SBT corta BocaTV do SBT Cidades e limita Bocardi ao telejornal
Pouco mais de um mês após a estreia, SBT Cidades rompe a parceria com a BocaTV, restringe a atuação de Rodrigo Bocardi no telejornal e redefine limites editoriais.
Entretenimento
SBT ajusta programação local e redefine papéis após breve parceria com BocaTV.
O SBT Cidades deixa de exibir conteúdos da BocaTV e restringe a atuação de Rodrigo Bocardi no telejornal a partir de 8 de setembro de 2026. A parceria entre a emissora e a produtora digital, ligada ao apresentador, dura pouco mais de um mês.
Telejornal muda para separar TV e projeto digital
A decisão marca uma inflexão no projeto multiplataforma que o SBT tenta construir desde junho de 2026. Ao cortar a presença da BocaTV da grade, a emissora sinaliza que prefere reforçar o controle editorial próprio do SBT Cidades a manter a exposição de um canal digital comandado pelo próprio âncora.
A mudança importa para o mercado porque evidencia um limite prático às parcerias entre televisão aberta e projetos digitais pessoais de jornalistas. Também recoloca Bocardi em um papel mais tradicional de apresentador, sem o espaço que vinha usando para impulsionar sua marca fora da TV.
Da aposta multiplataforma ao freio no dia a dia do jornal
A parceria entre SBT e BocaTV nasce em junho de 2026, anunciada como um arranjo jornalístico que integraria televisão aberta, canais digitais e redes sociais. Em agosto, o SBT Cidades estreia com Bocardi e Erica Reis à frente, e pelo menos três equipes de reportagem da BocaTV entram na rotina do telejornal.
As reportagens produzidas pela estrutura digital de Bocardi ocupam espaço relevante na edição diária. O cenário, com logomarca da BocaTV no púlpito, deixa claro ao telespectador que o noticiário nasce de uma costura entre a redação do SBT e a produtora do apresentador.
Com poucas semanas de programa no ar, a avaliação interna muda. Diretores do SBT concluem que Bocardi dedica mais tempo à divulgação do canal digital do que ao comentário das pautas do noticiário. O desequilíbrio entre promoção pessoal e análise das notícias passa a ser visto como um risco para a identidade do SBT Cidades.
Proibição em 2 de setembro e rompimento em 8 de setembro
Em 2 de setembro de 2026, a emissora adota a primeira medida concreta. Bocardi é proibido de citar a BocaTV durante o telejornal ou exibir reportagens do canal digital que leva seu nome. As entradas das equipes ligadas ao projeto são suspensas, e a logomarca da produtora some do cenário.
A mensagem interna é direta: o SBT Cidades precisa falar em nome da emissora, não de uma empresa externa controlada pelo próprio âncora. O clima de ajuste dura menos de uma semana. Em 8 de setembro, um comunicado formaliza o fim da parceria.
No texto enviado à imprensa, o SBT informa que emissora e apresentador repactuam a relação, como estaria previsto desde o início. A nota afirma que «os projetos seguirão de forma independente» a partir dessa data, com a BocaTV deixando de ter qualquer vínculo com o telejornal e passando a atuar apenas em plataformas digitais.
O comunicado também busca conter especulações sobre um possível desgaste pessoal. Segundo a emissora, «a questão contratual não afeta a relação com o jornalista», que permanece contratado para comandar o SBT Cidades e integrar futuros projetos no canal.
Bocardi entre duas marcas: SBT e BocaTV
A decisão recoloca Bocardi em uma situação conhecida, mas sob um cenário de mídia diferente. Demitido da Globo em 30 de janeiro de 2025, após 25 anos na emissora, por descumprimento de normas internas apontadas pelo setor de compliance, ele passa o ano seguinte a reordenar sua trajetória.
Em fevereiro de 2025, cria a BocaTV como um projeto digital próprio. O canal nasce livre da estrutura de uma grande rede e se apoia na imagem acumulada em mais de duas décadas de TV aberta. Um ano e meio depois, em agosto de 2026, ele volta ao horário nobre pela tela do SBT, levando consigo a marca recém-criada.
O telejornal se torna, ao mesmo tempo, vitrine para o retorno de Bocardi à TV e plataforma de exposição para o seu canal digital. O arranjo, elogiado inicialmente como um passo à frente na integração entre formatos, acaba revelando um ponto de atrito que o SBT agora tenta corrigir.
Quem ganha controle e quem perde alcance
O principal benefício imediato para o SBT é a recuperação do controle editorial exclusivo do SBT Cidades. Sem conteúdo de uma produtora externa comandada pelo próprio apresentador, a emissora reduz o risco de conflito de interesses e evita que um telejornal diário se transforme em vitrine permanente de um negócio privado.
Para a BocaTV, o impacto é direto. O canal digital perde a exposição de televisão aberta, um espaço que multiplicava o alcance de suas reportagens e fortalecia sua marca diante de um público que nem sempre acompanha plataformas online. Sem a vitrine do SBT, a empresa volta a depender somente da audiência construída em redes sociais e no ambiente digital.
Bocardi fica no meio desse rearranjo. Mantém o salário e a visibilidade de âncora do telejornal, mas perde a margem de manobra para usar o noticiário como motor de crescimento da BocaTV. A curto prazo, vê sua atuação editorial e promocional no SBT Cidades mais estreita. A médio prazo, pode ganhar autonomia para posicionar o canal digital sem as amarras de um contrato que divide interesses.
Produtoras independentes e jornalistas com projetos próprios acompanham o movimento com atenção. A interrupção da parceria indica que, na prática, há um limite sensível quando o mesmo rosto representa, ao vivo, a emissora e um negócio pessoal que produz conteúdo jornalístico em paralelo.
Pressão sobre parcerias multiplataformas
No mercado, a decisão do SBT funciona como sinal amarelo para outras experiências de integração entre TV tradicional e plataformas digitais. Emissoras buscam audiência onde ela estiver, mas o caso Bocardi mostra que a convivência entre interesses institucionais e empreendimentos individuais exige fronteiras mais claras.
Na rotina das redações, o episódio alimenta debates sobre ética, transparência de contratos e o grau de liberdade que apresentadores têm para promover negócios paralelos em horário nobre. Também recoloca em discussão quem responde, em última instância, pelo conteúdo que vai ao ar quando há múltiplos CNPJs por trás de um mesmo telejornal.
Os próximos meses devem mostrar se o SBT reforça o SBT Cidades com novas equipes internas ou busca outras parcerias, desta vez com regras mais rígidas. Bocardi, por sua vez, terá de provar que consegue sustentar, em paralelo, a relevância de um telejornal diário na TV aberta e o crescimento de um canal digital sem a ajuda de um ao outro.
A forma como emissoras e apresentadores ajustarem esses limites tende a influenciar futuros contratos. Em um cenário de fragmentação de audiência, o caso ajuda a definir até onde vai o espaço para marcas pessoais dentro de programas jornalísticos de rede.
Rodrigo Bocardi saiu do SBT?
Não. O SBT afirma que a relação contratual com o jornalista está mantida. Bocardi continua à frente do SBT Cidades e é cotado para futuros projetos.
A BocaTV ainda terá qualquer conteúdo exibido no SBT?
Não. A emissora informa que a BocaTV deixa de produzir para o SBT Cidades e passa a atuar apenas em plataformas digitais, sem vínculo com a grade do canal.
Houve rompimento por briga entre Bocardi e o SBT?
O SBT fala em repactuação prevista desde o início e afirma que «a questão contratual não afeta a relação com o jornalista». A emissora não relata conflito pessoal.


