Character AI e Relay fecham na onda que derruba 42% das IA
Fechamento da Character AI, fim do Relay e cancelamentos de produtos de OpenAI, Apple, Microsoft e Notion escancaram a fase de consolidação e alto risco no mercado de inteligência artificial.

Tech Desk
Encerramentos e cancelamentos mostram a fase crítica e de consolidação no setor de inteligência artificial.
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A falência da Character AI e o fechamento do Relay, somados ao cancelamento e pivô de produtos de gigantes como OpenAI, Apple, Microsoft e Notion, expõem um verdadeiro “cemitério” de projetos de inteligência artificial e revelam o custo alto da corrida global pela tecnologia.
42% dos projetos de IA morrem no meio do caminho
Levantamento da S&P Global Market Intelligence indica que cerca de 42% das iniciativas de IA acabam abandonadas pelas próprias empresas que as criam. Os motivos vão de falta de financiamento e desafios técnicos a dificuldade de escalar e baixa adesão dos usuários, num cenário em que grandes plataformas incorporam rapidamente as funções que antes eram diferencial de startups.
O Relay, ferramenta que automatizava fluxos de trabalho e e-mails com agentes de IA como alternativa ao Zapier, encerrou as operações em agosto, após cinco anos tentando sobreviver ao avanço de automações nativas em produtos de empresas como OpenAI e Google. A Character AI, conhecida pelos chatbots personalizados, também não resistiu e pediu falência cinco anos depois de chegar ao mercado, pressionada por custos altos e pela competição direta com assistentes conversacionais mais conhecidos.
Além das falências formais, uma série de apostas de IA simplesmente some das prateleiras digitais ou é absorvida por produtos maiores, sem grande alarde. Para investidores, isso significa risco elevado, mesmo em projetos que pareciam promissores. Para usuários e desenvolvedores, a consequência é a perda repentina de ferramentas e fluxos de trabalho que passaram a fazer parte da rotina.
OpenAI recua de ‘super app’ e fecha aplicativos paralelos
Nem as empresas mais valiosas do setor escapam dos tropeços. A OpenAI tentou transformar o ChatGPT em um “super app”, unificando experiências como modos de chat, programação e trabalho em uma única interface. A mudança, lançada em julho, foi mal recebida. Em comunicado, a própria companhia admitiu que “o redesign rapidamente gerou críticas dos usuários que acharam a nova interface confusa e desordenada”, o que levou a uma rápida reversão para o visual anterior.
Paralelamente, a empresa vem descontinuando aplicativos independentes e absorvendo suas funções diretamente no ChatGPT. O navegador com IA ChatGPT Atlas foi encerrado em 9 de agosto, com recursos reaproveitados dentro da plataforma principal. O mesmo caminho seguiu o Operator, agente capaz de navegar na web e executar tarefas em nome do usuário, além de o gerador de imagens DALL-E perder protagonismo como destino separado, à medida que a geração de imagens passa a ocorrer dentro do próprio chat.
Outro caso foi o Sora, plataforma de vídeo com IA da empresa, que enfrentou custos operacionais altos e dificuldade de reter usuários. O serviço fechou em março de 2026, tornando-se um dos exemplos mais ruidosos de como até projetos vistosos podem não encontrar escala sustentável.
Entenda o contexto
Esses movimentos apontam para uma estratégia de consolidação: em vez de manter vários produtos paralelos, a OpenAI concentra esforços em um núcleo forte — o ChatGPT — e dispensa o que não ganha tração suficiente ou pesa no caixa. O efeito colateral é ampliar a dependência dos usuários de um único ambiente e reduzir o espaço para soluções especializadas, muitas vezes oferecidas por startups menores.
Apple, Microsoft e Notion também enfrentam recuos
Fora do universo das startups, grandes corporações igualmente colecionam correções de rota. A Apple apostou alto no pacote Apple Intelligence, com a promessa de um Siri renovado, mais contextual e capaz de entender o que acontece entre diferentes apps. Mas o lançamento foi sendo adiado sucessivas vezes. A própria empresa reconheceu que “Apple repetidamente adiou o lançamento do novo Siri, citando problemas de engenharia e bugs”.
Os atrasos ajudaram a empurrar a companhia para um acordo de US$ 250 milhões, após acusações de marketing enganoso sobre as capacidades de IA do iPhone 16. Só recentemente a versão Siri AI começou a aparecer em beta no iOS, inicialmente para usuários de língua inglesa, com expansão a outros idiomas prevista para fases posteriores.
Na Microsoft, o alvo de críticas foi o Recall, recurso apresentado como uma “memória fotográfica” para PCs com Windows, capaz de tirar capturas de tela periódicas do que o usuário faz para permitir buscas no próprio histórico digital. Especialistas em segurança reagiram de imediato, alertando para o risco de exposição de dados sensíveis. Segundo eles, “críticos argumentaram que Recall poderia criar um arquivo pesquisável de informações altamente sensíveis”, como senhas, mensagens privadas e dados financeiros.
