Mercados
S&P 5007.736▲ 0,17%Nasdaq26.467▼ 0,04%Dow Jones52.510▲ 0,25%Ibovespa171.138▼ 2,60%FTSE 10010.696▲ 0,09%DAX25.684▲ 0,36%Nikkei63.954▲ 1,08%DólarR$ 5,36▲ 0,16%EuroR$ 5,97▲ 0,25%BitcoinR$ 431.562▼ 0,21%Powered by WIREDESK OSS&P 5007.736▲ 0,17%Nasdaq26.467▼ 0,04%Dow Jones52.510▲ 0,25%Ibovespa171.138▼ 2,60%FTSE 10010.696▲ 0,09%DAX25.684▲ 0,36%Nikkei63.954▲ 1,08%DólarR$ 5,36▲ 0,16%EuroR$ 5,97▲ 0,25%BitcoinR$ 431.562▼ 0,21%Powered by WIREDESK OS
Powered by WIREDESK OS
Lançamentos de IA

Documentos revelam megaoperação secreta do ICE contra a esquerda

Defesa dos “Minnesota 15” expõe rede nacional de vigilância do ICE com drones, infiltração em igrejas e interceptação de apps criptografados para mirar opositores das políticas migratórias de Trump.

Documentos revelam megaoperação secreta do ICE contra a esquerda

Segurança

Investigação expõe táticas secretas do ICE para monitorar grupos de oposição às políticas migratórias.

Leia também: Anthropic elimina teste de código e pede visão de negócio em 2026

Documentos da Justiça dos Estados Unidos revelam que a Immigration and Customs Enforcement (ICE) conduz uma operação de vigilância doméstica em larga escala contra movimentos sociais de esquerda e opositores das políticas de imigração de Donald Trump, usando drones militares, infiltração em igrejas e interceptação de conversas em aplicativos criptografados na região de Minneapolis–Saint Paul e em estados vizinhos.

As informações vieram à tona no processo dos 15 residentes de Minnesota acusados de conspiração federal — o grupo apelidado de “Minnesota 15” — e apontam que a ação faz parte de dois programas de contrainteligência, batizados de Project Whipple Shield e Operation Puppet Master, autorizados pelo Memorando Presidencial de Segurança Nacional 7 (NSPM 7). A medida orienta forças federais a usar todos os recursos disponíveis contra organizações e indivíduos que criticam a administração e defendem ideias classificadas como “anti-cristãs”.

O que é a operação de vigilância anti-esquerda conduzida pelo ICE?

A operação de vigilância anti-esquerda conduzida pelo ICE é um esquema de inteligência interno, ancorado em Project Whipple Shield e Operation Puppet Master, que usa ferramentas de contraterrorismo para monitorar e infiltrar movimentos progressistas em Minnesota e em outros estados. Na prática, o Departamento de Segurança Interna (DHS) repagina estruturas criadas para investigar narcotráfico e terrorismo e as redireciona para a repressão a dissidentes domésticos.

No centro desse arranjo está a Operation Keyhole, um programa da divisão Homeland Security Investigations (HSI), ativa desde dezembro de 2008, que banca operações clandestinas com recursos federais. Desde sua criação, Keyhole financiou pelo menos 77 investigações, originalmente voltadas a crimes como tráfico de drogas, abuso sexual infantil e lavagem de dinheiro. Agora, documentos internos mostram que ela passou a sustentar também operações voltadas a movimentos sociais anti-ICE.

Um desses documentos, que detalha o escopo da Operation Puppet Master — a investigação que resultou na acusação dos Minnesota 15 — termina registrando: “Este caso também foi aceito sob a Operação CUC Keyhole”, em referência à sigla usada internamente para “Certified Undercover Operations”. “Este caso também foi aceito sob a Operação CUC Keyhole”, diz o texto, reproduzido em petições judiciais.

Especialistas em segurança e direitos civis afirmam que nada dessa escala é visto no país desde as campanhas federais contra a Nova Esquerda e o movimento anti-guerra na segunda metade do século passado. Advogados e ex-agentes comparam o desenho do programa ao histórico COINTELPRO, do FBI, que espionou e sabotou movimentos civis por décadas.

Como o ICE está realizando essa vigilância em larga escala?

O ICE está realizando essa vigilância em larga escala por meio de uma combinação de tecnologia militar, poderes ampliados do Patriot Act e infiltração humana em organizações civis, coordenada pela HSI a partir de Minnesota.

Relatórios anexados ao processo indicam que cerca de 120 agentes da HSI foram designados para a rede de operações ligada ao caso Minnesota 15, incluindo 11 agentes infiltrados. Parte deles integra unidades de operações especiais pouco conhecidas, abastecidas por equipes experientes em crimes financeiros complexos, investigações de cartéis de drogas, tráfico humano e crime organizado.

Entre as técnicas usadas estão o emprego de drones Reaper não armados para vigiar deslocamentos de ativistas na área de Minneapolis–Saint Paul, interceptação de chats em grupos no aplicativo Signal e varredura sistemática de placas de veículos em estacionamentos de conferências e reuniões políticas em diferentes estados. Há registros de conferências de ativistas em cidades como Seattle, Chicago e Nova York colocadas sob monitoramento.

