BRICS costuram frente comum para regular a inteligência artificial
Fórum sindical em Hyderabad e conferência em Xangai expõem estratégia do BRICS: acelerar a inteligência artificial sem sacrificar empregos e ampliar peso geopolítico do bloco.
Economia
BRICS busca equilibrar avanço tecnológico com proteção ao emprego e fortalecimento global.
Representantes de sindicatos do BRICS e líderes globais colocam a inteligência artificial no centro da agenda política entre 14 e 16 de julho de 2026, em Hyderabad. No mesmo movimento, Pequim usa uma conferência em Xangai para apresentar sua estratégia de cooperação e regulação da tecnologia, com impacto direto sobre trabalhadores e sobre o equilíbrio de poder na economia digital.
Trabalho em foco no fórum sindical de Hyderabad
Em Hyderabad, no estado indiano de Telangana, sindicalistas dos cinco países do BRICS discutem como a inteligência artificial redefine o mercado de trabalho. O encontro, realizado entre 14 e 16 de julho de 2026, parte de uma preocupação concreta: garantir que o salto tecnológico não se traduza em cortes em massa de empregos e queda de salários.
Dita Juliet, representante da Indonésia convidada ao fórum, resume a tensão que atravessa as mesas de debate. “Uma das principais questões que discutiremos nos próximos três dias é como a tecnologia e a IA podem afetar os trabalhadores do futuro”, afirma. Ela defende que algoritmos e sistemas de automação sejam tratados como apoio, não substitutos. A IA, diz, precisa “ajudar os trabalhadores a aumentar a eficiência e a desenvolver novas competências profissionais”.
O brasileiro Carlos Miller, dirigente sindical, leva a discussão para o campo da política econômica. “Os países do BRICS devem dar atenção especial aos interesses dos trabalhadores na formulação de suas políticas econômicas”, cobra. O recado vai na direção de governos que, ao decidir sobre incentivos à digitalização, deveriam atrelar benefícios a metas de emprego, salários mais altos e melhores condições de trabalho.
O ministro Vivek Venkataswamy, do governo de Telangana, tenta costurar a agenda social e a agenda fiscal. Fala em uso racional de recursos e defende soluções de gestão que lidem com uma economia mundial em reconfiguração, pressionada por automação, reindustrialização verde e disputas tecnológicas entre grandes potências.
Os debates em Hyderabad ecoam uma preocupação que atravessa todo o bloco: como transformar a digitalização em motor de inclusão, não de precarização. Ao concentrar-se em produtividade e proteção trabalhista, o fórum sinaliza que o BRICS quer se distanciar de um modelo de adoção irrestrita de tecnologia, sem contrapesos sociais.
Pequim arma arquitetura global para a IA
Enquanto sindicalistas negociam princípios e reivindicações na Índia, a China avança em outra ponta da estratégia: a criação de uma infraestrutura institucional e industrial para liderar a próxima onda da inteligência artificial, em diálogo com o Sul Global.
Em Xangai, a Conferência Mundial de Inteligência Artificial se consolida como vitrine do projeto chinês. Ali, o presidente Xi Jinping afirma que o futuro da tecnologia não deve estar nas mãos de um só país. “O desenvolvimento da IA não deve ser uma atuação de um único país, mas sim uma sinfonia de cooperação internacional”, diz, em discurso que mira rivais ocidentais, mas também tenta atrair parceiros entre países emergentes.
Xi critica o uso ampliado do argumento de segurança nacional para restringir trocas tecnológicas. Sem citar Estados Unidos ou União Europeia, ataca a ideia de colocar “a segurança de um país acima da dos demais” e pressiona por um ambiente em que pesquisas, chips e modelos de IA circulem com menos barreiras políticas.
Ao mesmo tempo, o presidente busca se posicionar como defensor de regras. “Devemos estabelecer leis e regulamentos, bem como sistemas de monitoramento tecnológico, alerta precoce e resposta a emergências, a fim de garantir que a IA esteja sempre sob controle humano”, afirma. A mensagem é clara: Pequim quer moldar, e não apenas seguir, as normas globais do setor.
O chanceler Wang Yi formaliza esse movimento ao assinar, com representantes de 29 países, a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, sediada em Xangai. O grupo intergovernamental nasce com a missão declarada de garantir um desenvolvimento “saudável e organizado” da tecnologia, em linha com a diplomacia recente da China, que usa fóruns e novas instituições para disputar espaço com organismos liderados pelo Ocidente.
