Mercados
S&P 5007.659▼ 1,09%Nasdaq26.140▼ 2,14%Dow Jones52.002▼ 0,34%Ibovespa205.430▲ 0,54%FTSE 10010.882▲ 0,38%DAX25.623▲ 0,95%Nikkei65.324▲ 1,39%DólarR$ 5,07▼ 0,65%EuroR$ 5,69▼ 0,46%BitcoinR$ 412.411▼ 0,74%Powered by WIREDESK OSS&P 5007.659▼ 1,09%Nasdaq26.140▼ 2,14%Dow Jones52.002▼ 0,34%Ibovespa205.430▲ 0,54%FTSE 10010.882▲ 0,38%DAX25.623▲ 0,95%Nikkei65.324▲ 1,39%DólarR$ 5,07▼ 0,65%EuroR$ 5,69▼ 0,46%BitcoinR$ 412.411▼ 0,74%Powered by WIREDESK OS
Powered by WIREDESK OS
Política

Campanha de Flávio pagou R$ 600 mil à Elytron por IA clandestina?

Documentos revelam pagamentos da campanha de Flávio Bolsonaro à Elytron, empresa que ofereceu sistema de IA para operações clandestinas de influência política. Campanha e companhia negam irregularidades.

Campanha de Flávio pagou R$ 600 mil à Elytron por IA clandestina?

Política

Documentos indicam pagamentos controversos da campanha de Flávio Bolsonaro à empresa Elytron, especializada em IA para influência política.

Leia também: Eleições complementares e plebiscitos movimentam sete cidades brasileiras

A campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL) pagou R$ 600 mil à Elytron, empresa de cibersegurança que ofereceu um sistema de inteligência artificial voltado para operações clandestinas de influência política, com potencial de disparar desinformação, criar contas falsas, produzir deepfakes e aplicar técnicas de guerra psicológica para atingir eleitores e desacreditar adversários. Os documentos e denúncias vieram a público nesta sexta-feira (16), junto com registros oficiais de notas fiscais e prestação de contas eleitorais.

Pagamentos, notas fiscais e versão da campanha

Os dados da Justiça Eleitoral mostram três notas fiscais emitidas pela Elytron para a campanha de Flávio Bolsonaro. Duas delas, em 16 de setembro, são de R$ 500 mil cada, mas uma foi cancelada. A terceira, de 2 de outubro, é de R$ 100 mil. No total, os pagamentos efetivos da campanha somam R$ 600 mil.

Na descrição formal, os serviços aparecem como consultoria em tecnologia da informação, incluindo apoio forense, investigação de phishing, testes de segurança e monitoramento de infraestrutura. A prestação de contas parcial, porém, chegou a registrar R$ 1 milhão em despesas com a empresa.

Além da campanha, o PL declarou ter desembolsado R$ 131,9 mil para a Elytron em julho, classificados como serviços técnico-profissionais. Juntos, partido e candidatura registram R$ 731,9 mil destinados à companhia.

A campanha de Flávio Bolsonaro afirma que não há irregularidades, diz que “não contrata nenhum serviço que viole a legislação eleitoral” e classifica como tentativa com “claro viés político eleitoreiro” a associação entre os contratos de proteção cibernética e operações de manipulação política. A equipe sustenta que a contratação teve caráter defensivo, para blindar sistemas contra ataques digitais.

Que sistema a Elytron ofereceu e como ele funcionaria

O material obtido sobre a Elytron descreve um sistema que cruza grandes volumes de dados sociais, políticos e econômicos para identificar públicos específicos e direcionar campanhas digitais. A apresentação comercial fala em criação de contas falsas, produção de conteúdos com inteligência artificial, disseminação coordenada de rumores e infiltração em comunidades virtuais.

Segundo os documentos, a operação começaria pela definição dos objetivos políticos, passaria pela escolha dos grupos a serem atingidos e avançaria para a distribuição de mensagens em redes sociais, blogs e até veículos de comunicação. Entre as táticas listadas estão “técnicas de guerra psicológica e métodos de infiltração” para moldar percepções e minar a credibilidade de oponentes.

Numa das etapas, o sistema usaria informações demográficas e comportamentais para introduzir opiniões em grupos segmentados e aumentar artificialmente a circulação desses conteúdos. Na prática, isso permitiria construir narrativas sob medida para nichos específicos do eleitorado, com aparência orgânica, mas produzidas e impulsionadas de forma coordenada e oculta.

Denúncia de ex-consultor e alerta de especialistas

O ex-consultor da Elytron Vincent Edward Reed, que atuou para a companhia no exterior, relata ter rompido com o grupo após conhecer em detalhe o funcionamento da tecnologia. Ele diz que o sistema foi inicialmente apresentado como uma ferramenta comum de análise de dados, mas que a avaliação mudou ao ver a demonstração completa.

