação funciona como catalisador para projetos já familiares ao setor financeiro, o que tende a acelerar decisões de crédito e investimento.
Analistas presentes na cúpula descrevem a eletrificação como uma “megatendência” que se ramifica por toda a cadeia econômica — do reforço de linhas de transmissão ao retrofit de edifícios, passando por transporte coletivo elétrico e digitalização industrial.
Próximos passos na COP31
Ao longo dos próximos dias, delegações e executivos devem negociar padrões globais de sustentabilidade para data centers, metas intermediárias de eficiência energética e mecanismos de incentivo para investimentos em eletrificação e IA aplicada ao clima.
No centro das conversas estarão propostas para aumentar a transparência sobre o consumo de energia e a pegada de carbono de grandes sistemas de IA, além de eventuais exigências de uso mínimo de energia renovável em novas instalações.
Para Marisa Drew, o desfecho ainda está em aberto: “O livro ainda não foi escrito. Tudo depende das escolhas que forem feitas.” A expectativa em Antália é que a COP31 consiga, ao menos, desenhar as linhas gerais desse capítulo — e aproximar os bilhões prometidos nos discursos dos trilhões necessários para transformar a infraestrutura energética global.

