Pentágono lança FORTRESS America para estoque vital de 90 dias
Programa FORTRESS America quer estocar minerais críticos, combustível e munições nos EUA para manter forças armadas operando 90 dias em caso de ataques cibernéticos e sabotagem.

Defesa
Iniciativa busca garantir suprimentos estratégicos para forças armadas resistirem a crises por 90 dias.
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O Pentágono está colocando em marcha o programa FORTRESS America para criar grandes estoques de minerais críticos, combustível e munições dentro do território dos Estados Unidos, com a meta de manter as forças armadas em operação por até 90 dias mesmo que ataques cibernéticos ou sabotagem derrubem fábricas e redes elétricas no país.
O que é o FORTRESS America
A sigla FORTRESS America vem de Federal Operations for Resilience, Troop Resources, Energy, Supply, and Survivability. Formalmente estabelecida em 30 de setembro, a iniciativa muda a lógica dos estoques militares americanos: em vez de concentrar reservas perto de possíveis campos de batalha no exterior, como na Guerra Fria, o foco agora é proteger suprimentos dentro dos EUA, diante do risco de a própria infraestrutura industrial se tornar alvo.
“O esforço planejado está no mesmo nível do que o Departamento de Defesa perseguiu durante a Guerra Fria”, avalia Bryan Clark, senior fellow no Hudson Institute e especialista em defesa, ao comparar a escala do plano com os antigos programas de reservas estratégicas.
Na prática, o FORTRESS America é o guarda-chuva de ações que vão desde a construção de estoques de matérias-primas e munições até a exigência de que grandes bases militares consigam operar por 90 dias sem depender da rede elétrica civil.
Entenda o contexto
A iniciativa nasce em um cenário de forte dependência externa de minerais críticos e de preocupação crescente com ataques cibernéticos contra infraestrutura. Em 2025, os EUA importaram cerca de US$ 60 bilhões em minerais como níquel, lítio, cobalto, grafite e tungstênio, fundamentais para armamentos, baterias e eletrônicos militares.
A lacuna é mais aguda nos ímãs de terras raras, usados em mísseis, radares e motores elétricos. A demanda americana chegou a cerca de 48.000 toneladas métricas em 2025, enquanto a produção doméstica foi de apenas 300 toneladas métricas. A indústria espera elevar a capacidade interna para algo em torno de 5.000 toneladas métricas até o fim deste ano — ainda assim, perto de um décimo da demanda registrada no ano passado.
A escassez já bateu na porta do setor privado. Em maio de 2025, a Ford precisou paralisar por uma semana a fábrica de Chicago por falta de terras raras, evidenciando o risco para cadeias produtivas civis e militares.
No ambiente externo, o alerta foi reforçado por ataques cibernéticos em larga escala, como os registrados em dezembro do ano passado contra cerca de 30 usinas de energia renovável, uma fabricante e uma planta de aquecimento e energia na Polônia, quase causando apagões para cerca de 500 mil clientes. Autoridades polonesas atribuíram a ofensiva à Rússia.
Dependência da China e risco de interrupção
Grande parte dessa vulnerabilidade passa pela China, que domina o processamento de muitos minerais críticos e tem apertado sucessivamente os controles de exportação, inclusive em tempos de paz. Empresas americanas relatam dificuldade crônica para garantir fornecimento estável.
Bryan Clark alerta que a ameaça não é apenas comercial: “A China poderia interromper a produção industrial dos EUA por meio de operações cibernéticas, drones, guerra eletromagnética ou ataques internos”, afirma. Agências de segurança nos EUA já apontaram a presença de hackers ligados ao Estado chinês em infraestruturas críticas americanas.
Com a perspectiva de um conflito de grande escala, o Pentágono calcula que rotas marítimas e cadeias globais de suprimentos podem ser quebradas, o que tornaria ainda mais difícil reabastecer estoques a partir do exterior.
Contratos bilionários e revival da mineração de tungstênio
Um dos casos emblemáticos do FORTRESS America é o tungstênio, metal estratégico para projéteis perfurantes, ligas de alta resistência e componentes eletrônicos. Sem atividade comercial significativa no país desde meados da década passada, os EUA tornaram-se mais de 50% dependentes de importações líquidas do metal em 2025.