“Quando vi a demonstração [do sistema] e o dashboard, pude entender do que era capaz. E isso foi preocupante para mim porque vi que estava mirando eleitores e poderia atingi-los com deepfakes de IA”, afirmou Reed. Segundo ele, não havia dúvida sobre a intenção: “O termo manipulação foi de fato usado. E qualquer vez que eu ouço a palavra manipulação humana, especialmente quando envolve IA, me preocupa”.

Reed diz ter levado sua preocupação ao FBI e ao Comitê de Supervisão da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, mas relata que as apurações não avançaram. Ele também afirma que a tecnologia foi apresentada a pessoas ligadas à campanha de Donald Trump no pleito americano mais recente, sem confirmação de contratação.

A pesquisadora Beatriz Farrugia, especialista em desinformação e interferência estrangeira, analisou o fluxograma do projeto revelado nos documentos. Ao examinar o plano operacional, ela classificou o desenho como típico de uma estrutura secreta de influência política: “Essa tela [do plano] é exatamente a definição de A a Z de operação de influência”, disse.

Para especialistas na área, a diferença em relação ao marketing digital convencional está justamente no caráter enganoso: uso de identidades fictícias, inflagem artificial de engajamento, campanhas coordenadas de desinformação e manipulação emocional planejada para interferir no voto.

O que diz a Elytron

A Elytron nega oferecer ou executar serviços de manipulação política para qualquer cliente. Em nota, a empresa afirma repudiar “veementemente qualquer tentativa de associar seu nome à disseminação de informações falsas, ao uso de deepfakes ou à realização de operações clandestinas de manipulação da opinião pública”.

A companhia sustenta que atua apenas com serviços defensivos de segurança da informação, como monitoramento e resposta a incidentes, e diz não ter prestado serviços à campanha de Donald Trump nem autorizado apresentações comerciais que oferecessem operações de influência eleitoral.

A Elytron afirma ainda que vai apurar possíveis responsabilidades pelo uso indevido de seu nome em propostas comerciais e que suas estruturas no exterior, como uma pessoa jurídica em Portugal, servem à organização societária e tributária, sem configurar uma rede paralela para operações políticas.

Conexões internacionais e rede de negócios

Os documentos e depoimentos situam a Elytron no centro de uma rede internacional de negócios ligados à tecnologia e inteligência artificial, com conexões em Portugal e nos Emirados Árabes Unidos e interlocução com figuras próximas à extrema direita brasileira.

Entre os nomes citados estão Jorge Remígio, Ludgero de Sousa e Eric Leandri, envolvidos em empreendimentos de tecnologia em Portugal e nos Emirados e apontados como parceiros comerciais da Elytron e de empresas associadas. Eles reconhecem ter mantido contato com Reed, mas negam participação em reuniões com a campanha de Trump e contestam a existência de ofertas de serviços de manipulação política.

A Elytron brasileira diz que esses executivos atuam como parceiros independentes, remunerados por comissão na prospecção de negócios, e confirma que mantém uma estrutura jurídica em Portugal para eventuais operações no mercado europeu.

A investigação também cita o lutador de jiu-jítsu Renzo Gracie, aliado da família Bolsonaro, como sócio de Ludgero de Sousa e Eric Leandri em uma consultoria. Gracie confirma a sociedade, mas nega qualquer vínculo com a Elytron ou com a Aleria, empresa de tecnologia baseada nos Emirados Árabes Unidos que aparece nos relatos de Reed.

Entenda o contexto

A divulgação dos pagamentos à Elytron ocorre em meio a uma campanha marcada pelo uso intensivo de redes sociais e pela preocupação crescente com desinformação e interferência digital nas eleições brasileiras. A tecnologia descrita nos documentos se encaixa no modelo de operações de influência clandestinas: ações discretas, difícil rastreio e alta capacidade de segmentação.

Se for comprovado que ferramentas desse tipo foram contratadas com finalidade de manipular o comportamento do eleitor ou espalhar notícias falsas, a legislação eleitoral prevê responsabilização, que pode incluir multas, cassação de mandato e até impedimento de candidatura. Mesmo sem prova de uso efetivo da tecnologia na disputa atual, o simples desenho do sistema já acende alertas na Justiça Eleitoral, em órgãos de controle e nas plataformas digitais.

O caso também reaquece o debate sobre regras específicas para inteligência artificial em campanhas, transparência em marketing político e limites para o uso de dados de eleitores. Especialistas defendem que contratos tecnológicos desse porte sejam escrutinados com rigor redobrado, justamente pelo potencial de afetar a integridade do voto e abrir espaço para interferência estrangeira em disputas nacionais.

Fontes: matéria original 1 · matéria original 2 · matéria original 3