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Lançamentos de IA

Eleições EUA: como data centers e IA podem mudar seu voto em 3/11

Em evento em Brooklyn, data centers e inteligência artificial dominam debate cinco dias antes das eleições de meio de mandato, expondo choque entre big tech e comunidades locais.

Eleições EUA: como data centers e IA podem mudar seu voto em 3/11

Tecnologia

Debate em Brooklyn destaca impacto da inteligência artificial e data centers nas eleições americanas de meio de mandato.

Leia também: Novo CEO da Apple revela plano para IA e desafia rivais em 2026

Em um galpão em Brooklyn, Nova York, jornalistas, ativistas, especialistas em tecnologia e políticos transformaram, nesta semana, os data centers e a inteligência artificial no assunto mais quente das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, a cinco dias da votação marcada para 3 de novembro. No centro das falas estiveram o impacto ambiental e social dessas infraestruturas, a falta de transparência nos acordos bilionários e a sensação de que comunidades inteiras estão perdendo o controle sobre o próprio território.

Evento em Brooklyn expõe racha entre big tech e comunidades

O encontro, organizado pela empresa de mídia Newsreel, fundada pelo jornalista Jack Brewster, começou como uma conversa sobre eleições, atenção digital e estratégias de campanha, mas rapidamente foi tomado por queixas contra a “nova infraestrutura” da era da IA: os data centers. No palco, passaram o cofundador do aplicativo de foco Opal, Kenneth Schlenker, o criador do software de gestão de campanhas Barza, Aryan Banjan, além de um time de comentaristas políticos e de tecnologia.

O vereador de Nova York Chi Ossé deu o tom logo em uma conversa ao estilo “fireside chat”. Ele admitiu que quase não usa IA, mas concentrou o discurso em responsabilização. Para ele, executivos de tecnologia e bilionários precisam ser chamados a responder publicamente pelos riscos que admitem em público. “Quando CEOs falam sobre uma tecnologia que poderia esgotar 10% da civilização humana, eles deveriam ser chamados a depor no Congresso”, afirmou, defendendo também a taxação mais pesada sobre trilionários como Elon Musk.

Na sequência, um painel específico sobre data centers, moderado pela jornalista que relatou o encontro, reuniu a pesquisadora de tecnologia e direitos humanos Maia Woluchem e a ativista ambiental e de saúde pública Hilary Flint. Antes de começar o debate, a mediadora perguntou quem na plateia era “pró–data center de IA” e foi recebida com vaias — um termômetro imediato do clima no galpão.

Entenda o contexto

O pano de fundo do encontro é um boom de data centers puxado pela corrida da inteligência artificial. São instalações que consomem grandes volumes de energia e água, exigem mudanças de zoneamento urbano e movimentam bilhões em investimentos — quase sempre decididos em mesas fechadas entre big techs e autoridades locais. Moradores, por outro lado, passam a conviver com barulho, risco de poluição, pressão sobre infraestrutura e aumento do custo de vida.

Esse choque chegou às urnas. A IA e seus data centers deixaram de ser assunto restrito ao Vale do Silício e passaram a mobilizar eleitores em áreas rurais e urbanas. Um relatório recente da Data Center Watch, citado no evento, registrou que “quase 200 bilhões de dólares em projetos de data centers foram atrasados, paralisados ou bloqueados na primeira metade de 2026” por resistência política e comunitária. Ao mesmo tempo, estados como Pensilvânia, Geórgia, Texas, Nova York e Virgínia discutem colocar mais regras e transparência no setor.

Os dados oficiais apresentados lembram que “centenas de novos data centers estão planejados na Virgínia, a capital mundial dos data centers”, o que torna o estado o epicentro de uma disputa que mistura meio ambiente, emprego, especulação imobiliária e poder político.

Quais são as principais preocupações com os data centers?

As críticas levantadas no galpão de Brooklyn se dividem em três eixos: impactos ambientais e de saúde, falta de transparência e frustração econômica com os empregos prometidos.

Hilary Flint relatou a experiência de comunidades que recebem propostas bilionárias para abrigar data centers, muitas vezes por meio de acordos secretos negociados entre governos locais e gigantes de tecnologia. Em vários casos, regras de zoneamento pouco claras fazem com que a população só descubra o que está sendo construído quando a obra já está em andamento, o que esvazia qualquer tentativa de reação organizada.

Além da opacidade, pesam os riscos ambientais e de saúde. São instalações que podem alterar paisagens inteiras, gerar ruído constante, pressão sobre redes elétricas e hídricas e aumentar a poluição na vizinhança. Ao ser questionada sobre benefícios econômicos que alguns municípios obtiveram, Flint devolveu com uma provocação: “Qual é o valor de uma vida?”. Em seguida, emendou: “As pessoas protestam porque valorizam suas vidas mais do que um cheque temporário”.