Os relatórios descrevem também como agentes infiltrados se aproximaram de grupos anti-ICE nos chamados Twin Cities, participando de treinamentos de artes marciais, cursos sobre direitos civis, marchas, greves gerais e assembleias comunitárias. Em vários casos, esses infiltrados acessaram redes de comunicação usadas por voluntários para identificar veículos suspeitos da imigração e despachar equipes para segui-los nas ruas.

De acordo com os autos, a Operation Keyhole financiava seis investigações ativas na região de Minneapolis–Saint Paul quando foi renovada em junho, incluindo o Project Whipple Shield, aberto para apurar supostos casos de agressão, perseguição e exposição de dados pessoais de agentes federais — acusações que hoje sustentam parte do processo criminal contra os Minnesota 15.

Entenda o contexto

A ofensiva de inteligência do DHS ganha força após a publicação do NSPM 7, emitido na esteira do assassinato do influente comentarista conservador Charlie Kirk, em setembro do ano passado. O memorando, classificado como controverso, ampliou o mandato de forças federais para investigar o que a administração Trump descreve como “terrorismo doméstico” e “ameaças internas”, incluindo grupos que questionam políticas migratórias e agendas religiosas alinhadas ao governo.

É nesse ambiente que surge a Operação Metro Surge, uma ação nacional para endurecer a fiscalização de imigração. Em Minnesota, ativistas organizam redes de resposta comunitária para monitorar viaturas do DHS, registrar abordagens e alertar moradores, usando bases de dados caseiras e canais criptografados. A Casa Branca ordena que o Departamento de Justiça “vá com tudo” contra essas redes, abrindo caminho para as acusações de conspiração que hoje recaem sobre os Minnesota 15.

Três ex-agentes de segurança que analisaram os documentos apresentados no processo afirmam que o caso integra uma operação de inteligência ainda mais ampla, iniciada antes mesmo da chegada massiva de tropas federais a Minnesota, no fim do ano passado. Segundo eles, o que aparece no tribunal é apenas uma parte de um aparato que se estende a outras cidades e estados, em paralelo às ações ostensivas nas ruas.

Quais grupos estão sendo monitorados pelo ICE nessa operação?

Os grupos monitorados pelo ICE nessa operação são, principalmente, movimentos anti-ICE, redes comunitárias que se opõem às políticas de imigração de Trump, coletivos de esquerda e organizações progressistas ligadas a igrejas e espaços comunitários. A mira recai sobre quem critica publicamente a administração e se engaja em ações diretas de apoio a imigrantes e contra operações federais.

Nos autos do caso Minnesota 15, aparecem como alvos: voluntários que participam de monitoramento de viaturas do DHS, organizadores de greves e marches, grupos que promovem treinamentos de “conheça seus direitos” e conferências de ativistas que reúnem participantes de múltiplos estados. Igrejas ligadas a essas redes também foram infiltradas por agentes sob disfarce, em possível descumprimento de ordens judiciais que limitavam esse tipo de ação em espaços religiosos.

Os próprios réus do Minnesota 15 são retratados pelos promotores como parte de uma suposta “rede nacional” que usaria aplicativos criptografados e bancos de dados improvisados para identificar agentes federais, rastrear seus movimentos e, em alguns casos, confrontá-los fisicamente. A defesa, porém, afirma que a maioria das atividades descritas é de natureza política e comunitária legítima, como observar operações federais em locais públicos e prestar apoio jurídico a imigrantes.

Além de Minnesota, documentos e depoimentos indicam que equipes da HSI envolvidas na mesma malha de operações atuaram em casos contra ativistas em outras regiões, incluindo a Califórnia, reforçando a percepção de um programa coordenado em escala nacional.

Direitos civis sob pressão

Para organizações de direitos civis, o caso Minnesota 15 é um teste crítico sobre até onde o governo pode ir ao usar ferramentas de contraterrorismo contra cidadãos politicamente engajados. Especialistas alertam para o risco de que a combinação de drones, infiltração e interceptações digitais crie um efeito de intimidação duradouro em comunidades que dependem da organização de base para resistir a políticas federais.

Advogados de defesa afirmam que as acusações contra os 15 réus extrapolam em relação ao que eles teriam, de fato, feito, e funcionam como recado a outros ativistas. “Esta é a primeira vez que tenho um cliente acusado de conspiração que fez uma turnê de palestras”, diz o advogado Kevin Riach, que representa o réu Isaac Sant. Ele sustenta que o processo criminal nasce de uma operação de vigilância desenhada para desarticular a oposição às políticas migratórias, não para responder a crimes concretos.

A comparação com programas históricos como o COINTELPRO e a Operação MH/Chaos, da CIA, é recorrente entre ex-agentes que hoje criticam o endurecimento pós-11 de setembro. Eles veem na Project Whipple Shield e na Operation Puppet Master uma atualização tecnológica de estratégias antigas de neutralização de movimentos de esquerda — agora impulsionadas por algoritmos, bancos de dados massivos e vigilância aérea de alta resolução.

Para o governo Trump e o alto escalão do DHS, por outro lado, o aparato é descrito como indispensável para enfrentar o que chamam de “terrorismo doméstico” e “extremismo anti-cristão”. A aposta é que o NSPM 7 e programas como Keyhole abram espaço para operações ainda mais amplas nos próximos meses, enquanto o caso Minnesota 15 se transforma em palco central de uma disputa jurídica que pode redefinir os limites da vigilância estatal sobre a dissidência política nos Estados Unidos.