Para reverter o quadro, a fabricante The Elmet Group firmou com a Agência de Logística de Defesa um contrato de até US$ 2 bilhões para fornecer minério de tungstênio, concentrados e compostos químicos como o tungstato de sódio para o estoque nacional de defesa. Do total, US$ 150 milhões estão garantidos, e outros US$ 450 milhões foram comprometidos para apoiar a retomada da mineração, incluindo cerca de US$ 150 milhões destinados a reativar o complexo de tungstênio Springer, em Nevada.
A empresa, porém, afirma que não vai começar a despachar material para o governo imediatamente. “O Pentágono não começará a receber entregas até que haja oferta adicional para não desviar tungstênio dos fabricantes americanos”, diz um representante da The Elmet Group, indicando que as primeiras remessas devem esperar pela entrada em operação de novas frentes de produção, em Nevada e também em projetos na Austrália e na Espanha.
O arranjo ilustra um dos principais desafios do programa: assinar contratos não significa, por si só, encher cofres e depósitos militares. A reconstrução da base de mineração e processamento doméstico exige tempo, investimento pesado e segurança regulatória.
Pressão diplomática sobre Pequim
Enquanto tenta acelerar a produção interna, Washington pressiona Pequim na frente diplomática. Em 6 de novembro, o representante de comércio dos EUA, Jamieson Greer, relatou ter cobrado diretamente o vice-premiê chinês sobre o tema. “Pressionei o vice-premiê chinês para cumprir totalmente os compromissos de Pequim sobre terras raras e minerais críticos”, afirmou Greer.
O recado ocorre após novas medidas chinesas de controle de exportações e em meio a relatos de empresas americanas que continuam sem conseguir garantir contratos de longo prazo para fornecimento de terras raras. A disputa adiciona tensão a uma relação já marcada por tarifas, sanções tecnológicas e acusações mútuas de espionagem cibernética.
Impacto nas cadeias industriais e no setor privado
O avanço do FORTRESS America deve redistribuir forças na economia de minerais críticos. De um lado, mineradoras e processadoras domésticas tendem a ser beneficiadas por contratos bilionários e garantias de compra de longo prazo, o que pode destravar projetos antes inviáveis frente à concorrência de importações mais baratas.
De outro, indústrias civis dependentes de metais estratégicos — como o setor automotivo, fabricantes de baterias e de eletrônicos — podem enfrentar maior competição por volumes limitados, especialmente em fases iniciais, até que a oferta doméstica cresça. O próprio desenho do contrato de tungstênio, que posterga entregas ao governo para evitar desabastecer empresas americanas, mostra o cuidado para não repetir no front doméstico a escassez que o Pentágono tenta evitar em caso de guerra.
Analistas de mercado de minerais estimam que levará “muitos anos” até que os EUA tenham infraestrutura capaz de rivalizar com a cadeia integrada que a China construiu para extração, processamento e manufatura avançada.
Desafios de custo e prazo
O custo total do FORTRESS America ainda está em avaliação dentro do Departamento de Defesa, mas estimativas internas já falam em dezenas, possivelmente centenas de bilhões de dólares ao longo dos próximos anos. Para aliviar a conta pública, o Pentágono estuda modelos de parcerias público-privadas, com compartilhamento de investimentos e garantias de compra.
Mesmo com capital disponível, especialistas ponderam que independência de cadeias de suprimentos não se constrói em poucos anos. Bryan Clark avalia que o Pentágono dificilmente cumprirá todas as metas de curto prazo, seja na formação de estoques de armas prontas, seja na acumulação de matérias-primas.
Um primeiro teste concreto se aproxima com a entrada em vigor, em 1º de janeiro de 2027, de regras federais que proíbem contratos de defesa com uso de terras raras, ímãs e tungstênio provenientes de China, Rússia, Irã e Coreia do Norte. Na prática, Washington já concedeu isenções em rodadas anteriores porque a oferta doméstica ainda não dá conta da demanda.
A execução do FORTRESS America, portanto, tende a ser gradual: enquanto minas como a Springer, em Nevada, saem do papel e novas plantas de processamento são erguidas, o Pentágono tenta equilibrar a pressa por estoques estratégicos com os limites da capacidade industrial e as turbulências da geopolítica de recursos.
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