Essa crítica mira diretamente a narrativa de que data centers seriam “salvação” econômica para regiões empobrecidas. Ativistas lembram que a maior parte dos empregos é criada na fase de construção e some quando o centro entra em operação, que tende a ser altamente automatizada. “Havia muito orgulho em comunidades do Rust Belt por grandes fábricas que representavam prosperidade e estabilidade”, lembrou a apresentadora Batya Ungar-Sargon, em outro painel. A comparação reforça a sensação de que os galpões de servidores não oferecem o mesmo horizonte de futuro que as antigas indústrias.

Data centers entram na pauta eleitoral

Se inicialmente o encontro em Brooklyn deveria tratar do futuro do Partido Democrata, o tema acabou atropelando outros assuntos. Em um painel com Batya Ungar-Sargon, o estrategista político Morris Katz e o jornalista Astead Herndon, o debate voltou a gravitar em torno dos data centers e do sentimento de traição entre trabalhadores.

Katz associou o avanço das grandes empresas de tecnologia à destruição de empregos industriais e sindicais ao longo das últimas décadas, e descreveu a nova onda de investimentos em data centers como uma espécie de “retorno” dos mesmos grupos econômicos, agora com outra roupagem, para “pegar o que sobrou” dos trabalhadores. O público reagiu com aprovação.

Herndon chamou atenção para a revolta disseminada em estados industriais. Ele citou como exemplo um evento em Ohio em que o candidato Vivek Ramaswamy foi vaiado ao defender data centers como oportunidade de desenvolvimento. “Quero apenas reforçar a falta de consentimento que está acontecendo”, disse o jornalista. Segundo ele, esse sentimento se espalha tanto entre eleitores democratas quanto republicanos.

Chi Ossé reforçou que, do ponto de vista político, o tema abre espaço para medidas como convocar CEOs ao Congresso e discutir abertamente a taxação de bilionários do setor de tecnologia. A cobrança é por mais responsabilidade sobre os riscos da IA e por garantias concretas para as comunidades afetadas, e não apenas por promessas de inovação.

Pressão cresce por regras mais rígidas

Os números apresentados no evento ajudam a explicar por que data centers e IA se tornaram tema de campanha. Com “quase 200 bilhões de dólares em projetos de data centers” travados em poucos meses, o setor sente o peso da resistência organizada de moradores e lideranças locais. Em estados como Virgínia, o rótulo de “capital mundial dos data centers” deixou de ser apenas orgulho econômico e passou a ser sinônimo de conflito permanente em torno de novos projetos.

Nos bastidores, autoridades estaduais discutem ampliar exigências ambientais, ampliar consultas públicas, rever subsídios fiscais e obrigar empresas a divulgarem mais informações sobre consumo de energia, impacto sobre a água e planos de mitigação. A tendência é que novas licenças levem mais tempo para sair — e que alguns projetos simplesmente não avancem.

Dentro do movimento sindical, há divisão. Parte das entidades apoia os empreendimentos pelos empregos temporários que surgem na construção, enquanto outra parte questiona se esses postos, de curta duração, compensam os efeitos de longo prazo sobre o território e a possibilidade de substituição de trabalhadores por IA em outros setores da economia.

Da plateia à vizinhança: a política da infraestrutura digital

Ao fim dos painéis, o clima no galpão em Brooklyn era de inquietação. Nas paredes, bilhetes colados pelo público respondiam a perguntas como “Conseguiremos tirar o Dinheiro Grande da política?”. Em um deles, alguém escreveu: “Deus, eu espero que sim”. No balcão do bar e nos grupos que se formaram ao som de música eletrônica, o assunto seguiu sendo o mesmo: quem ganha e quem perde com a expansão da IA.

Jack Brewster contou que as perguntas sobre data centers e inteligência artificial apareceram em quase todos os debates da noite e foram um dos temas mais citados pelos participantes já no formulário de inscrição. Para ele, trata-se de um sinal claro de que a IA entrou de vez na agenda de “eleitores comuns”, inclusive em Nova York, onde os data centers não são tão visíveis quanto em áreas rurais. Em sua leitura, nas cidades o incômodo passa menos pelo medo de substituição de trabalhadores e mais pela percepção de que poucos vão ficar com a maior parte da riqueza gerada pelo novo ciclo tecnológico.

Enquanto isso, relatos vindos de outras regiões do país mostram que a disputa está longe de se limitar a debates em auditórios. Uma engenheira de software presente ao evento contou que data centers estão surgindo também em sua cidade no sul da Califórnia, onde moradores — muitos deles de uma comunidade chinesa — espalham placas com desenhos de dragões sufocando um data center. Os cartazes já foram traduzidos para outros idiomas, sinal de que a mensagem encontra eco em diferentes grupos.

Com as eleições de meio de mandato batendo à porta, o que aconteceu em Brooklyn indica que a infraestrutura que sustenta a IA deixou de ser um tema técnico para especialistas e passou a ser um campo de disputa central na política americana, com efeitos diretos sobre meio ambiente, trabalho, moradia e poder local.