Os números expostos na conferência reforçam o apetite chinês. O mercado doméstico de IA é estimado em 1,2 trilhão de yuans em 2025, o equivalente a cerca de 902 bilhões de reais, com expectativa de expansão superior a 30% em 2024. Cerca de 3 mil produtos são apresentados, de semicondutores avançados a smartphones equipados com agentes autônomos capazes de executar tarefas sob demanda.
Ao lado de Xi, figuras como o secretário-geral da ONU, António Guterres, e chefes de governo do Camboja e da Tailândia validam o palco. A presença de líderes do Sudeste Asiático e de países em desenvolvimento ajuda a costurar uma narrativa de cooperação tecnológica que não se limita ao eixo Pequim-Moscou, mas se oferece como alternativa aos regimes regulatórios europeus e norte-americanos.
Quem ganha com a ofensiva do BRICS
A costura entre Hyderabad e Xangai revela um desenho mais amplo da política do BRICS para a inteligência artificial. O bloco tenta consolidar uma terceira via, em que desenvolvimento acelerado convive com discursos – e, potencialmente, regras – de proteção social.
Para trabalhadores de setores como manufatura, serviços e agronegócio, o pacote abre uma possibilidade concreta de transição menos abrupta. Se a cooperação resultar em leis que condicionem incentivos tecnológicos à manutenção de empregos, programas de requalificação e participação sindical nas decisões, a IA pode significar aumento de produtividade com ganhos salariais, em vez de demissões.
Empresas instaladas nos países do BRICS também enxergam oportunidades. A construção de ecossistemas de IA no Brasil, na Índia, na Rússia, na China e na África do Sul tende a atrair investimentos em semicondutores, centros de dados, softwares corporativos e serviços digitais. A aposta chinesa em produzir do chip ao aplicativo, com forte apoio estatal, pressiona demais governos do bloco a formular políticas industriais próprias.
O movimento, porém, não é neutro no tabuleiro geopolítico. Países e companhias que defendem regulação mais frouxa, concentrada no setor privado, podem perder influência diante de um bloco que prioriza acordos intergovernamentais e mecanismos de coordenação. A criação de uma organização dedicada à IA, com sede em Xangai, sinaliza uma disputa aberta por quem dita padrões técnicos, de segurança de dados a requisitos de transparência algorítmica.
Para o Brasil, que participa do fórum sindical e da articulação política dentro do BRICS, o desafio é transformar o discurso em política doméstica. A cobrança de dirigentes como Carlos Miller mostra que sindicatos querem vincular qualquer estratégia nacional de IA a metas de inclusão social, distribuição de renda e valorização do trabalho formal.
Se a coordenação funcionar, o bloco pode usar seu peso demográfico e econômico para negociar, em melhores condições, com gigantes da tecnologia. Se fracassar, corre o risco de repetir assimetrias antigas: concentração de lucros em poucos grupos econômicos, enquanto a promessa de modernização deixa para trás uma parte significativa da população ativa.
Uma corrida de longa distância
As decisões tomadas agora, entre os debates de Hyderabad e os anúncios de Xangai, dificilmente terão efeito imediato nas fábricas ou nos escritórios do Brasil. Indicam, porém, o início de uma corrida de longa distância, em que normas, acordos e investimentos definirão quem se beneficia da inteligência artificial na próxima década.
Nos próximos anos, a relevância do BRICS nesse campo dependerá menos de discursos e mais da capacidade de aprovar leis, financiar pesquisa própria e, sobretudo, monitorar riscos. O sucesso ou o fracasso dessa estratégia ajudará a determinar se a IA aprofundará desigualdades ou se poderá, de fato, sustentar um modelo de desenvolvimento mais inclusivo no Sul Global.
Quem são os países do BRICS atualmente?
O núcleo original do BRICS é formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que articulam cooperação econômica, política e tecnológica entre grandes economias emergentes.
Qual é o plano de cooperação do BRICS para a inteligência artificial anunciado por Xi?
Xi defende que a IA seja construída como “sinfonia de cooperação internacional”, com leis, regulamentos e um novo organismo sediado em Xangai para coordenar desenvolvimento responsável.
Como o BRICS pretende usar a inteligência artificial para proteger os trabalhadores?
O bloco discute vincular a adoção de IA a políticas de elevação salarial, melhora de condições de trabalho e programas de requalificação negociados entre governos, empresas e sindicatos.


