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Lançamentos de IA

Chatbots de IA erram em massa e influenciam eleições nos EUA hoje

Metade dos adultos nos EUA já usou chatbots de IA, e 8% recorrem a eles para tirar dúvidas sobre as eleições de meio de mandato. Estudos mostram quase 40% de respostas com erros factuais e forte uso de sites partidários 'pink slime'.

Tecnologia

Estudos revelam erros frequentes em chatbots de IA que impactam a opinião pública nas eleições americanas.

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Enquanto eleitores americanos escolhem hoje seus candidatos nas eleições de meio de mandato, uma parte do voto está sendo influenciada por respostas de chatbots de inteligência artificial — muitas vezes cheias de erros factuais, informação desatualizada e links para sites partidários disfarçados de notícia.

IA já entra na rotina do eleitor americano

Pesquisas recentes indicam que cerca de 50% dos adultos nos Estados Unidos já usaram algum chatbot de IA, e 8% recorreram a essas ferramentas especificamente para buscar informações sobre candidatos e políticas antes de votar. As consultas vão de dúvidas básicas sobre prazos para votar por correio a resumos de propostas e histórico de parlamentares.

Na prática, isso coloca sistemas como ChatGPT (OpenAI), Claude (Anthropic), Gemini (Google) e Grok (xAI) como intermediários entre o eleitor e a informação política em um dos pleitos mais observados do planeta, que ocorre em paralelo ao Mundial de Seleções.

Quase 40% das respostas têm erro

Um estudo do Forum AI analisou respostas eleitorais dos principais chatbots e encontrou pelo menos um erro factual em quase 40% delas. Em um dos casos levantados, o Gemini, do Google, informou de forma equivocada o prazo para solicitar voto por correio na Pensilvânia: o sistema disse que o limite era hoje, 3 de novembro, quando o prazo correto se encerrou em 27 de outubro.

Em outro exemplo, ao ser questionado por que alguém deveria votar no deputado Don Davis, da Carolina do Norte, o Claude, da Anthropic, confundiu o congressista com um ex-superintendente escolar homônimo, misturando trajetórias profissionais distintas em uma mesma resposta.

Esses deslizes vão além de meras datas trocadas: prazos errados podem levar um eleitor a perder o direito de votar por correio, e confusões de biografia distorcem a avaliação sobre quem está em disputa.

‘Pink slime’ contamina as fontes

Outra frente de preocupação é a origem das informações que os chatbots usam para formular respostas. Levantamento da organização NewsGuard mostra que essas ferramentas citam com frequência sites conhecidos como “pink slime”: páginas que imitam o visual e o tom de veículos jornalísticos locais, mas são financiadas por grupos políticos ou ideológicos e publicam conteúdo altamente tendencioso.

Segundo a pesquisa, em perguntas sobre candidatos e políticas ligadas às eleições de meio de mandato, os chatbots recorreram a sites “pink slime” em quase metade das respostas. O pior desempenho foi o do ChatGPT, que citou esse tipo de página em mais de 70% das buscas analisadas. Na outra ponta, o Grok, da xAI, teve a menor incidência, ainda assim alta, de 30%.

Ao tratar esses sites como se fossem fontes jornalísticas comuns, os sistemas ajudam a amplificar conteúdos que parecem neutros, mas são parte de estratégias de campanha ou de pressão ideológica.

Entenda o contexto

A popularização dos chatbots coincide com um ambiente digital saturado de desinformação política. Plataformas sociais já são alvo de críticas há anos pela dificuldade de conter boatos e campanhas coordenadas. A diferença agora é que o eleitor conversa diretamente com um sistema que se apresenta como “ajudante” ou “assistente”, o que pode reforçar a percepção de neutralidade e autoridade.

Esses modelos de IA trabalham de forma preditiva: eles calculam, com base em enormes volumes de dados, qual sequência de palavras tem mais probabilidade de vir a seguir, sem necessariamente checar a veracidade de cada afirmação. Quando faltam dados confiáveis, a tendência é “completar” a resposta, mesmo sem base sólida.

Para o eleitor comum, essa lógica técnica é invisível. Na tela, o que aparece é um texto fluido, seguro, sem alertas visíveis de incerteza ou lacunas, o que aumenta o risco de que informações erradas sejam aceitas como fato.

Especialistas veem eleitor despreparado

Pesquisadores de desinformação e organizações da sociedade civil soam o alarme para o uso da IA generativa em um momento de alta polarização. Nina Jankowicz, diretora executiva do American Sunlight Project e ex-czar de desinformação da administração Biden, avalia que o público ainda não entende bem os limites dessas ferramentas.

“Não acho que a maioria dos americanos esteja preparada para navegar uma eleição na era da IA de consumo”, afirma. Para ela, empresas de tecnologia “superestimam” o que os sistemas conseguem entregar com precisão. “Ele tem que ingerir essas informações de algum lugar, e muitas vezes essas fontes não são muito boas. E é preditivo, então, se não sabe a resposta, frequentemente inventa”, diz.

Na prática, isso significa que dúvidas legítimas sobre política pública, regras eleitorais ou histórico de candidatos podem ser respondidas com uma mistura de dados corretos, desatualizados e inventados — tudo apresentado no mesmo tom confiante.

Empresas sob pressão e silêncio parcial

O debate sobre responsabilidade das big techs ganha força com o avanço da votação. Questionadas sobre os erros e o uso de fontes problemáticas, Google e Anthropic optaram por não comentar até o momento. Já a OpenAI direcionou para um texto em seu blog em que descreve a abordagem adotada para as eleições de 2026, sugerindo medidas para tentar reduzir desinformação e deixar mais claros os limites do sistema.

As empresas vêm sendo pressionadas a ajustar algoritmos, filtrar melhor as fontes consultadas e incluir salvaguardas para temas sensíveis, como eleições. Há também cobrança por mais transparência sobre como os modelos são treinados, que sites entram na conta e como são tratados conteúdos partidários ou comprovadamente falsos.

Reguladores, acadêmicos e grupos de direitos digitais defendem que, além de mudanças técnicas, é urgente investir em alfabetização midiática e digital, ensinando o eleitor a checar informações em fontes oficiais, como secretarias eleitorais estaduais, e a desconfiar de respostas únicas, por mais convincentes que pareçam.

Impacto na confiança democrática

A combinação de uso crescente de chatbots e alta taxa de respostas com erro amplia o risco de confusão sobre regras básicas da eleição, distorce a percepção sobre perfis de candidatos e pode influenciar diretamente o voto. O efeito é mais grave entre eleitores com menor hábito de buscar informações em múltiplas fontes ou com pouco conhecimento prévio sobre política.

Para especialistas, se essa tendência continuar sem correções, a confiança nas ferramentas digitais — e, por extensão, no próprio fluxo de informação que sustenta o debate público — tende a se desgastar. A expectativa é que, passado o dia de hoje, o desempenho dos chatbots nas eleições vire munição para novos debates regulatórios e pressione o setor de tecnologia a responder de forma mais concreta sobre como pretende proteger a integridade da informação em futuras disputas eleitorais.