Diante da pressão, a empresa adiou o lançamento por quase um ano e refez proteções de segurança e privacidade. Ainda assim, a polêmica persiste: uma nova ferramenta criada por pesquisador de cibersegurança mostrou ser capaz de extrair dados armazenados pelo Recall, reacendendo dúvidas sobre a eficácia das mudanças.
A Notion, por sua vez, decidiu encerrar um produto inteiro. O Notion Mail, serviço de e-mail com foco em IA lançado em abril de 2025 para organizar e automatizar caixas de entrada, será desligado em 22 de setembro. “Notion Mail será encerrado em 22 de setembro devido ao uso de agentes de IA externos pelos usuários”, informou a empresa, admitindo que grande parte da base prefere combinar a plataforma principal com assistentes de IA de outros fornecedores.
Humane AI Pin vira símbolo do risco em hardware
Se no software as falhas costumam ser absorvidas por atualizações e pivôs, no hardware os erros custam caro. O Humane AI Pin, dispositivo vestível com IA anunciado como alternativa ao smartphone, levantou US$ 230 milhões em investimentos e virou um dos projetos mais comentados do setor. No uso real, porém, o aparelho sofreu com desempenho inconsistente e limitações práticas.
A situação piorou quando a própria empresa alertou clientes para pararem de usar o estojo de recarga por risco de incêndio na bateria. Sem conseguir reverter a imagem de produto problemático, a Humane encerrou o negócio do AI Pin em fevereiro de 2025, vendendo a maior parte dos ativos à HP por US$ 116 milhões. O episódio esfriou o entusiasmo de parte do mercado com dispositivos vestíveis baseados em IA, ao menos até que questões de segurança, autonomia e utilidade fiquem mais claras.
Outros gadgets tentam evitar destino semelhante. O Rabbit R1, também vendido como assistente físico capaz de executar tarefas em nome do usuário, foi criticado por desempenho instável e poucas integrações úteis logo após o lançamento, apesar das 100 mil unidades vendidas rapidamente. A empresa insiste em atualizações e agora tenta reposicionar o produto como um “controlador” para executar tarefas em computadores, ao mesmo tempo em que anuncia um novo projeto de hardware voltado a desenvolvedores.
Startups menores sucumbem à competição das gigantes
Em meio aos holofotes sobre grandes nomes, uma longa lista de projetos independentes de IA fecha as portas sem tanto barulho. O app Huxe, criado por ex-desenvolvedores do NotebookLM para transformar textos em áudios em formato de podcast, encerrou atividades em maio de 2026, justamente quando plataformas com base instalada gigante, como o Spotify, começaram a oferecer experiências parecidas de áudio com IA.
O Yupp, playground que permitia comparar respostas de centenas de modelos de IA lado a lado e remunera usuários com criptomoedas, também não encontrou tração suficiente. Em seu auge, a plataforma permitia testar mais de 800 modelos de empresas como OpenAI, Google e Anthropic. Mesmo assim, os fundadores admitiram que o produto não atingiu o chamado “product-market fit”, e o serviço foi encerrado em março de 2026.
Outro exemplo é o Figgs AI, voltado para criação e interação com personagens de IA para role-play e storytelling. Apesar de ter ultrapassado 1 milhão de usuários entre 2023 e 2024, os próprios desenvolvedores disseram que manter o serviço gratuito ficou financeiramente inviável, levando ao fechamento.
Esses casos repetem um padrão: quando grandes plataformas passam a oferecer recursos parecidos para bases de usuários muito maiores, startups perdem rapidamente seu diferencial. Muitas vezes, ou não conseguem capital para bancar a infraestrutura necessária, ou descobrem que o nicho é menor do que parecia nos primeiros meses de euforia.
O que o ‘cemitério’ de IA diz sobre o futuro do setor
O acúmulo de falências, pivôs e cancelamentos sugere que o mercado de IA entra em fase de consolidação e amadurecimento. Funcionalidades que surgem em startups — seja um chatbot como a Character AI, seja automações como as do Relay — acabam absorvidas por plataformas maiores, que têm mais capital, dados e alcance para escalar.
Ao mesmo tempo, os tropeços de OpenAI, Apple, Microsoft e Notion mostram que nem o peso da marca garante aceitação imediata. Redesigns revertidos, atrasos longos, acordos milionários por marketing considerado enganoso e controvérsias de privacidade indicam que usuários estão mais exigentes com experiência, transparência e segurança.
Para investidores, o recado é de risco alto e seleção mais cuidadosa. O fiasco do Humane AI Pin, mesmo após levantar centenas de milhões de dólares, é exemplo de que não basta apostar na “novidade de IA” se o produto não entrega desempenho consistente e não resolve um problema claro do dia a dia.
Nos próximos meses, a tendência é que mais serviços independentes sejam desligados ou incorporados a ecossistemas maiores, enquanto reguladores e especialistas pressionam por padrões mais rígidos de proteção de dados. Em paralelo, empresas de todos os tamanhos tentam ajustar suas apostas às demandas reais dos usuários, para evitar que a próxima grande promessa de IA acabe apenas como mais um nome no crescente cemitério da tecnologia.


